Investimentos acumulam dez trimestres de queda

Veículo: Folha de São Paulo. 

Seção: Mercado. 

Num ambiente de pouca confiança dos empresários e incertezas sobre a retomada do crescimento econômico, os investimentos tiveram uma queda de 4,9% no quarto trimestre do ano passado em relação aos três meses anteriores.

Com mais um resultado ruim, os investimentos —chamados tecnicamente de formação bruta de capital fixo— acumularam dez trimestres consecutivos de queda, a mais longa da nova série histórica do IBGE, iniciada em 1996

Considerando a antiga série histórica do IBGE, que tem metodologia diferente da atual, é também uma sequência sem precedentes desde 1991.

Frente ao mesmo trimestre do ano anterior, a queda foi ainda mais intensa, de 18,5%, mostram os dados divulgados nesta quinta-feira (3) pelo instituto.

Após uma sequência tão ruim, os investimentos encolheram 14,1% no ano passado. O setor já havia recuado 4,5% em 2014.

Esse tombo no ano foi liderado por uma combinação de menor importação e produção de bens de capital (como máquinas e equipamentos para indústria, agropecuária). O resultado negativo da construção civil também pesou.

O menor dinamismo da economia fez a taxa de investimento cair para 18,2% do valor do PIB (Produto Interno Bruto), medida de bens e serviços produzidos pelo país em 2015.

Retomar os investimentos era uma esperança para tirar o Brasil do atoleiro. No início de fevereiro, a presidente Dilma Rousseff disse que os investimentos públicos e privados eram o caminho para enfrentar a crise.

Com o ajuste fiscal e a crise na Petrobras, contudo, o governo teve um papel decisivo no colapso dos investimentos do país ao longo do ano, ao lado das estatais federais. Em 2014, os gastos públicos ainda atenuavam a onda recessiva.

Além disso, o desânimo dos empresários é um grande desafio. O índice de confiança da indústria está no menor patamar desde 2001, o ano de racionamento de energia no país. A crise política também agrega incertezas sobre o futuro.

Segundo Luis Otávio Leal, economista do banco ABC Brasil, tão ruim quanto a proporção da queda em si é o que ela significa para o potencial de crescimento do país nos próximos anos. Investimentos significam mais capacidade para crescer no futuro.

Ele diz que o PIB potencial brasileiro, que é a capacidade de o país crescer sem gerar inflação, foi reduzido de algo próximo de 4% em 2012 para 1,5% na atual conjuntura. Ele não descarta que os investimentos continuem se retraindo neste ano.

"A insegurança política será um fator para que os investimentos continuem caindo. É um ciclo vicioso. A confiança do consumidor cai e abala a dos empresários. Isso faz com que eles não invistam. E não há luz no fim do túnel para mudá-lo", afirma Leal.