Como encarar o gigante chinês

Veículo: Valor

Seção: Economia

Vários degraus separam a Bolsa de Xangai, que cai 9,5% neste ano, do investidor brasileiro. Qualquer contágio direto, como observado nos últimos dias é exagerado, segundo o sócio da gestora de recursos Victoire, Aquico Wen, que seleciona a partir de Hong Kong ações de empresas asiáticas para um fundo destinado a investidores brasileiros. Não é motivo, entretanto, para respirar aliviado. Há sim ventos vindos da China capazes de machucar o portfólio do investidor local, para Wen. A virada estratégica empreendida pelo governo, de infraestrutura para consumo e serviços, tem um link direto com a economia local e a bolsa brasileira, com grande peso de exportadoras de commodities.

E ainda está na metade. Por conta desse contágio, a desaceleração chinesa pode até ser vista como relativamente pequena para o mundo como um todo, mas não para o Brasil, diz Wen, com a experiência de 19 anos acompanhando mercados emergentes, com passagem por J.P. Morgan, Citi e Legg Mason, a partir de Londres, Nova York e Hong Kong. Para o recém­criado fundo de investidores brasileiros, com US$ 8 milhões em patrimônio, Wen quer aproveitar oportunidades na Bolsa de Hong Kong, afetada, para ele, pelo pânico.

A partir de Hong Kong, o gestor conversou com o Valor em português, uma herança dos três anos em que morou no Brasil, durante a adolescência. Para ele, as políticas chinesas são coerentes, mas há falhas de comunicação. Confira os principais trechos da entrevista.

Valor: Quedas diárias expressivas na Bolsa de Xangai têm movimentado os mercados globais. O investidor deve se preocupar com a economia chinesa?

Aquico Wen: Certamente acho que alguns dados da China têm sido um pouco mais fracos do que o esperado, mas nada muito drástico. O último movimento que se viu na moeda chinesa pegou o pessoal de surpresa, não tanto em termos de direção, porque ele faz sentido, mas o momento em que foi anunciado gerou sentimento de pânico. Não foi pelo movimento em si, mas pelo timing e pela comunicação das autoridades chinesas.

Valor: O senhor se refere à decisão da China de desvalorizar sua moeda em 1,9% em 11 de agosto?

Wen: Sim. As mensagens do governo chinês têm sido de reformas, de maior influência de forças de mercado na economia. A política chinesa era de uma moeda sempre controlada e, com esse movimento, o governo está basicamente dizendo mundo afora: vou liberar minha moeda. Isso é quase um pré­requisito para que a moeda possa ser parte do SDR [Special Drawing Reserves, cesta de moedas do Fundo Monetário Internacional]. Essa movimentação de moeda está parcialmente relacionada com esse desejo de conseguir um status que acho que a China merece. E eles perderam a oportunidade de comunicar isso. O governo anunciou a desvalorização imediatamente após a divulgação de dados de exportação bastante fracos e sem dar explicação. A interpretação do mercado foi que as coisas estavam realmente ruins para o governo reagir dessa maneira abrupta.

Valor: A reação dos mercados foi então exagerada?

Wen: O mercado está obcecado, exagera demais sobre qual é a taxa de crescimento na China. Se vai ser 7,5%, 7%, realmente ao meu ver não faz tanta diferença. Um país desse tamanho crescendo a esses níveis vai conseguir dar uma contribuição para o crescimento global. O mais importante é a composição do crescimento. E nisso o governo tem sido bastante claro. O que é muito relevante para o mundo, especialmente para os produtores de commodities, é a mudança na composição estratégica do crescimento, que vem acontecendo há três anos, antes muito focada em indústrias e manufaturas, para um estímulo ao consumo e à indústria de serviços. E você vê isso muito nitidamente pela composição do PIB. Em 2010, a participação de serviços em geral como composição do PIB estava em 44%. Essa taxa subiu para 49%, enquanto a participação da indústria, que vinha no patamar de 46%, em 2010, hoje está em 42%.

Valor: A desaceleração chinesa em si não deve preocupar?

Wen: A China vai ser uma fonte de crescimento do PIB global sim, mas os países que vão se beneficiar disso vão ser muito diferentes dos que se beneficiaram do crescimento chinês de 2000 a 2010. Quando tinha alta participação da manufatura, isso naturalmente gerava alto nível de demanda por commodities. A China já não está mais crescendo na indústria e está tentando redirecionar a economia para uma geração de valor por meio de serviços, saúde, entretenimento, viagens. Quem vai se beneficiar dessa nova demanda? Nos últimos cinco anos, foram os países mais turísticos ­ França, Inglaterra, Estados Unidos ­ e os bens de consumo de luxo. A contribuição do crescimento chinês para a economia global está diminuindo, claro, porque a economia estava crescendo 10% e hoje são 7%, mas, para mim, o que está realmente afetando os países de commodities não é isso, mas a redução do crescimento industrial. Como a China representava 40% a 50% da demanda de algumas commodities, vemos claramente um sofrimento alto.

Valor: Para a bolsa brasileira, que tem peso grande das empresas de commodities, China deve ser fonte de preocupação?

Wen: Eu diria que é muito certo isso. Não é que o Brasil deve tomar conforto no fato de que a desaceleração chinesa é relativamente mínima. Para os brasileiros, é violenta, não tanto por causa da taxa de crescimento desacelerando, mas pela composição do crescimento do PIB chinês. Essa tendência de mudança de composição do PIB chinês já vem ocorrendo há cinco anos.

Valor: E quanto à moeda? Deve haver outros ajustes no yuan?

Wen: A relação da moeda chinesa especialmente com os pares, moedas de commodities e regionais asiáticas, estava ficando muito distante. Ela vinha andando em paralelo com o dólar. É quase impossível você tentar administrar seu câmbio e ao mesmo tempo controlar sua política monetária, especialmente quando a sua política não está em sintonia com a do país a que o câmbio está atrelado. Você tem uma sinalização muito forte de que o banco central americano está removendo o QE [Quantitative Easing, ou afrouxamento monetário], enquanto China está cortando juros, injetando liquidez no mercado. É quase impossível ter essa relação entre moedas sendo que um país está fazendo aperto monetário e o outro afrouxamento. A nova política tem consistência.

Valor: Ainda pode haver uma desvalorização expressiva, com efeito sobre o real?

Wen: O movimento da moeda chinesa, desde o dia da desvalorização oficial, é de 3%, muito pequeno, enquanto outras moedas regionais têm se desvalorizado mais de 30%. Acho que muito desse pânico é exagerado. A variação é muito mais um ajuste relativo que deveria ter acontecido muito tempo atrás. Eu diria que vamos ver mais depreciação, mas de maneira bastante gradual, como sempre são feitas as coisas na China. Por interpretação do que disse o governo chinês, eu diria que a moeda chinesa deveria se depreciar 4% em relação ao ponto inicial. Já se foram 3%. "A China vai voltar a ser fonte de crescimento global, mas os países que vão se beneficiar serão diferentes"

Valor: O corte nos juros e na taxa do compulsório bancário anunciados pelo governo chinês nesta semana também são medidas coerentes?

Wen: Sim, porque essa é basicamente a continuação do que eles têm feito nos últimos 12 meses. E por quê? O governo estava tentando conter o setor imobiliário e de infraestrutura e estimular o consumo. Só que quando você tem uma economia tão dependente de um segmento, você quer administrar de forma que seu PIB não caia de maneira drástica. O governo já tinha começado a soltar a política monetária. Esse não foi o primeiro corte de juros nem de compulsório dos últimos 12 meses. Para mim, isso é positivo. É o governo reconhecendo que a economia está caminhando na direção certa em termos de composição de crescimento, mas que, para facilitar a transição, tem que estimular também os setores que no decorrer do tempo quer que tenham menor participação, para que não caiam de maneira mais brusca.

Valor: E por que as bolsas chinesas não param de cair?

Wen: A reação do mercado chinês tem muito pouco a ver com esses fatores. Em qualquer país em que o governo diminui o compulsório e reduz o juro, qual é a reação da bolsa? É positiva. E a bolsa chinesa? Caiu. Deve ter outra explicação que superou os fatores positivos. Para mim ficou claro que foi uma reportagem na mídia local dizendo que o governo estava repensando a estratégia de intervenção direta na bolsa chinesa. Quando houve o crash, há quase um mês, o banco central criou um fundo de suporte ao mercado, basicamente dizendo aos especuladores chineses que não se preocupassem. Na segunda, o governo soltou a mensagem de que estava reavaliando isso. E, durante esta semana, não tem participado em operações de bolsa. Isso assustou o investidor local, que estava apegado à esperança de que o governo ia tirar ele do buraco. Ele acabou vendendo as ações e houve o ajuste.

Valor: Faz sentido isso ter gerado um contágio em outros mercados?

Wen: Para mim isso é fruto muito mais de um estilo de comunicação mal adotado, porque a estratégia em si é positiva. Teve muita credibilidade aos olhos do investidor internacional o governo ter anunciado intervenções, dando suporte ao mercado, mas isso não estava tendo o efeito que eles queriam, de gerar um ciclo virtuoso de confiança. O mercado subia e todos diziam que era porque o governo estava manipulando. Para mim, eles reconheceram que foi uma medida até um pouco errada e perceberam que, se o mercado cair, não vai afetar a economia de maneira forte. O investidor doméstico representa 90% do giro diário, mas esses caras são especuladores. Eles não têm maturidade de investir, a maioria não tem noção do que é P/L [relação entre preço e lucro], compram por rumores. Para mim, o governo percebeu que é melhor deixar cair, chegar a um nível correto, tirar todos os especuladores. Embora o governo não tenha feito um anúncio oficial, acho que podemos interpretar que ele abandonou a estratégia de suporte à bolsa.

Valor: E como fica a bolsa de Hong Kong, que tem mais investidores estrangeiros?

Wen: Tem um contágio, mas é puramente pela confiança. Claro que afeta o sentimento, já que ela está no mesmo país.

Valor: Surgiram oportunidades?

Wen: Incríveis, eu diria. A questão é ter paciência. Realmente acredito que quem investir agora daqui a um ano vai ganhar dinheiro. Mas pode ser que o que comprou hoje esteja 15% ou 20% mais barato daqui a três dias. É esse tipo de volatilidade que se tem no nosso mercado. Os sentimentos estão exagerados, especialmente no nosso universo de mid e small caps. Vemos muitas oportunidades, mas nossa preferência é esperar alguma estabilidade no mercado para começar a realmente aplicar nosso caixa em excesso. Estamos com 25 a 30% de caixa, mas desafortunadamente estávamos bastante expostos na China, com 45% do portfólio, por meio de Hong Kong. No nosso ver, a queda é temporária. Estamos em uma bolsa que negocia com múltiplos de 8,5 a 9 vezes, em comparação com Xangai, com 15, 16 vezes. Apesar de superexpostos na China, estamos em companhias sólidas, com negócios bastante resilientes, sendo parte delas exportadoras, de tal forma que a depreciação da moeda ajuda.

Valor: Os mercados ocidentais vão ter que aprender a interpretar o governo chinês?

Wen: Essa é uma realidade. A comunicação das instituições especialmente americanas e europeias é muito mais bem tocada em relação à comunicação asiática. Em parte, isso é cultural. Em parte, é experiência. Eles têm operado nesse modelo por décadas. O governo chinês ainda tem muito para aprimorar.

Valor: Então qual seria a mensagem principal vinda da China para o investidor brasileiro?

Wen: Eu diria que o efeito mais direto para economia brasileira é mesmo o da retração da demanda para o setor exportador de commodity. Essa é a dura realidade que a economia tem passado e ainda vai ter que passar por alguns anos. Esse processo no meu ver não é coisa de um ano ou dois, mas de vários anos. É difícil dizer em que estágio está, mas eu diria que estamos pelo menos na metade desse processo.

Valor: Um contágio da Bolsa de Xangai é um exagero?

Wen: Ao meu ver, tem vários graus de separação até um efeito real na economia brasileira.