Capacidade de gestão: a chave do varejo

Veículo: Valor

Seção: Economia

O sucesso de qualquer empresa depende da capacidade de sua gestão. Definir estratégias de longo prazo corretas, executá­las de acordo com o planejado e saber se adaptar às mudanças de cenário são competências decisivas no desempenho de curto, médio e longo prazos. Em momentos de cenário macroeconômico desafiador, como o que vivemos atualmente, empresas com capacidade de gestão diferenciada costumam se destacar ainda mais.

Não que este não seja um atributo desejável em tempos de economia favorável, mas é nos momentos de dificuldade, quando os componentes externos não influenciam positivamente uma companhia, que sua gestão faz mais diferença. Por mais que essa capacidade seja bastante decisiva em diversos setores da economia, em nenhum outro ela é mais importante do que no varejo. A complexidade de execução da operação, neste caso, destaca­se pela necessidade de determinar e administrar corretamente qualidade, forma de exposição, preço, quantidade em estoque, margem de contribuição e prazos de recebimento e de pagamento de cada um dos (normalmente) milhares de produtos que compõem o sortimento vendido nos muitos pontos de venda da empresa.

Ao mesmo tempo, as despesas precisam ser muito bem controladas, já que as margens costumam ser baixas e qualquer variação se torna muito relevante nos retornos obtidos. Toda esta complexa execução deve ocorrer ao mesmo tempo que a companhia consegue traçar (e seguir) sua estratégia de longo prazo. No varejo são bons exemplos disso: a escolha ou criação do sortimento de produtos a ser comercializado, a busca por bons pontos comerciais para a instalação de novas lojas, a constante evolução dos modelos de loja e a melhora de percepção da(s) marca(s) da empresa por parte do consumidor. Ao buscarmos potenciais empresas para investir, a capacidade de gestão é um dos fatores qualitativos que mais consideramos. Portanto, é natural que, dadas as características do varejo e o cenário atual, tenhamos procurado no setor aquelas que se destacam ainda mais neste quesito.

A gestão das Lojas Americanas se diferencia muito pela execução nos pontos de venda. Ao trabalhar bem um sortimento muito amplo de produtos, a empresa consegue se beneficiar das margens mais elevadas de unidades que compõem a chamada cauda longa do mix de vendas. Além disso, a execução muito assertiva no período que antecede grandes eventos do varejo, como a Páscoa, também propicia margens mais altas e negociações de prazos de pagamento mais vantajosas com fornecedores. Outra característica da companhia é o controle muito forte de custos e despesas.

Por estar muito presente na cultura da empresa, este permeia tanto as áreas administrativas como as despesas de loja, permitindo que as Lojas Americanas tenham margens altas quando comparadas às médias do varejo. No caso das Lojas Renner, a capacidade de gestão diferenciada também é notada nos seus resultados recentes, que apresentaram forte crescimento de vendas e melhorias de margens relevantes. Por trás destes números, está, principalmente, a capacidade de entregar um produto atrativo para o consumidor, com uma proposta de valor adequada, fatores decisivos no varejo de vestuário. Ao mesmo tempo que consegue uma execução muito sólida da operação, a Renner traça uma estratégia para seguir sendo vencedora no longo prazo.

Ao desenvolver projetos que transformarão drasticamente a forma de distribuição dos seus produtos, a empresa passará a ter mecanismos de reposição mais eficientes, alavancando suas vendas e reduzindo o impacto negativo em margens trazido pelos períodos promocionais. A Raia Drogasil, por sua vez, também tem apresentado resultados bastante favoráveis, principalmente pela forte expansão de suas margens. Esta só foi possível pela melhoria na estratégia de precificação dos produtos em loja, aliada à boa execução das negociações com a indústria farmacêutica e distribuidores. Além disso, a companhia também segue executando muito bem sua estratégia de longo prazo, à medida que tem conseguido abrir cerca de 130 lojas por ano, com alta rentabilidade e buscado desenvolver novos modelos de loja, como a Farmasil ­ focado em um segmento de mais baixa renda.

Acreditamos que as três empresas que abordamos acima, cada uma de sua maneira, têm como um dos seus principais ativos a capacidade de sua gestão. Em todos os casos, a execução diária da operação coexiste com um sólido planejamento, o que garante que as mesmas entregarão resultados sólidos no curto, médio e longo prazos. Por esta razão, especialmente em um ambiente macroeconômico mais desafiador, acreditamos que o mercado dará cada vez mais valor a estes atributos, resultando em um sólido retorno para os investidores destas companhias.

Carlos Eduardo Rocha (Duda) é sócio­fundador e responsável pela área de asset management do banco de investimentos Brasil Plural.

E­mail: carlos.rocha@brasilplural.com

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