E assim, se passaram três anos, sem...

Veículo: Valor Econômico. 

Seção: Política 

Dilma se afastou do PT, o PT se afastou de João Santana, João Santana se afastou de Lula, Lula se afastou dos empreiteiros, o governo está isolado, mas estão todos juntos, com seus destinos entrelaçados, por obra das ações de tantos anos e, sobretudo, para efeito de dispor de meios para as campanhas eleitorais futuras. 

Está tudo no roteiro: o PT faz de conta que manda, Dilma faz de conta que obedece, entrega uma cabeça aqui, outra acolá, Lula tira do mando quem não tem força para transgredir a seu favor, e vai­se armando o circo. Não haverá desocupação de cargos do governo, entrega do ouro a uma presidente com aliados que são verdadeiros adversários, tendo a única vantagem entre todos os partidos que agora farão a campanha em novas regras: só o PT tem caixa e possibilidade de nutri­la. 

O divórcio precisa haver, é questão de sobrevivência no poder, e ele se efetiva no discurso. O discurso é de oposição, não poderia ser diferente. Todos os candidatos à sucessão de Dilma, sejam de que partido forem, serão de oposição. O PT não ficaria só na defesa de um governo derrotado. 

É isso o que está ocorrendo, o PT constrói e treina um discurso de oposição. Sua contrapartida para pedir o voto é a volta de um governo Lula, que considera ideal para prometer ao eleitorado. Mesmo que o candidato acabe não sendo Lula. Àquela época não havia crise, foi possível segurar os gastos no início e depois abrir os cofres. É essa lembrança a que vai recorrer. Em vez de falar de crise internacional, o PT vai ao ataque. 

Já derrubou os ministros Aloizio Mercadante, Joaquim Levy e José Eduardo Cardozo, da Casa Civil, da Fazenda e da Justiça, não por acaso os mais importantes do governo. O PT quer passar a impressão que esses homens perseguem o partido e o ex­presidente Lula e é por isso que está na boca do povo. Embora nada vá mudar na atuação do governo, para o eleitorado menos informado, isso se torna verdade, e o partido, e seus candidatos, podem desenvolver amplamente o discurso de oposição ao governo na política, na economia, na área social, onde é preciso, por absoluta falta de dinheiro, impor restrições e reformas. 

Levy por Barbosa, Cardozo por Wellington, Mercadante por Jaques Wagner. O que muda? Nada, nem para Lula. O PT não vai largar seus ricos postos de comando para conduzir a eleição municipal e a sucessão presidencial. E a coerência do discurso não importa. 

O PT está em campanha de recuperação e de manutenção do poder. E desde que o marketing eleitoral mandou nas campanhas, o discurso ao eleitorado é completamente dissociado do plano de governo. O que o candidato diz na campanha não é, e nunca pensou que fosse, o que fará se chegar lá. A campanha é uma ilusão na qual o marqueteiro mistura sua utopia com os truques da arte, faz um samba enredo e ganha muito dinheiro. 

Todos na campanha serão oposição, o PT não será diferente, não vai ficar sozinho tentando justificar o fracasso de Dilma. E ainda tem chance de dizer que o projeto do Lula, se for ele mesmo o candidato, ou o que vai empurrar ao seu escolhido, deu certo antes e dará novamente depois. Melhor que os outros projetos, cujas realizações de executivo já vão longe da memória.

Não se busque, nem se proponha coerência. Artigo que não existe na política, nem entre campanha e governo, nem entre partido e governo, nem dentro do partido nem dentro do governo. O PT não tem saída fora da oposição, no discurso, e do governo, no domínio dos cargos. 

O único problema real, do qual Lula e o PT não têm como se desvencilhar nessa estratégia é o da corrupção. Para isso introduziu providencialmente o passa fora na Polícia Federal, e reforçou a banca de advogados de defesa. Mesmo que nada se mude ali, o PT, os capa­pretas de Lula, como os deputados Paulo Pimenta e Wady Damous, escalados para o tiro de misericórdia no ministro da Justiça, estão tentando pespegar na PF a pecha de algozes do santo guerreiro. 

O PT está levando Dilma à incoerência, mas também aí não há alteração de peso na ordem das coisas. O governo nunca teve coerência, e vive ao sabor da brisa que sopra naquele dia. 

Assim vão se passar os três anos, os 1.035 dias que faltam para uma mudança do cenário: seja para continuar no mesmo lugar, seja para ir de vez e oficialmente para a oposição, vocação inarredável do PT. 

Agora, é preciso esquecer do governo, baixar a expectativa. O Congresso não tem como aprovar nada, principalmente manobras radicais. O governo aumentou ontem, nas contas de despesas e receitas do trimestre, a arrecadação deste ano com a CMPF. É tudo uma fantasia, pode calcular quanto quiser na arrecadação do imposto, não vai mesmo ser aprovado. 

Só para a corrupção não há solução eleitoral, o tema continuará dominando esse longo final. Por isso o xeque­mate no ministro da Justiça e na PF, além do Ministério Público. Lula quer evitar ser preso, uma medida forte demais até para seu modo agressivo de operação, e enquanto não consegue tirar seu nome do foco policial, a estratégia é insistir para que coloquem também os nomes dos adversários do PT. Milimetricamente estudado. 

Filme esse que já disputou o Oscar de 2002, quando José Serra foi candidato do governo Fernando Henrique. O presidente, alvo de baixa popularidade em meio a dificuldades de apagão, reajuste da gasolina, e um ministro da Fazenda muito menos colaborativo (Pedro Malan, que não segurava nada), do que agora são Nelson Barbosa e a própria Dilma, continuou governando como se campanha não houvesse. Serra não assumiu o que no governo foi sucesso, fugiu da identificação com o presidente que estava em melhores condições do que Dilma agora, perdeu identidade e a eleição. 

Era um candidato do governo com discurso disfarçado de oposição. Para Serra foi difícil, tanto que quando candidato o tucano Aécio Neves resgatou o legado do governo FH, e seu deu bem. Mas o PT faz isso com o pé nas costas. Já dissemos aqui, em outro momento de dilema do partido, que o bom mesmo, para o PT, seria o impeachment, para que pudesse atacar o governo que assumisse no lugar da Dilma e ficar na oposição confortável. Mas, além de demorada, a solução era risco de perder os cargos. O partido precisava iniciar logo a nova configuração de imagem. O PT não só não desembarcou, como está cada vez mais embarcado. É oposição no discurso. E o governo segue remando mas não conseguirá aprovar nada no Congresso. Até a vista, daqui a três anos.