"10 de Pelé" virou "10 de inflação, deficit e desemprego", diz economista

Veículo: Folha de S. Paulo

Seção: Mercado

O economista Alberto Ramos, do banco Goldman Sachs, fez americanos e brasileiros rirem ao lembrar, em evento em Nova York, que o número 10 costumava ser associado ao Pelé.

"Hoje, quando falamos do número 10, podemos falar da taxa da inflação, do deficit fiscal, da direção em que caminha a taxa de desemprego em 2016 e da popularidade da presidente [Dilma Rousseff]", comparou, em debate organizado pela Câmara de Comércio Brasil-EUA, na quarta-feira (27).

O cenário é "deprimente", o Brasil está uma "bagunça", mas "a boa notícia é que nada dura para sempre". "Como ou quando sairemos disso, não sabemos."

Ramos apresentou a "profunda recessão" em números: os últimos sete trimestres registraram contração do PIB; nos últimos nove, houve redução de investimentos a taxas anualizadas de em média 10%; a demanda doméstica final caiu em cinco dos últimos seis trimestres. Sua estimativa é que a economia se contraia em 4% em 2015 e 3% em 2016.

Se o governo e autoridade [monetária] não agirem, alertou, é possível que o mercado force um ajuste por meio de um choque de câmbio: "Inflação muito alta é ruim, mas tem o efeito de equilibrar".

"Não defendo a inflação livre, mas vemos as dificuldades institucionais e políticas. Se a inflação correr alta nos próximos anos, a figura fiscal muda. Não recomendo, mas a inação [do governo e da autoridade monetária] pode levar a esse cenário."

O custo será empobrecer o país, afirmou em entrevista à Folha.

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Folha - Como o mercado forçaria o ajuste fiscal?

Alberto Ramos - Com choque de câmbio, a inflação fica bem mais alta e a receita do Tesouro aumenta, porque a atividade nominal cresce com a inflação.

Grande parte da base tributária cresce com a inflação. Se conseguir conter a expansão do gasto e desvincular o gasto da inflação passada, isso ajuda na consolidação fiscal.

Esse é o cenário em que o mercado fica mais negativo, há saída de capital, "overshooting" do real [quando se considera que a taxa de câmbio está mais alta que o esperado], em que basicamente o BC perde um pouco o controle da inflação, se vê incapaz de trazê-la para a meta.

Se a taxa ficar alta em três ou quatro anos, é regressivo do ponto de vista social e deveria ser evitado a todo custo, mas vimos episódios em vários outros países em que se perde o controle do processo, a inflação acelera e acaba por fazer o ajuste fiscal.

Mas é um ajuste fiscal que empobrece o país, ninguém quer fazer por essa via, nem no governo nem fora do governo.

Há algum sinal de que isso será evitado?

Isso tem muito a ver com a psicologia do mercado. O investidor chega a um ponto em que desiste um pouco de investir e leva a essa dinâmica financeira em que o câmbio se desancora e cria uma dinâmica perversa.

O que o senhor espera do Banco Central?

A sinalização é que o BC não quer mais aumentar os juros, dadas as incertezas domésticas e externas. É um argumento razoável, mas, por outro lado, na projeção do BC, a inflação não se alinha com a meta no final de 2017 e o BC diz que fará tudo que for necessário para entregar a inflação na meta.

Então, há um risco, sim, de que essa projeção piore pela desancoragem das expectativas de inflação, que continuam aumentando.

Se a inflação projetada piorar, e já esta acima da meta, o BC se vê um pouco pressionado para eventualmente fazer alguma coisa com os juros para forçar essa convergência da inflação com a meta no final de 2017.

A elevação dos juros ainda pode diminuir a inflação?

O instrumento principal do BC é esse. A não ser que, nessas condições, ele assuma o risco de que, em 2017, não esteja na meta e no final de 2016 esteja acima do topo da meta.

Dado que a economia está extremamente debilitada, o BC pode achar que não vale a pena subir mais os juros, que não teria efeito. Há argumentos sólidos. Não é claro aqui o que o BC deve fazer no curto prazo.

O sr. diz que tudo há de se resolver. Como?

No curto prazo, não há muitos cenários muito positivos. Isso ainda pode demorar um pouco.

O que é crucial é a consolidação fiscal, e não dá para fazê-la do dia para a noite. É preciso que o jogo político consiga aprovar reformas estruturais de médio e longo prazo. Estamos em uma situação de recessão profunda, mas tudo se resolve.

O Brasil já superou crises bem mais difíceis.