Déficit da indústria cai 85% e fica em US$ 2 bi no 1º trimestre do ano

Veículo: Valor Econômico 

Seção: Brasil 

O déficit comercial da indústria de transformação caiu significativamente, de US$ 14,7 bilhões no primeiro trimestre do ano passado para US$ 2 bilhões no mesmo período deste ano, como resultado de exportações de US$ 26,8 bilhões e de US$ 28,8 bilhões em importações. O déficit no primeiro trimestre deste ano caiu a um sétimo do que foi em 2015, segundo levantamento do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). Segundo a entidade, a balança deve fechar o ano zerada e não se descarta um pequeno superávit. Em bases anuais, a balança da indústria de transformação é deficitária desde 2008. 

No primeiro trimestre do ano passado o déficit do setor já havia caído, após sucessivas elevações desde 2008. A queda do saldo negativo em 2015, porém, foi em escala menor: de US$ 18,8 bilhões para US$ 14,7 bilhões. A boa notícia adicional é que, diferentemente do que aconteceu em no ano passado, não é somente a forte retração da importação que explica o recuo do déficit este ano. 

Segundo Rafael Fagundes Cagnin, economista do Iedi, uma parte da queda também resulta do processo de substituição de importações nos setores de calçados, têxtil e confecção e também à recuperação de exportação de segmentos como o de automóveis, reboques e semi­reboques. Esse último segmento chegou a mudar o sinal do saldo comercial neste ano. 

Com déficit de US$ 1,5 bilhão no primeiro trimestre de 2015, a indústria de veículos e reboques fechou os três primeiros meses deste ano com superávit de US$ 203 milhões. "Essa inversão de sinal é importante dentro da trajetória de déficits comerciais seguidos do setor para o trimestre desde 2009. Ou seja, desde a crise internacional esse segmento não tinha um saldo positivo na balança comercial", destaca Cagnin. 

A virada este ano, diz, foi resultado não somente da redução de importações como também da alta de exportações do setor. Do primeiro trimestre de 2015 para este ano as importações caíram 38,9%, para US$ 2,3 bilhões, como reflexo da retração do mercado interno e da influência do câmbio nas compras externas de automóveis de preços mais elevados. No mesmo período, as exportações subiram 7,3%, para US$ 2,5 bilhões. 

Os embarques de veículos foram puxados pelas vendas à Argentina e México, diz Cagnin. As vendas de automóveis para a Argentina e para o México cresceram, respectivamente, 45,6% e 77,5% no primeiro trimestre contra igual período de 2015. Os veículos de carga aumentaram em 24,6% e 28,5%, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento. 

Essa elevação do segmento deve­se à taxa de câmbio favorável às exportações, cujo efeito tarda a se concretizar. "A tendência é chegar primeiro em setores mais flexíveis, como têxteis e calçados, ou mais competitivos, como celulose. Ou ainda, como o setor automotivo, que tem a produção ligada a cadeias globais e oferece facilidade no deslocamento de produção do mercado doméstico para o externo." 

O economista do Iedi avalia que no ajuste que o setor externo experimenta em razão do câmbio e da retração da economia interna, a exportação de manufaturados é a que mais demora a mostrar resultados concretos. "Isso se dá por conta da alta heterogeneidade e da diversidade de qualidade dos produtos, além de contratos de longo prazo e existência de cadeias de suprimento já estabelecidas." 

Por enquanto, diz Cagnin, é difícil dizer se a recuperação de exportação terá sinais mais claros para outros setores no segundo semestre. "Não descarto a possibilidade de um pequeno superávit, mas parece mais provável que o ano feche com um saldo mais equilibrado e próximo de zero. "

Welber Barral, ex­secretário de Comércio Exterior e sócio da Barral M Jorge, diz que a recuperação de exportações já era esperada para este ano. Para ele, no ano que vem essa retomada ficará mais evidente e poderá ser identificada em outros segmentos. 

"As exportações demoram para reagir ao câmbio porque as empresas precisam retomar mercado, certificar produtos e obedecem ao ciclo comercial, que dura um ano a um ano e meio, em média, dependendo do setor", diz Barral. "Ou seja, os resultados estão começando a chegar agora. E há muitas empresas estudando mercados, levantando condições tarifárias, buscando contratos de distribuição. Esse esforço de exportação das empresas brasileiras vai ficar mais evidente no ano que vem." O câmbio surte efeitos na exportação, diz ele, no médio e longo prazo. 

O ponto negativo, diz Barral, fica para a grande queda das importações das indústrias e no meio dessa redução, o recuo na compra de bens de capital do exterior. Trata­se de uma queda de investimento que, se mantida, irá tirar a capacidade e a competitividade da produção industrial brasileira também no médio e longo prazo. "O efeito do câmbio na exportação era esperado. O que não era tão esperado era a queda tão grande nas importações, que ainda contribuem de forma significativa para a redução do déficit na indústria."

No setor de calçados, têxtil e de confecções, diz Cagnin, há indicações de outro fenômeno propiciado pelo câmbio desvalorizado: a substituição de importações. No primeiro trimestre, diz ele, esses segmentos tiveram retração de 44,8% de queda nas importações, uma taxa acima da média da indústria de transformação, de 32%. No setor têxtil, diz o economista, os dados de entidades do setor mostram que houve no primeiro bimestre do ano queda de 37,8%, em volume, das importações. Nas exportações, houve aumento de 3,7%, também em quantum, sempre contra igual período do ano anterior. 

Para Cagnin, os dados mostram o efeito do câmbio nas duas pontas: na maior competitividade para as exportações e também em relação ao fornecimento ao mercado doméstico, já tirando lugar de alguns importados. 

Outro setor muito importante para a redução de déficit comercial, diz Cagnin, foi o setor de alimentos, bebidas e tabaco. O segmento representa 30% das exportações da indústria e, embora ainda não esteja elevando os embarques, tem desacelerado o ritmo de queda. No primeiro trimestre de 2014, destaca o economista do Iedi, as exportações do setor caíram 10,4%. No ano seguinte a redução foi de 6,3% e este ano, de 2,5%. "O segmento caminha para uma taxa positiva de exportações." 

O problema é a influência do cenário político no câmbio, diz Rodrigo Branco, pesquisador do Centro de Estudos de Estratégias de Desenvolvimento da Uerj. Isso, avalia, torna mais difícil projetar o cenário de balança para a indústria. Pelos indicadores atuais, ele considera possível um saldo mais próximo do equilíbrio, com pequeno déficit ou pequeno superávit. 

"Nos últimos dois anos tivermos uma desvalorização de cerca de 70% na moeda nacional, o que traz impactos esperados para a exportação e para a substituição de importações", diz Branco. "Mas a questão política traz impacto no mercado acionário, no câmbio e na expectativa dos empresários, principalmente no curto prazo, o que torna difícil avaliar o restante do ano." 

Enquanto não se define o cenário político, diz Branco, a volatilidade da taxa atrapalha as indústrias que precisam fechar contratos com prazos de três a seis meses à frente. "O empresário não consegue prever os preços e por isso segura as importações e exporta o que consegue."