O enigma da China

Veículo: Valor

Seção: Economia

Domingo, 30 de agosto, a "Folha de São Paulo" ofereceu a seus leitores a entrevista do economista Michael Pettis, professor da Universidade de Pequim. Pettis é um dos mais respeitados estudiosos da emergência da China como protagonista da cena econômica global. O economista sustenta que a desaceleração da economia chinesa tem a ver "tanto com a China, quanto com a economia mundial". Mais adiante, Pettis afirma: "Minhas previsões a respeito da desaceleração chinesa são feitas a partir de minha obsessão com a história econômica dos países em desenvolvimento.

Houve dúzias de milagres econômicos. Os mais famosos foram o da URSS nos anos 1950, o do Brasil nos anos 1960 e 1970 e o do Japão nos 1980... O surpreendentemente ajuste da China só é surpreendente se você, ao assistir o mesmo filme pela décima segunda vez, esperar um final diferente". A história parece informar que em seu movimento de expansão, o capitalismo promove transformações financeiras, tecnológicas, patrimoniais e espaciais. O chamado "modelo chinês" tem uma relação simbiótica com os abalos tectônicos nas esferas produtiva, financeira e no comércio mundial, abalos que sacodem o planeta desde os anos 80 do século XX. Reformas a que se propõe a China são mais delicadas e complexas do que as que foram feitas nos últimos 30 anos O jogo global é jogado entre a desregulamentação financeira e as novas formas de concorrência, escoltadas pela da reorganização da grande empresa.

Isso ensejou, ao mesmo tempo, o êxodo da manufatura para as regiões de baixos salários, a reafirmação do papel do dólar como moeda reserva e a centralidade do mercado financeiro americano, líquido e profundo. A metástase do sistema empresarial da tríade desenvolvida ­ particularmente dos Estados Unidos e do Japão ­ determinou uma impressionante mutação na distribuição espacial da manufatura e na composição dos fluxos de comércio. A China executou estratégias nacionais que definiram as políticas de absorção de tecnologia com excepcionais ganhos de escala e de escopo, adensamento das cadeias industriais e crescimento das exportações.

A gestão chinesa conseguiu administrar uma combinação favorável entre câmbio real competitivo, juros baixos e acumulação de reservas, acompanhada da formação de redes domésticas entre as montadoras e os fornecedores de peças, componentes, equipamentos, sistemas de logística. Nessa caminhada, a China cuidou, ademais, dos investimentos em infraestrutura e utilizou as empresas públicas como plataformas destinadas a apoiar a constituição de grandes conglomerados industriais preparados para a batalha da concorrência global. No livro "China versus Ocidente" (China vs West), o economista russo Ivan Tselichtchev estuda o formidável avanço da economia chinesa. Diz ele: entre 2001 e 2009, o novo gigante econômico apresentou um crescimento de 136,8% da produção manufatureira (calculada pelo valor adicionado, em dólares de 2005).

Medido em dólares correntes, o valor adicionado manufatureiro atingiu US$ 2,05 trilhões, ou seja 21,2% da produção mundial. Os Estados Unidos ocuparam o segundo lugar: US$ 1,78 trilhões, ou seja, 18,4% do total mundial. O desempenho das exportações chinesas de manufaturados também é impressionante. Tselichtchev mostra que a China não só lidera as exportações de manufaturados, mas também se empenha em avançar na graduação tecnológica dos produtos que compõem a sua pauta de vendas ao exterior. Em 2009, a participação de bens de capital e de equipamentos de transporte no total das exportações chegou a 49,2% contra 30,2% em 1999, enquanto vestuário caiu de 15,4% para 8,95%. O sistema financeiro, sabem todos, é relativamente "primitivo" e especializado no abastecimento de crédito subsidiado e barato às empresas e aos setores "escolhidos" como prioritários pelas políticas industriais.

O circuito virtuoso ia do financiamento do investimento, do investimento para a produtividade, da produtividade para as exportações, daí para os lucros. Depois da crise global, a taxa de investimento no Império do Meio continuou flertando com 50% do PIB. A queda do investimento industrial nos países centrais foi sobejamente compensada pela a criação de capacidade produtiva excedente na China e adjacências, particularmente nos setores de alta e média tecnologia afetados pelo formidável avanço da graduação tecnológica e dos ganhos de escala na indústria chinesa. A resposta chinesa à Grande Recessão, o megapacote de investimentos apoiado na expansão do crédito foi eficaz para sustentar a taxa de crescimento, mas progressivamente as injeções de liquidez da economia deram origem à bolha imobiliária e à atordoante disparada do endividamento do setor privado e das empresas provinciais.

A China vai enfrentar uma transição difícil. Não só está desafiada a enfrentar os desequilíbrios financeiros acumulados nos últimos anos, mas, sobretudo, deverá decifrar os enigmas da construção da nova estratégia de desenvolvimento. Esse cometimento exige reformas institucionais em diversas áreas cruciais: o papel do setor público, a distribuição de renda, a propriedade da terra, o sistema financeiro, a internacionalização das suas empresas e de sua moeda, para não falar dos riscos envolvidos na abertura da conta de capital.

A China avança suas forças para a construção do bloco eurasiano, aí incluídas a Rússia e a Índia, e estende sua influência à África e à América Latina, não só como fontes provedoras de matérias­primas, mas também como espaço de expansão de empresas chinesas que iniciam um forte movimento de internacionalização. Está claro que os chineses ensaiam cautelosa, mas firmemente, a internacionalização do yuan ao ampliar a conversibilidade financeira de sua moeda e multiplicar rapidamente os acordos de troca de moedas (swaps) com seus parceiros comerciais mais importantes. Essas reformas são muito mais delicadas e complexas do que aquelas implementadas nos últimos 30 anos. Isso demandará reavaliações e revisões, com avanços e recuos, dado o método experimental ­ por tentativa e erro ­ utilizado pelas autoridades chinesas.

O êxito das reformas deverá consolidar a transição econômica da China de uma economia de comando para uma economia "mista" em que o mercado terá papel importante, mas não terá influência na formulação das estratégias de longo prazo. Luiz Gonzaga Belluzzo, ex­secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp e escreve mensalmente às terças­feiras. Em 2001, foi incluído entre os 100 maiores economistas heterodoxos do século XX no Biographical Dictionary of Dissenting Economists.