Dupla crise trava política econômica e eleva custo do ajuste

Veículo: Valor

Seção: Economia

O Brasil convive hoje com uma crise política e uma crise econômica que se realimentam e provocam dupla consequência: manutenção de índices de confiança em níveis muito baixos e aumento do custo de um ajuste fiscal que o país precisa. Na política há um impasse. A falta de limite para os desdobramentos dos escândalos de corrupção da Operação Lava­Jato — que entrou hoje em sua 20ª. fase —, resulta em acordos políticos frágeis e, consequentemente, na postergação de uma solução definitiva para crise fiscal no país, “além da sucessão de erros na articulação política do Executivo e a baixa popularidade da presidente Dilma Rousseff”.

Na economia, o ajuste fiscal emperrado revela a falha existente na coordenação das políticas fiscal, monetária e cambial no país. A análise é do economista Gesner Oliveira, sócio principal da GO Associados. No editorial do Relatório Executivo Semanal, distribuído a clientes neste início de semana, Gesner comenta que os fundamentos da economia brasileira sustentam uma taxa de câmbio mais depreciada. A volatilidade nos preços dos ativos, porém, torna o ambiente econômico tão incerto que obriga o Banco Central a persistir nas intervenções cambiais com a venda de contratos de swap. O programa de venda de swaps até recentemente seguia para um encerramento, que o ambiente não permite.

O economista pondera que a indefinição do quadro fiscal repercute na inflação. O relatório da GO não menciona o BC, mas recorda que “a intolerância com a inflação e sua comunicação [ao mercado e à sociedade] sugeria que os esforços não seriam medidos para levar o IPCA ao centro da meta de 4,5% em 2016. Rapidamente a descoordenação das políticas foi evidenciada. O reconhecimento pela autoridade monetária de que o centro da meta de inflação será alcançado somente em 2017, escreve Gesner Oliveira, indica que os juros permanecerão em níveis elevados (14,25% ao ano) por um longo período. “A estimativa da GO é de manutenção até o fim de 2016, pelo menos.

O BC só deverá voltar a subir a Selic se houver riscos para a inflação encerrar o ano que vem no limite superior de tolerância da meta, 6,5%. Uma coordenação mais eficaz das políticas monetária, fiscal e cambial permitiria ao país sair mais rápido da atual recessão, entende a consultoria. Ao mesmo tempo em que é importante perseverar nas medidas de ajuste e buscar uma agenda pós ajuste que terá papel fundamental na recuperação da confiança.

Em tempo: o cenário mais provável para a GO Associados é de não aprovação pelo Congresso da recriação da CPMF para a realização de um superávit primário em torno de 0,5% do PIB em 2016.