Indústria aprende a mudar hábitos mais rápido que consumidor

Veículo: Valor

Seção: Economia

Nos EUA, pensar em água na hora de planejar o futuro dos negócios já é mais regra que exceção para as empresas. Em setores que precisam de água para fabricar produtos, irrigar plantações ou atender clientes, a preocupação com o risco hídrico faz parte do planejamento estratégico básico. “Na seca, a indústria aprende mais rápido que o consumidor a mudar hábitos, porque sente na pele o impacto financeiro.

Para o consumidor, a conta de água só sobe um pouquinho”, afirma David Feldman, professor na Escola de Ecologia Social na Universidade da Califórnia, Estado que enfrenta uma seca que já dura quatro anos. Pesquisa realizada pela Carbon Disclosure Project (CDP), ONG internacional que incentiva empresas e poder público a medirem e divulgarem informações ambientais, aponta que dois terços das empresas entrevistadas relataram estar expostas a riscos substantivos para os negócios por causa da água.

Destas, 44% preveem que riscos hídricos se materializem nos próximos três anos, informa o 2015 Global Water Report, da CDP . Mais de um quarto (27 %,), foram negativamente impactadas em mais de US$ 2,5 bilhões em 2015. Os relatos vêm de 405 diferentes indústrias, como mineração, química e óleo e gás. “Companhias inteligentes já estão incorporando o risco da água às suas estratégias de gestão em suas próprias operações e em suas redes de abastecimento também”, afirma Christina Copeland, gerente da CDP. “A água é a força vital para os negócios.”

Nas grandes indústrias, o professor David Feldman explica que o impacto econômico é maior em setores que precisam de muita água na produção: aço, alumínio e têxtil por exemplo. As alternativas adotadas pelas companhias nesses casos, quando a água falta, diz o professor, focam basicamente no reúso. Na Califórnia, maior produtor agrícola dos EUA, a seca reduziu as lavouras e derrubou a geração de energia das hidrelétricas, em uma perda ao Estado estimada em US$ 2 bilhões. “E levou a um aumento da emissão de gases de efeito estufa devido à necessidade de queimar mais combustíveis fósseis”, diz Peter Gleick, presidente do Pacific Institute, ‘think tank’ especializado em pesquisar soluções e caminhos para os desafios ligados à água. ”À medida que as mudanças climáticas crescentemente afetam o nosso clima, muitos desses custos subirão”, prevê Glick, que diz que, nos quatro anos da seca, a meta para as restrições no uso de água era reduzir o consumo urbano em 25%.

Nas restrições adotadas, foi priorizado o consumo por pessoas, para saúde e para a indústria, área considerada prioritária para a economia. A agricultura, que consome 80% de toda a água nos EUA, foi mais prejudicada e ganhou limites mais rígidos. Os preços da tarifa de água, que nos EUA são definidos pelos fornecedores de cada região, pesaram mais no orçamento das empresas. “Algumas agências municipais elevaram o preço durante a seca por duas razões: para encorajar a conservação e o uso mais eficiente, e para ajudar a cobrir receitas perdidas com a queda nas vendas”, afirma Glick. “A seca não mudou os preços da água para a agricultura, exceto em alguns lugares onde o mercado permite a venda de água. Nessas áreas, os preços ficaram bem mais altos”, explica.

Marcus Frank, consultor sênior da consultoria McKinsey em São Paulo, diz que, no mundo, 7 0% da água utilizada vão para a agricultura. “No Brasil é muito diferente porque se irriga muito pouco. A nossa agricultura é mais baseada em chuva, diz. A necessidade de adaptação na Califórnia, no entanto, se reflete em todo tipo de negócio. É visível nos restaurantes de São Francisco, por exemplo, onde oferecer copos d’água gratuitos aos clientes sempre foi marca registrada de hospitalidade. Nos últimos anos, o hábito precisou ser abandonado por causa da água limitada e tem gerado reclamações de muitos consumidores, que criticam os estabelecimentos em aplicativos como o Yelp quando os copos deixam de ser reabastecidos durante a refeição.

No relatório da CDP, as respostas enviadas por algumas empresas ilustram a preocupação e o tipo de impacto que a água pode representar para os negócios. A fabricante de alimentos ConAgraFoods dizia no relatório que sua unidade processadora de tomates em Helm, na Califórnia, precisaria pagar quase quatro vezes o preço da água caso ultrapassasse o limite de água autorizado pelo governo para consumo. “A Califórnia está enfrentando uma das secas mais severas de que se tem registro, afetando duas fábricas de tomate localizadas em Sacramento”, diz o texto. Mas indica também que ambas as unidades adotaram projetos múltiplos para conservar água, com custos de implementação próximos a US$ 100 mil: medidores de água, instalação de novos tanques de reúso. Após as medidas, o consumo de água na unidade de Helm caiu 40%.

Em janeiro deste no, no entanto, a ConAgraFoods anunciou o fechamento da fábrica, que empregava 102 trabalhadores. Já a fabricante de bebidas Constellation Brands disse à CDP ter investido US$ 400 mil em iniciativas de redução de consumo de água na Califórnia. “Solicitamos às fábricas que pensassem maneiras de conservar água em suas regiões e que nos dessem estimativas de custo para essas medidas”, relata.

Na Califórnia, a seca deixou também um legado de mudanças regulatórias. Hoje, por exemplo, é obrigatório reportar, em períodos determinados, qualquer redução nos níveis de águas subterrâneas e lençóis freáticos. Também foram criados incentivos financeiros para mudar hábitos — como programas que pagavam proprietários de casas dispostos a trocar o gramado de seus jardins por outras opções com gestão eficiente de água. Gleick cita ainda os programas educacionais adotados, estimulando as pessoas a tomar banhos mais curtos, parar de regar o gramado e de lavar carros, por exemplo. Feldman, da Universidade da Califórnia, destaca que, na comparação com o Brasil, um diferencial positivo dos EUA é o maior nível de confiança da população na gestão pública da crise hídrica. “Muitos dos problemas vistos durante a seca em São Paulo, por exemplo, é que os gestores não eram vistos como preparados para enfrentar o problema. Não planejaram, não dividiram a informação, disseram uma coisa e fizeram outra. Isso teve tanto peso quanto a seca em si”, diz.

Feldman ressalta que, além da Califórnia, quase toda região dos Estados Unidos já enfrentou problemas relacionados à oferta de água. Entre os casos mais graves ele destaca a cidade de Flint, no Estado de Michigan, que ganhou a atenção da mídia no fim do ano passado em razão da água turva que saía das torneiras, altamente concentrada com agentes tóxicos. A fim de cortar custos, as autoridades optaram pelo desligamento do sistema hídrico de Detroit e passaram temporariamente a usar a água do rio Flint para abastecer a cidade, até que um novo reservatório estadual ficasse pronto. O caso gerou revolta e pressão para que o governador do Estado, Richard Snyder, renunciasse ao cargo. Em Flint, 40% da população vivem na linha da pobreza. “Na minha opinião a causa para o problema em Flint foi política.

A água do Rio Flint, quando interagia com o sistema de distribuição, gerava uma água corrosiva. Havia jeitos fáceis de prever isso”, diz. “Ainda precisa haver uma investigação, mas acredito que haverá impacto no nível de confiança das pessoas”. Se a experiência americana pode ensinar alguma coisa ao Brasil, diz Feldman, é que megacidades como São Paulo não podem mais olhar para os problemas de oferta de água como questões temporárias. “Você não pode mais se apoiar só em medidas paliativas”, diz.