O que pensam os brasileiros?

Veículo: Folha de S. Paulo

Seção: Colunistas - Monica Baumgarten de Bolle

Quando o assunto é o estado da economia brasileira, o que não falta é opinião de economista. Há os que acham que o governo, embora responsável pela situação lastimável do país, teve a coragem de mudar a gestão macroeconômica.

Há também os que acreditam que o ajuste fiscal e a correção da política monetária implantados pela atual equipe econômica sejam fundamentalmente corretos, mas se abstêm de dizê-lo publicamente –ou ao menos de defender a visão com contundência– por motivações políticas, ideológicas ou de outra natureza qualquer.

Por fim, há os que rechaçam veementemente as correções de rumo do governo, usando rótulos simplórios para desqualificar o inevitável.

Para quem falam esses diferen- tes grupos de economistas? Quem os ouve? E, mais importante, como pensa a população não especiali- zada, o que acham os não economistas sobre a situação econômi- ca do país?

Pesquisa recente conduzida pela Ideia Inteligência (www.ideiainte ligencia.com.br) com cerca de 20 mil pessoas provenientes de 69 municípios brasileiros mostra como o quadro atual tem influenciado o sentimento da população brasileira.

Cá estão alguns números reveladores: 78% acreditam que as perspectivas do mercado de trabalho haverão de piorar nos próximos meses, isto é, que será cada vez mais difícil encontrar empregos; 86% acham que a inflação vai continuar a subir ao longo de 2015, revelando que, para uma amostra representativa da população brasileira, o que o Banco Central diz e escreve é irrelevante; por fim, cerca de 65% dos entrevistados acham que os impostos continuarão a subir, afetando a renda e o custo de vida.

Ou seja, ainda que muitos não leiam jornais ou acompanhem as colunas escritas por economistas, eles sabem muito bem diagnosticar a situação atual a partir das experiências do cotidiano: o vizinho que perdeu o emprego, a conta de luz que dobrou, o salário que não dá conta da compra de supermercado, a falta de dinheiro do governo que exige mais impostos para cobrir gastos engessados.

Mais interessante, porém, é o que a pesquisa revela sobre a quem a população atribui a responsabilidade por esse quadro desolador. Há uma narrativa, comum entre os economistas refratários ao ajuste, de que ter Joaquim Levy como ministro da Fazenda –um representante legítimo do "neoliberalismo"– tem lá suas vantagens. A principal é que qualquer fracasso da política econômica, qualquer desgaste por ela causado, é culpa dele, não do governo.

Pois bem, a pesquisa feita pela Ideia Inteligência mostra que 15% da população acha que o ministro da Fazenda é Guido Mantega; 21% sabem que o ministro é Joaquim Levy; e, pasme, 64% não fazem ideia de quem seja o ministro. Contudo, 88% dos entrevistados reprovam a gestão macroeconômica, enquanto apenas 8% aprovam-na e míseros 4% não têm opinião.

Eis, portanto, o óbvio: a população sabe muito bem atribuir os desmandos atuais às políticas desencontradas da presidente Dilma durante seu primeiro mandato.

Fica, portanto, o recado: aos economistas que falam uns para os outros, aos economistas que se sentem traídos pela guinada da política econômica, a responsável pelo descalabro atual tem nome, sobrenome e possui par de cromossomos idênticos. O resto é ginástica intelectual.