Com queda de 0,4%, varejo decepciona em abril e analistas esperam 2º trimestre pior

Veículo: Valor

Seção: Economia

O cenário para o consumo permaneceu negativo no início do segundo trimestre. Contrariando expectativas do mercado que apontavam algum crescimento, ainda que fraco, o volume de vendas do varejo restrito (não inclui automóveis e material de construção) caiu 0,4% entre março e abril, feitos os ajustes sazonais ­ pior resultado para o período desde 2001, segundo dados da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), do IBGE.

Em abril daquele ano, houve recuo de 0,5%. No mercado ampliado ­ que considera veículos e material de construção, além dos oito pesquisados no restrito ­ a retração foi de 0,3%. Sete dos dez setores pesquisados diminuíram as vendas na passagem mensal, embora o volume comercializado de supermercados e veículos, que têm peso importante na PMC, tenha crescido. Para economistas, os resultados positivos desses dois ramos de atividade não são sustentáveis e a piora do mercado de trabalho, a queda da renda e o pessimismo do consumidor devem manter o varejo em campo negativo até junho.

Paulo Neves, da LCA Consultores, aponta dois fatores que podem explicar a alta de 1,9% das vendas de supermercados em abril: a modesta desaceleração dos preços de alimentos e bebidas (1,17% em março para 0,97% no mês seguinte pelo IPCA) e uma "devolução" da forte retração ocorrida em março, de 2,2%. Neves destaca que, de janeiro a abril, o setor cresceu apenas 0,3% na média mensal, ritmo que considera fraco, e avalia que a expansão do último mês não marca uma tendência para essa parte do comércio.

A mesma análise vale para o avanço de 4,4% nas vendas de veículos e motos, partes e peças, diz André Muller, da Quest Investimentos, que subiram após quatro quedas consecutivas. Cálculos com ajuste sazonal da Quest a partir de números da Fenabrave (entidade que reúne os revendedores) indicam que as vendas de veículos encolheram 1% de abril para maio, sexto recuo seguido na série da gestora de recursos. "O IBGE deve captar esse movimento nos próximos meses", afirmou.

Juliana Vasconcellos, gerente da coordenação de serviços e comércio do IBGE, também avalia que a expansão nas vendas de automóveis em abril não pode ser visto com otimismo. "O comprometimento das rendas das famílias e as incertezas quanto ao futuro [da economia] comprometem diretamente as vendas de veículos", disse Juliana, para quem os preços em alta, a redução da renda e as maiores restrições ao crédito explicam o recuo do comércio restrito no mês. Segundo Muller, os números de abril mostram que os consumidores estão reduzindo gastos, ao mesmo tempo em que a inflação elevada afeta negativamente os resultados do comércio: o deflator da PMC restrita subiu de 0,2% para 0,7% na passagem mensal.

Por ora, diz, não há sinais de reversão para o desempenho negativo do setor, uma vez que o mercado de trabalho deve seguir em trajetória de deterioração, a demanda das famílias por crédito está em baixa e os bancos estão mais seletivos. Se as vendas restritas ficarem estáveis em maio e junho, Muller calcula que terminarão o segundo trimestre em nível 1,2% inferior aos três meses anteriores, na comparação dessazonalizada. Para as vendas ampliadas, a herança estatística também é negativa, de 1,9%. "Como deve haver mais quedas nas vendas nos próximos meses, o resultado final do trimestre pode ser mais fraco do que esse."

O quadro de intenso enfraquecimento das vendas levou a LCA a revisar sua estimativa para o desempenho do varejo restrito em 2015, de aumento de 0,2% para retração de 0,6%. Se confirmada a variação, será o pior resultado do comércio desde 2003, quando o volume de vendas ­ sem considerar veículos e material de construção ­ diminuiu 3,7% ante 2002. De acordo com Neves, os dados do varejo no primeiro quadrimestre foram "tumultuados" pela concentração atípica de aumentos de despesas que reprimiram o consumo.

Ao longo dos próximos meses, o efeito da correção desses preços tende a diminuir, o que abre espaço para pequeno alento ao comércio na segunda metade do ano. Mesmo assim, diz, o maior pessimismo dos consumidores, a alta do desemprego e a queda da renda disponível impõem uma dinâmica negativa para o setor em 2015.