Especialistas esperam nova retração do comércio

Veículo: valo Economico 

Seção: Brasil 

Depois da surpresa positiva com as vendas no varejo em fevereiro, economistas avaliam que o comércio deve voltar a responder à deterioração do mercado de trabalho e ter queda das vendas em março. Segundo a estimativa média de 21 instituições financeiras e consultorias ouvidas pelo Valor Data, o volume de vendas no varejo restrito, que não inclui automóveis e material de construção, caiu 0,4% em março, após ter aumentado 1,2% em fevereiro, sempre em relação ao mês anterior, feitos os ajustes sazonais. 

As projeções para a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), a ser divulgada amanhã pelo IBGE, vão de retração de 1,6% até alta de 0,8%. Já o varejo ampliado ­ que considera, além dos oito segmentos analisados no restrito, os de veículos e materiais de construção ­ deve ter desempenho ligeiramente pior, apesar da alta nas vendas de automóveis no período. A média das projeções de 17 analistas é de queda de 0,6% das vendas no mês. 

Para Leopoldo Gutierre, sócio da 4E Consultoria, grande parte dos indicadores antecedentes mostrou piora na passagem de fevereiro para março, o que reforça a avaliação de que o varejo voltou a mostrar queda no período. Sua estimativa é de recuo de 0,7% das vendas no período. Em fevereiro, afirma, o recesso legislativo tinha contribuído para melhorar a confiança dos consumidores, o que se reverteu no mês seguinte.

Ele lembra que, em março, a confiança dos consumidores caiu 2%. Outro indicador negativo foram as vendas nos supermercados. Segundo dados da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) dessazonalizados pela consultoria, as vendas desse ramo do comércio caíram 0,8% entre fevereiro e março. Com base no Indicador de Atividade do Comércio da Serasa, o recuo foi até maior, de 1%, também na série com ajuste sazonal. "E os supermercados têm peso de aproximadamente 30% no índice restrito", lembra Gutierre.

Ainda segundo o indicador da Serasa, as vendas de móveis e eletrodomésticos encolheram 0,9% em março. Para Gutierre, ainda que a taxa básica de juros da economia tenha se mantido estável no período, os juros ao consumidor continuam subindo e as famílias estão cautelosas na tomada de crédito, diante do ambiente de incerteza que ainda domina a economia brasileira. Os demais segmentos, entre eles vestuário e combustíveis, devem ter andado de lado, diz o economista. 

A Rosenberg destaca que, se confirmada a estimativa de retração de 1% do varejo em março, as vendas no comércio devem acumular retração de 3% no primeiro trimestre, na comparação com os três meses imediatamente anteriores, feitos os ajustes sazonais. 

Para Gutierre, a queda deve ser de 2,7%. De todo jeito, é uma retração muito mais significativa do que a queda de 0,6% observada no quarto trimestre de 2015. Para o economista, a deterioração do mercado de trabalho, muito acentuada no início deste ano, ajuda a explicar essa piora, além das condições ainda restritivas de crédito e a confiança em nível historicamente baixo. 

Ao longo do ano, a expectativa é de alguma melhora do sentimento das famílias e, com isso, das vendas no varejo. Ainda assim, observa, a retomada será muito fraca, já que a desocupação deve seguir em alta. De uma queda de 7,6% do varejo restrito no acumulado até fevereiro, a Pesquisa Mensal do Comércio deve encerrar o ano com retração de 4,8%. Para o varejo ampliado, a estimativa é ainda mais negativa, de queda de 6,7% em 2016. 

Em março, o varejo ampliado deve ter encolhido 0,5%, nas contas do sócio da 4E. Para ele, o número deve ter sido ligeiramente melhor do que o do segmento restrito por causa das vendas de automóveis. Segundo dados da Fenabrave, que reúne as concessionárias do país, dessazonalizados pela consultoria, o aumento nas vendas de veículos leves foi de 5,6% entre fevereiro e março.