Crise do Brasil abala exportação argentina

Veículo: Valor

Seção: Economia

Cortou o coração do produtor Oscar Martin ver as peras e maçãs que apodreceram nas árvores na região sul da Argentina neste ano. Parte daquelas 200 mil toneladas de frutas que ficaram nos pés poderiam ter ido para o Brasil. No início, a exportação para o país vizinho foi suspensa durante três meses porque autoridades brasileiras detectaram uma praga, a "carpocapsa", num lote. Mas agora surgiu uma praga pior: a queda da demanda acompanhada de sucessivas desvalorizações do real.

Martin também é o presidente da Câmara Argentina de Fruticultores Integrados (Cafi). Ele estima uma perda de 30% nas vendas das duas frutas neste ano para o Brasil, principal destino das exportações do setor e responsável por uma receita de US$ 150 milhões em 2014. "Nossa relação com o Brasil é histórica", diz. A Cafi representa os produtores de Neuquén e Rio Negro, onde se concentram 85% da produção de peras e maçãs. O que acontece com as frutas é uma pequena parte do estrago que a crise brasileira provoca na Argentina, um país em "default" e cuja economia já estava debilitada por conta de uma série de problemas internos e externos. Os maiores prejuízos do impacto da crise brasileira se sentem no comércio exterior.

Num país com nível de reservas já enfraquecido pela falta de acesso ao mercado internacional, o volume de dólares obtido com as vendas ao Brasil, principal destino de todas as exportações argentinas, diminui a cada dia. De janeiro a junho, as exportações para o Brasil caíram 23% na comparação com igual período do ano passado. Isso agravou uma perda de receita com exportações que já havia despontado por conta da retração nos preços internacionais de commodities. No primeiro semestre, o total de divisas obtidas com exportações para todo o mundo diminuiu em US$ 6,6 bilhões, num total de US$ 30, 2 bilhões. Isso representa uma queda de 18% em relação aos seis primeiros meses de 2014.

A forte desvalorização do real acendeu um sinal vermelho em Buenos Aires nos últimos dias. "O Brasil tem um alto nível de reservas e, por isso, pode desvalorizar a moeda para recuperar a competitividade; mas o mesmo não se pode esperar na Argentina", destaca o presidente da Câmara dos Exportadores da República Argentina (Cera), Enrique Mantilla.

Nos 12 últimos meses o real desvalorizou­se 33% e o peso 11,02%. Mas, apesar das reclamações dos exportadores, não existe hoje na Argentina nenhuma expectativa de desvalorização do peso antes da mudança de governo. O país está a menos de três meses da eleição do próximo presidente da República e a atual equipe econômica já deu sinais de que não pretende fazer correções no câmbio. Ao ser abordado por repórteres à entrada da Casa Rosada, ontem, o ministro­chefe de Gabinete, Aníbal Fernandez, disse que o governo "monitora permanentemente" a desvalorização do real, mas ainda não percebeu que isso afeta a exportação de produtos argentinos.

O banco central tem feito intervenções diárias para tentar frear a alta do dólar no mercado paralelo, que registra uma diferença de mais de 60% em relação à cotação oficial. Executivos da União Industrial Argentina calculam que a desvalorização do peso deveria chegar a algo entre 25% e 30% para poder compensar "a inflação, o intervencionismo e os problemas no Brasil e na China". Mas numa entrevista a uma emissora de televisão, ontem, o ministro da Economia, Axel Kicillof, que está em plena campanha para ser deputado, pediu a empresários e banqueiros que não falem sobre atraso cambial porque isso "ferra" as pessoas.

A equipe de Cristina Kirchner deixa, portanto, claro que esse será mais um dos problemas que ela deixará de herança para seu sucessor. "A crise no Brasil é um elemento a mais para o próximo presidente da Argentina levar em conta logo que tomar posse em dezembro", afirma o economista Dante Sica, diretor da consultoria Abeceb.com. A perda da competividade dos exportadores não diz respeito apenas à crise brasileira, mas também à política de retenções adotada pelo governo para tentar conter a alta dos preços internos e, ainda, o aumento de custos provocados pela inflação. Foi por isso que há poucas semanas agricultores do sul decidiram fazer protestos.

Alguns enfileiraram seus tratores nas rodovias para chamar a atenção enquanto outros distribuíram frutas gratuitamente. "Os problemas que nos levaram aos protestos fazem parte de um contexto muito maior que a crise no Brasil", destaca Martin, da Cafi. A indústria automobilística não pode se dar ao luxo de fazer o mesmo tipo de protesto com os automóveis. Mas é a que mais sofre, junto com os fornecedores de componentes. Segundo a Câmara dos Exportadores, as exportações do setor automotivo, que seguem todas para o Brasil, registraram no primeiro semestre queda de mais de 30% na comparação com igual período de 2014. Para analistas, esse setor é o principal responsável pela queda de participação do Brasil nas vendas externas. O mercado brasileiro foi o destino de 20,4% dos produtos argentinos exportados no primeiro semestre de 2014.

Mas em junho deste ano a participação caiu para 15,4%. Para Patricio Carmody, especialista em comércio exterior, nesse cenário, o mais prejudicado é o Mercosul. "O desenvolvimento industrial conjunto, de Brasil e Argentina, era o pilar do bloco", destaca. Para ele, já é negativo o fato de os dois principais parceiros do Mercosul terem se transformado em competidores no setor agropecuário. "O intercâmbio de produtos na área de manufatura, principalmente nas montadoras, era a lógica da existência do bloco. Isso precisa funcionar para a região ser competitiva", destaca Carmody. A economia argentina registrou uma relativa calmaria no primeiro semestre.

O governo conseguiu manter o câmbio sob controle e a expectativa de inflação anual foi reduzida dos quase 40% do ano passado para índices em torno de 25%. A atividade industrial também começou a reagir, com crescimento de 0,9% em junho depois de 22 meses consecutivos de queda. Tudo indicava que o fim do mandato de Cristina seria bem mais tranquilo do que o da maioria de seus antecessores. Mas agora a crise que afeta seu vizinho pode tornar essa transição de governo mais turbulenta.

Os analistas apostam que a crise no setor automotivo vai se refletir na atividade industrial. "Com menos dólares, a indústria terá mais dificuldades para importar e produzir; sem contar que a demanda também cai", afirma Sica. Os problemas brasileiros se transformaram em temas de debates em seminários, reuniões de economistas e análises para investidores. "O que mais nos preocupa é a queda no nível de investimento no Brasil", diz Mantilla, o presidente da câmara dos exportadores. Segundo ele, a concentração dos esforços no consumo interno no Brasil era algo que chamava a atenção dos exportadores argentinos desde 2013. "Percebíamos que o baixo nível de investimentos nesse cenário traria graves problemas e a Cepal já alertava para isso", destaca. A crise política, acompanhada de tudo o que envolve os esquemas de corrupção, é outro tema que chama a atenção nas rodas de conversa dos argentinos.

E, se há até pouco tempo a expectativa da saída de Cristina Kirchner do governo era a discussão do momento, agora as atenções se voltam para a gestão da presidente Dilma Rousseff. O assunto foi um dos focos das apresentações econômicas há poucos dias, durante congresso numa feira agropecuária. Em sua exposição, o professor de finanças Aldo Abram destacou que a queda de popularidade de Dilma lhe tirava a capacidade de gestão. Ele também falou do "desastre" da política monetária do país e alertou os exportadores: "Sabemos que se não exportamos para o Brasil estamos fritos; mas vai demorar um bom tempo para voltarmos a vender bem".