Descompasso entre produtividade e renda do trabalho tende a diminuir

Veículo: Valor Economico

Seção: Brasil 

A tendência de avanço dos salários acima dos índices de produtividade que marcou os últimos quatro anos, pressionando os custos trabalhistas e, em última instância, a inflação, já dá os primeiros sinais de reversão, apontou o Banco Central. A análise se baseia nos dados referentes aos salários de contratação apurados pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) e na análise das negociações coletivas no Rio e em São Paulo homologadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego no primeiro trimestre. 

Entre 2011 e 2015, o rendimento do trabalho calculado com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua saltou 13,9% em termos reais, contra queda de 1,7% observada no Valor Adicionado por Trabalhador, indicador calculado pela autoridade monetária. Em 2015, diante de retração de 3,5% da produtividade, os salários se mantiveram estáveis, segundo o boletim. Ainda que não tenha havido reversão da tendência nos números consolidados, dados de curto prazo deste início de ano sinalizam que essa inflexão estaria próxima, especialmente devido ao comportamento contracionista da renda.

As convenções coletivas de trabalho no Rio e em São Paulo vêm aprofundando as perdas reais nos últimos trimestres. Segundo o BC, a queda de 0,5% observada entre abril e junho de 2015 transformou­se em retração de 2,2% nos três primeiros meses deste ano. "Após exercerem pressão inflacionária de custos até o primeiro trimestre de 2015, as negociações passaram a incorporar o cenário de desaceleração interna e aceleração da inflação", afirma o texto. 

A dinâmica de desaceleração do salário médio real de ingresso do Caged, por sua vez, é nítida, apesar de distinta entre os setores. A maior retração foi observada na construção civil, 5,7% entre os trimestres encerrados em dezembro de 2014 e março de 2016, período em que o comércio reduziu a remuneração dos recém­contratados em 2,4%. 

O ajuste dos serviços, que começou no trimestre finalizado em março de 2014, traduz­se na queda de 3,8% das remunerações de entrada entre janeiro e março. Com redução mais branda, a indústria de transformação cortou os salários de contratação em termos reais em 1,4% desde o trimestre encerrado em dezembro de 2014. O boletim destacou que parte do comportamento desse setor se deve à opção dos empresários de manter a parcela da mão de obra mais especializada e com salários mais elevados. 

do Banco Central, Altamir Lopes, afirmou que a inflação deve continuar desacelerando em 12 meses. Lopes reiterou a mensagem da ata do Copom, segundo a qual, apesar dessa descompressão, ainda não há espaço para redução de juros. Questionado sobre medidas de estímulo, como a liberação de compulsório para injetar recursos na economia, afirmou que, no momento, não as considera adequadas. "Primeiro é preciso restabelecer a confiança para que esses instrumentos de impulso voltem a funcionar de maneira natural", disse.