Capital brasileira da lingerie sente na pele o aperto da crise econômica

Veículo: Folha de S. Paulo

Seção: Mercado

Em uma loja deserta, em uma rua vazia, à sombra de um outdoor de 15 metros que porta a imagem de uma mulher de calcinha e sutiã, Fátima Vieira reconsidera sua opção de carreira.

Vieira, 54, proprietária da loja Switch Women, mudou-se do Rio para Nova Friburgo há cinco anos, a fim de criar seu negócio na chamada "capital brasileira da lingerie".

"Quando cheguei aqui, a cidade era o lugar ao qual brasileiros de todo o país vinham para comprar lingerie", diz. "Agora parei de renovar meu estoque e estou só tentando vender aquilo que tenho. Para ser honesta, estou pensando em desistir."

Com a economia brasileira a caminho da pior recessão em 25 anos, muitos dos comerciantes dessa antiga colônia de alemães e suíços enfrentam dificuldades.

Na Tanga Rosa, a história é a mesma. Rafaela Fagundes, 27, diz que os últimos meses foram sombrios. "Ninguém quer comprar nada."

De acordo com o Sindvest, a organização patronal do setor de lingerie local, um quarto dos 200 mil moradores de Nova Friburgo depende do setor têxtil. Em algumas categorias de roupa de baixo, a cidade responde por até 25% da produção brasileira.

Em 1968, a fabricante alemã Triumph abriu uma grande fábrica na cidade. Quando ela começou a demitir, nos anos 1980, muitos decidiram usar seus conhecimentos para abrir novas empresas. Agora, a cidade conta com mais de 1.300 fabricantes e varejistas de lingerie. Outras centenas operam informalmente.

"Não é mau ter tantas empresas pequenas no mesmo lugar, mas em uma recessão as menores tendem a ser canibalizadas pelas de maior porte, que podem arcar com um baque temporário e desenvolver produtos especializados", diz Marcelo Prado, diretor do Iemi (Instituto de Estudos e Marketing Industrial), especializado em moda.