"2015 ensinou o poder destruidor de não se fazer nada"

Veículo: Valor Econômico. 

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O péssimo desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) em 2015 ensinou "o poder destruidor" de não se fazer nada, permitindo que a queda da confiança se consolide e se espalhe por vários setores da economia, alerta Armando Castelar, coordenador de economia aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV). Para ele, se persistir a falta de iniciativa política, sem a adoção medidas que alterem a dinâmica da dívida e enfrentem problemas estruturais, o país "vai continuar afundando", e haverá um "risco preocupante de aceleração da perda de confiança". 

O resultado pode ser um PIB em 2016 pior do que em 2015 ­ por enquanto, o Ibre projeta retrações de 3,4% neste ano e de 0,4% no ano que vem, mas os riscos são de um desempenho mais fraco. Segundo Castelar, ainda há setores expressivos da sociedade que não foram afetados pela crise, porque o nível de emprego e de renda ainda não caiu muito. Esse quadro tende a mudar em 2016, com a perspectiva de deterioração do mercado de trabalho. A perda de confiança tende a se ampliar, num cenário em que outras notícias também deverão afetá­la, como a quebra de um número maior de empresas, diz ele. A seguir, os principais trechos da entrevista. 

Valor: O PIB teve um resultado muito pior do que se projetava no começo de 2015. Por quê? 

Armando Castelar: Essa é uma crise de confiança na política econômica. O desempenho foi pior do que se projetava porque não houve resposta que pudesse restabelecer a confiança e reduzir a incerteza. Com isso, a confiança foi diminuindo, como se vê nos indicadores de confiança. O investimento foi se retraindo, o consumidor foi se retraindo, os bancos foram se retraindo. Quando você investe, está contando com receber retorno no futuro. Se o futuro ficou mais incerto, você investe menos. O consumidor não quer tomar dinheiro para comprar um automóvel se vê o futuro mais incerto. O banco não vai emprestar dinheiro para alguém se não sabe se, no futuro, a pessoa estará empregada, se a empresa vai estar lá ainda. Esse processo foi se acumulando. 

Valor: A expectativa era especialmente em relação à questão fiscal? 

Castelar: Principalmente, mas também quanto à inflação. Havia a expectativa de que haveria uma resposta mais rápida. Houve também outros fatores que influíram na confiança, embora sejam menos estruturais, como a preocupação com o apagão, a falta de água em São Paulo, a própria desvalorização do real. É uma crise de credibilidade. Não se enxerga o futuro. Você olha o futuro e não se sabe como isso vai acabar. 

Valor: Qual a influência da crise política? 

Castelar: Ela é parte desse caldo de cultura. Mas o problema principal é a falta de iniciativa política. Não há propostas que façam frente ao tamanho do problema. Joaquim Levy [ex­ministro da Fazenda] tentou um pouco, mas não conseguiu. Na questão da reforma da Previdência, isso aparece com muita nitidez. Não há uma proposta. Uma parte do governo está contra outra parte do governo. Fala­se numa reforma o a partir de 2027. Até lá, a coisa já estourou. O fato de que há o risco de impeachment e perda de popularidade também restringe a disposição do governo de tomar medidas mais ousadas, que sejam impopulares. Há sempre o risco de o Congresso não aceitar ou fazer coisas contra o ajuste, embora os parlamentares tenham aprovado muitas coisas, como aumentos de impostos. 

Valor: O investimento cai há dez trimestres seguidos. O que explica uma queda tão persistente e o que isso significa para a economia? 

Castelar: O que explica é a perda de confiança. O investimento é componente da demanda o mais sensível a esse tipo de coisa, por ser todo relacionado ao futuro. Além disso, houve muita intervenção na regulação pública, toda a confusão no setor elétrico. Para mim, isso pesou muito, pelo modo como foi feito. A ideia de que o governo ia intervir no detalhe da regulação econômica aumentou o grau de incerteza na economia. Outro ponto é a Petrobras, que era uma grande investidora, e está cortando o investimentos a grandes facadas. Isso tem levado junto um pedaço importante da economia, como o setor de petróleo e gás, a indústria naval, todos os fornecedores. A Petrobras por si é uma fonte de incerteza. Ninguém sabe se o governo terá de colocar dinheiro na empresa para recapitalizá­la. 

Valor: O consumo das famílias encolheu 4%, uma queda muito forte. Em que medida é reflexo de altas muito fortes dos anos anteriores? 

Castelar: É reflexo principalmente do fato de que havia uma trajetória insustentável. O consumo crescia muito à frente da produtividade, da renda das famílias, alimentado pelo crédito. O endividamento das famílias aumentou muito. Setores como comércio, construção civil, intermediação financeira e outros serviços cresceram muito, e o que você vê são alguns desses segmentos sofrendo mais. Há uma queda do crédito às famílias, o que trava o consumo. 

Valor: O que 2015 indica para 2016? 

Castelar: O que 2015 ensinou é o poder destruidor de não se fazer nada, de você permitir que a queda da confiança vá se consolidando, vá se espalhando e que mais gente seja atingido por essa queda da confiança. Ainda há segmentos grandes da sociedade que não estão tão afetados. O mercado de trabalho ainda não foi tão atingido. O nível de emprego não caiu muito e o nível de renda não caiu muito. O que 2015 ensina para 2016 é que, se não fizer nada, o país vai continuar afundando, com um risco preocupante de uma aceleração na perda de confiança e de acabar com um resultado ainda pior neste ano do que no ano passado. Há indicadores que vão abalando a confiança ­ a pessoa abre o jornal e vê que o PIB caiu 3,8% ­, mas muitos ainda não sentem isso em suas vidas, porque não ficaram desempregados e a renda ainda não caiu. A questão é que há uma chance muito grande de que isso mude em 2016 e que as pessoas fiquem muito mais preocupadas, pela deterioração do mercado de trabalho, mas também por outras notícias. Um número muito maior de empresas deverá começar a quebrar em 2016. 

Valor: Quando o fundo do poço deve ser atingido? 

Castelar: Nas nossas estimativas, o PIB ainda tem queda no ano que vem, de 0,4%. Na comparação de trimestre com trimestre, acho que começará a haver estagnação no fim deste ano. Para este ano, projetamos retração de 3,4%. Mas repare que nós estamos num cenário de forte incerteza. Ninguém pode garantir que a situação não será ainda mais negativa. A queda no primeiro semestre vai ser ainda significativa, principalmente o primeiro trimestre. 

Valor: O que pode fazer a economia sair desse cenário de retração com inflação alta? 

Castelar: É necessário um choque de confiança. Precisa de um pacote de medidas que resolvam a questão da dinâmica da dívida. O Senado também está discutindo medidas interessantes de natureza mais estrutural, como a questão da emenda do senador José Serra (PSDB­SP) sobre o pré­sal. Há também a discussão sobre a independência do Banco Central e o senador Tasso Jereissati (PSDB­CE) tem uma proposta sobre governança de empresas estatais. Também é importante reforma da Previdência, e não apenas para 2027.

Valor: Qual a principal herança negativa para o longo prazo? 

Castelar: São duas. Primeiro, será necessário passar bastante tempo digerindo todo esse aumento de gasto e de dívida que você teve. O segundo é que, além da queda de investimento, há uma destruição de capacidade numa escala gigantesca. Houve políticas que colocaram muito capital em projetos não competitivos, que não vão produzir. É o caso de refinarias no Nordeste, de muita coisa da indústria naval. Muito dessas políticas que eram muito protecionistas, baseadas em subsídios e compras públicas, gerou capacidade que depois da crise vai ter desaparecido. A avaliação tradicional diz que a capacidade que produziu no passado está lá e, se a economia voltar, será de novo ocupada, o que significa que o hiato do produto é grande. Mas acho que essa medida está superestimando esse hiato porque uma parte dessa capacidade não vai voltar nunca. Ela dependia de subsídios públicos que você não vai ter como viabilizar.