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Estudo já vê substituição de importações em alguns setores

Veículo: Estadão

Seção: Economia

As mudanças no câmbio e a redução da atividade econômica ao longo de 2015 ajudaram a melhorar os resultados da balança comercial do Brasil, com redução das importações maior do que a das exportações. A depreciação do real também já exerce alguma influência positiva sobre a produção nacional, representando um início de substituição de importações pela demanda por produtos locais, segundo um estudo da Bradesco Asset Management (Bram), que analisou a atividade industrial por setor durante os primeiros meses do ano.

Para Fernando Honorato Barbosa, economista­chefe da Bram, já existe um ajuste de contas externas em curso. "O coeficiente de penetração de importações, que indica a participação dos importados no consumo local, já teve uma queda importante nos últimos meses, o que indica que está acontecendo uma substituição de importações", explica. A avaliação é semelhante à do presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro. Segundo ele, a substituição de importações já está ocorrendo de forma pontual, e deve crescer.

Até maio, explica, o dólar afetou as importações apenas pela retração da demanda, mas desde junho, já há registro de alguma substituição de importações. "Com o câmbio atual, algumas empresas já têm condições de oferecer produtos similares nacionais", diz Com cotação de R$ 3,46 no fechamento de ontem, o dólar subiu 10% em julho, e a desvalorização do real já é de 21,74% neste ano, um total de 33,19% no período de 12 meses. Com a depreciação, a balança comercial já acumula superávit de US$ 4,599 bilhões até o mês de julho ­ com perspectiva de encerrar 2015 próximo dos US$ 10 bilhões, um grande contraste com o déficit de US$ 3,9 bilhões registrado no ano passado.

A projeção da AEB é de que 2015 registre uma queda das exportações de 15%, e de 20% nas importações. A Bram analisou os dados de setores da indústria nacional e indica que os segmentos que já sentem o efeito do encarecimento das importações são derivados de petróleo; outros equipamentos de transporte; calçados e couros; produtos diversos e fumo. Por outro lado o câmbio ajuda as exportações no setores de metalurgia, madeira, extrativa, têxtil, informática/eletrônicos e papel e celulose. No total, o estudo diz que a razão entre o coeficiente de exportações e o coeficiente de penetração das importações indica que os setores que mais se beneficiaram com o câmbio atual foram fumo, madeira, minerais não metálicos, papel e celulose, têxtil e metalurgia. O estudo ainda separou esses seis setores em um grupo e calculou o indicador consolidado da indústria. A comparação da variação do grupo com a PIM total em 12 meses é bem próxima, com queda da produção industrial para esses setores de 6% e de 6,9% da total.

A avaliação do comportamento dos setores nos cinco primeiros meses de 2015, por outro lado, revelou uma diferença bem mais expressiva. Enquanto a PIM total acumula queda de 2,2% no período, os setores beneficiados pelo câmbio apresentam estabilidade (­0,1%). O processo está apenas começando, e esse efeito logo vai começar a se espalhar para outros setores, avaliam Honorato e Castro. "Se fica caro comprar de fora, a demanda local se desloca para produtos locais. Primeiro ela consome o estoque local, que está elevado, e depois a indústria, que tem muita ociosidade, e consegue dar conta da demanda doméstica, aumenta a produção sem gerar inflação", explica o economista­chefe da Bram.

Segundo Flávio Castelo Branco, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a mudança no patamar de câmbio tem muitos efeitos sobre a indústria brasileira, mas isso demora a aparecer, porque o comércio internacional tem prazos longos, relações de clientela aprofundadas e contratos duradouros e complexos. "A mudança no câmbio se processa lentamente. De imediato, não há mudança de fornecedor. Vai mudando com o tempo, até o patamar de câmbio se consolidar", avalia. A demora para que os efeitos apareçam, segundo Castelo Branco decorre da complexidade da economia brasileira atualmente. "No passado, o câmbio se desvalorizava e todo mundo reagia positivamente. Hoje não é assim. Agora a economia está mais integrada nas cadeias produtivas, e o resultado é menos imediato. Não é que o câmbio não seja importante, mas ele demora mais a se manifestar", disse.

O economista Antonio Corrêa de Lacerda, diretor da consultoria AC Lacerda, explica que a indústria doméstica se beneficia do atual câmbio, mas ressalta que mais importante de que a depreciação do real é que o câmbio se estabilize. "Este produtor precisa estar convicto de que o câmbio vai ficar desvalorizado de verdade. No atual momento, ainda não dá para ter essa certeza", avalia, explicando porque demora para a indústria conseguir crescer substituindo a produção importada. "É uma questão de tempo. As decisões no setor produtivo são mais lentas do que no mercado financeiro", diz. Com base nessa perspectiva da necessidade de estabilização do câmbio, o professor da Unicamp e ex­secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda Julio Gomes de Almeida avalia que a substituição de importações ainda não afeta tanto a produção nacional.

Para ele, a maior parte do impacto que se vê atualmente nas importações é causado apenas pela retração na atividade econômica do país. A substituição de importações pode demorar a ser sentida com mais força, ele explica. "O efeito do câmbio vem, mas só quando houver uma convicção de que a mudança é definitiva. Isso ainda não acontece. Ainda está todo mundo atordoado com a crise, com o que acontece na política e na economia", avalia Almeida. Honorato admite que o processo de substituição de importações é lento, e que vai levar algum tempo para que se consolide e seja mais visível. "Estamos vendo indícios disso, mas daqui a um ano isso vai estar bastante claro, derrubando o déficit de conta corrente pela metade, para US$ 45 bilhões ou US$ 50 bilhões, o que é um baita de um ajuste", diz.

Para ele, isso marca o início de um processo que deve ter efeitos de longo prazo. "Precisamos de alguns trimestres, talvez anos, para que as empresas percebam que é um processo duradouro". Para o economista­chefe da Bram, entretanto, já há uma percepção clara na economia nacional de que o nível do dólar mudou definitivamente, e isso já tem influência nas contas externas. "Não esperamos uma grande disparada do dólar. Se o câmbio não estabilizar em R$ 3,40, vai ficar em torno de R$ 3, o que já é muito melhor de que dois anos atrás".

A previsão da Bram é que o dólar se estabilize ao fim do ano cotado em R$ 3,50, chegando a R$ 3,70 no fim do 2016. Segundo Mauro Rochlin, professor de cenários macroeconômicos da Fundação Getúlio Vargas e sócio­diretor da MR Consultoria, a questão cambial é central para o Brasil, e pode ser fundamental para a retomada da indústria nacional. "Resolver o câmbio por si só ajudaria a competitividade", diz. "Entre 2005 e 2006 nós tínhamos balança de transações correntes favorável, e o custo Brasil não era muito diferente do que é hoje.

Não se pode dizer que perdemos competitividade por conta de aumento do custo Brasil nesse sentido. O que se percebeu ali foi a mudança de câmbio, com uma tremenda valorização do real e perda da competitividade", avalia. Para ele, o dólar precisa se valorizar ainda mais, podendo até mesmo passar de R$ 4. "O câmbio ainda está baixo. O dólar por R$ 3,2 ainda está barato", avalia.



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