Para analistas, repasse cambial levará a salto da inflação no atacado em outubro

Veículo: Valor

Seção: Economia

A continuidade do repasse cambial aos preços industriais e o impacto imediato da escalada do dólar sobre produtos agropecuários levaram a inflação no atacado a dar um salto em outubro, avaliam economistas. Depois de alta de 0,95% em setembro, 18 instituições financeiras e consultorias ouvidas pelo Valor Data estimam que o Índice Geral de Preços­Mercado (IGP­M) subiu 1,93% neste mês.

As projeções para o indicador vão de avanço de 1,77% a 2%. Confirmadas as expectativas, terá sido o maior IGP­M mensal desde junho de 2008, quando o indicador calculado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) avançou 1,98%. A inflação acumulada em 12 meses também deve ter mostrado aceleração significativa entre setembro e outubro, de 8,35% para 10,14%. A FGV divulga os dados amanhã. O IGP­M deve ter mostrado trajetória semelhante à do Índice de Preços ao Produtor (IPP), indicador do IBGE que mede a variação de preços na porta de fábrica, sem impostos e fretes. O IPP disparou entre agosto e setembro, ao passar de 0,96% para 3,03% ­ maior alta da série histórica da pesquisa, iniciada em 2014.

Para Eduardo Velho, economista­chefe da INVX Global Partners, as pressões de custos, o realinhamento de preços relativos e o impacto da depreciação acumulada do real sobre os bens comercializáveis devem se refletir em alta de 1,97% do IGP­M em outubro. O economista avalia que itens como soja, milho, laranja e minério de ferro registraram aceleração em relação ao mês passado. "A recessão mais robusta no setor imobiliário contribui para atenuar esse movimento, mas o INCC [Índice Nacional de Custo da Construção] representa apenas 10% do índice total", afirma Velho, abaixo do peso de 60% do Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA) e de 30% do Índice de Preços ao Consumidor (IPC). Divulgado ontem pela FGV, o INCC­M subiu pouco na passagem mensal, de 0,22% para 0,27%, ajudado pela ausência de reajustes de mão de obra.

Segundo o economista da INVX, os aumentos esperados para preços agrícolas e industriais confirmam o seu cenário, segundo o qual o grau de repasse da desvalorização do câmbio à inflação não será tão reduzido como se imaginava nos meses anteriores. "A despeito da recessão econômica, estimamos uma inflação elevada na ponta do consumidor nos próximos meses, e com repercussões nos índices de 2016", diz. A equipe econômica do Bank of America Merrill Lynch (BofA) prevê que o IGP­M alcance 1,9% neste mês. Além da variação cambial, o banco acrescenta que o reajuste de gasolina e do diesel autorizado pela Petrobras nas refinarias, em vigor desde 1º de setembro, também deve ter pressionado a inflação ao produtor. Nas estimativas da LCA Consultores, o IPA teve alta de 2,79% neste mês, mais que o dobro da taxa de 1,30% registrada em setembro. De acordo com a consultoria, o índice do atacado subiu puxado pela pressão sobre os itens agropecuários e também, sobre diversos produtos industriais, como produtos alimentícios e bebidas, produtos têxteis, artigos de vestuário, couro e calçados, celulose e produtos de papel, máquinas e equipamentos e produtos derivados do petróleo.

A variação de preços no varejo também foi maior nos cálculos da LCA, que projeta aumento de 0,32% para 0,64% no IPC de setembro para outubro. "Esperamos taxas mais altas em alimentação, habitação, vestuário, educação e transportes", diz consultoria. Velho, da INVX, observa que os preços ao consumidor captaram as correções do gás de botijão, da gasolina e dos planos de saúde.