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Comércio e serviços ampliam desemprego

Veículo: Valor Econômico

 

A desaceleração gradativamente maior da atividade do comércio e dos serviços diante do alongamento da recessão contribuiu para que o mercado formal registrasse em fevereiro o maior número de demissões líquidas para o mês desde 1992, quando começa a série do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). No mês passado, conforme os dados divulgados ontem, o país perdeu 104,6 mil empregos com carteira, 55,5 mil no comércio e 9,2 mil nos serviços - ambos muito dependentes do desempenho da renda.

A indústria e a construção civil, por sua vez, depois de contabilizarem demissões líquidas tanto em 2014 quanto em 2015, continuam contribuindo negativamente para o quadro do emprego formal. Em fevereiro, o primeiro fechou 26,2 mil postos - contra abertura de 2 mil vagas no mesmo mês do ano passado -, enquanto o segundo cortou 17,2 mil empregos - ante 25,8 mil em fevereiro de 2015. A administração pública foi a única entre os oito setores do Caged a gerar vagas no período, 8,6 mil.

As perdas registradas pelo comércio e pelos serviços, para o economista Luiz Fernando Castelli, da GO Associados, espelham a queda expressiva do consumo das famílias nos últimos meses. O ajuste nos setores, ele pondera, é em parte um desdobramento da contração da demanda agregada - um movimento mais recente do que a retração dos investimentos, que, por sua vez, teve impacto negativo importante no nível de emprego da indústria e da construção civil.

Diante do comportamento defasado do mercado de trabalho em relação aos demais indicadores de atividade e da expectativa da GO de retração de 1,8% do Produto Interno Bruto (PIB) neste primeiro trimestre - na comparação com os três meses imediatamente anteriores e já feito o ajuste sazonal -, o emprego formal deve seguir contraindo pelo menos até o fim deste primeiro semestre. "No segundo semestre talvez haja algum sinal de estabilização", completa.

Os serviços deram a principal contribuição negativa para a queda real de 1,6% dos rendimentos dos novos contratados, no confronto com fevereiro de 2015, conforme os cálculos da MCM Consultores. Excluídos os efeitos sazonais, acrescenta a instituição em relatório, o saldo negativo do setor foi de 51 mil, significativamente pior do que o apurado em janeiro, 27,1 mil. O comércio também registrou deterioração maior, com perda de 47,2 mil postos, ante 15,6 mil no primeiro mês do ano.

Fabio Romão, da LCA Consultores, destaca que o resultado negativo dos serviços em fevereiro foi puxado especialmente pelo desempenho do segmento de comércio, administração de imóveis e atividades auxiliares (-27,3 mil), ramo bastante pulverizado. "Um sinal que a deterioração no setor está mais espraiada", diz.

O economista chama atenção também para o fechamento ainda expressivo de postos de trabalho na indústria de transformação, que registrou cortes em dez dos 12 segmentos. Juntos, os ramos metalúrgico, mecânico e de material de transportes fecharam mais de 12 mil vagas.

O segundo resultado positivo da indústria calçadista, entretanto, que soma 11,2 mil novos postos de trabalho no bimestre, pode ser um sinal dos primeiros efeitos benéficos das exportações sobre o nível de emprego, acrescenta Castelli, da GO. "Esse impacto demora a aparecer. Talvez o setor tenha sido o primeiro a reagir".

Com a expectativa de retração da renda média real do trabalho também em 2016 - ainda que em nível menor do que os 3,7% mostrados pela Pesquisa Mensal de Emprego (PME) no ano passado -, pondera Romão, da LCA, o Caged deve registrar novos saldos negativos e fechar o ano com perda de 1,2 milhão de postos com carteira assinada, contra 1,6 milhão em 2015. Para março, sua projeção preliminar indica perda de 88,5 mil empregos.

O Nordeste foi a região mais atingida pela queda no nível de emprego registrada no país em fevereiro, perdendo 58,4 mil vagas no mês. O número representa uma queda de 0,89% no estoque de empregados, na comparação com o mês anterior. O Sudeste vem em seguida, com corte de 51,9 mil postos de trabalho, retração de 0,25%. A região Norte perdeu 7,8 mil vagas, 0,43% menos do que em janeiro. Na outra ponta, geraram empregos as regiões Sul - 8,8 mil postos criados, um acréscimo de 0,12% no estoque - e Centro-Oeste - 4,7 mil, aumento de 0,15%.



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