Crédito encerra ciclo virtuoso em 2015

Veículo: Valor

Seção: Economia

O ano de 2015 vai marcar o fim do forte ciclo de expansão do crédito na economia brasileira iniciado no governo Lula. Pela primeira vez desde 2003, o percentual de crescimentos dos empréstimos dá sinais de que ficará abaixo da inflação acumulada no ano, resultando em um encolhimento do saldo em termos reais. O Banco Central (BC) rebaixou mais uma vez, de 11% para 9%, a sua projeção para o crescimento do crédito.

O ritmo de incremento é praticamente igual à inflação projetada para 2015, de 8,97%, segundo o boletim Focus, do BC, que coleta as estimativas do mercado. Ou seja, no melhor dos cenários, o crédito ruma para encerrar 2015 com um crescimento praticamente nulo, quando descontada a inflação.

Até maio, nos dados acumulados em 12 meses, o crédito teve um pequeno crescimento real, de 1,5%. Mas há uma tendência de desaceleração, que fez o BC rever sua projeção para o ano. Em termos nominais, o crédito cresceu 10,1% até maio (no acumulado de 12 meses), ante 11,3% em todo 2014. A comparação com anos anteriores deixa claro o quão ruim é o quadro de 2015. Em 2014, nas contas do Goldman Sachs, o avanço do crédito em termos reais foi de 4,6%, sustentado pelo forte crescimentos das operações com recursos direcionados. Em 2013, o estoque subiu 8,1%, descontada a inflação.

Em 2012, a alta foi de 10% e, finalmente, em 2011, 11,5%. "Boa parte da revisão [das estimativas] decorre da evolução do crédito nos cinco primeiros meses do ano e faz parte do ajuste macroeconômico em curso.

Esses dados e as pesquisas de condições de crédito apontam para menor crescimento do crédito em 2015", disse o chefe do Departamento Econômico do BC, Tulio Maciel. Em proporção do PIB, o crédito deve fechar 2015 em 56%, ante 54,7% em 2014. "Isso faz parte do processo de ajuste macroeconômico." O crédito vinha sendo apontado pelo BC como um dos fatores de sustentação da demanda agregada na economia, que garantiria um nível mínimo de expansão do PIB, ao lado do crescimento da renda real.

"A trajetória de encolhimento do crédito é cada vez mais estridente e é um dos fatores cruciais para a redução do PIB em 2015", afirma Thaís Zara, economista­chefe da Rosenberg Consultores Associados. "Com os bancos públicos de fato mais comedidos, pode ser que tenhamos um ano de retração real do crédito, movimento inédito desde 2003", escreve em relatório Os dados de maio foram levemente mais positivos que os de abril, mas os indicadores mensais de crédito continuam a apontar uma subida nas taxas de inadimplência nos próximos meses, assim como uma forte desaceleração em empréstimos, avaliam os analistas do Credit Suisse em relatório.

Desde 2003, início do primeiro mandato de Lula, o crescimento nominal do crédito superava a inflação, num ciclo de expansão criado com a maior estabilidade macroeconômica e com reformas microeconômicas que deram maior eficiência ao mercado e reforçaram as garantias do crédito. De lá para cá, o ritmo de crescimento do crédito teve algumas desacelerações, mas manteve­se em nível elevado. Entre 2008 e 2009, por exemplo, a oferta dos bancos privados caiu fortemente devido a uma maior aversão a risco e a uma redução de liquidez provocada pela crise que sucedeu a quebra do americano Lehman Brothers. Os bancos públicos supriram a ausência dos privados e, desde então, passaram a liberar maiores volumes.

Em 2014, as operações de crédito com recursos livres (capital de giro, financiamento de veículos, consignado e cartão, entre outros) já registravam queda em termos reais (­1,7%) compensada pelo avanço de recursos direcionados (12,4%). Os empréstimos direcionados englobam operações do BNDES e financiamentos habitacionais e rurais, tradicionalmente associados à banca estatal. Neste ano, porém, os bancos do governo ficaram sem poder de fogo para crescer muito acima dos privados por conta das restrições fiscais do Tesouro Nacional em fornecer capital e funding barato para lastrear as operações. Tanto que o BC cortou sua projeção para crescimento nominal das carteiras de bancos públicos em 2015, de 14% para 13%. No ano passado, as instituições oficiais haviam crescido 16,7%. Já a estimativa de expansão do crédito direcionado foi rebaixada de 16% para 14%. No ano passado, avançou 24%.

O BC também fez um corte significativo no crescimento que espera ver dos bancos privados nacionais. Para essas instituições, a autoridade monetária calcula ampliação da carteira em apenas 4%, ante expectativa anterior de 7% e uma alta de 6% em 2014. Se confirmado, será o pior desempenho desde 1998, quando o saldo encolheu 6,3%. Já os privados estrangeiros tiveram a previsão mantida em 7%. A boa notícia de maio veio da redução da inadimplência antecedente, entre 15 a 90 dias. Nos empréstimos para famílias, a inadimplência de curto prazo recuou de 5,5% em abril para 5,4% em maio, citam os analistas do Credit. No setor corporativo houve queda mais pronunciada, de 2,4% para 2,1%. Analistas, porém, destacaram o aumento de 10 pontos­base na inadimplência dos bancos públicos, o segundo incremento dessa magnitude no ano, para 3,9%.