Banco Central: hora de parar?

Veículo: Valor

Seção: Economia

Nas últimas semanas, diante da divulgação de números pavorosos sobre a atividade econômica, analistas respeitados começaram a defender a tese de que o Banco Central (BC) já teria ido longe demais com o ciclo de alta da taxa de juros. O Comitê de Política Monetária (Copom), a princípio, estaria forçando a mão para reconquistar a credibilidade perdida. Para esses analistas, porém, o risco é afundar a economia numa recessão desnecessária e, inclusive, dificultar a realização do ajuste fiscal.

O raciocínio, por trás dessa visão, é que, se continuar subindo os juros, o Copom atrasará de forma significativa a recuperação da economia, gerando uma taxa de desemprego excessivamente elevada e aumentando a despesa do Tesouro Nacional com o pagamento de juros, o que, por sua vez, criaria dificuldades na área fiscal. Esse quadro, pontuam esses analistas, forjaria uma espiral muito perigosa, em que a austeridade do ajuste das contas públicas liderado pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, passaria a enfrentar um crescente risco do ponto de vista político.

O Congresso Nacional, por causa da fraqueza econômica, ficaria sob constante pressão para diminuir o aperto fiscal, favorecendo a ação por mais gastos dos Estados e das grandes capitais, especialmente, neste ano pré­eleitoral. PIB fraco preocupa agência de risco, que prepara rebaixamento Esta coluna apurou que, de fato, pelo menos uma agência de classificação de risco está bastante preocupada com o impacto da recessão nas contas públicas e, portanto, com a capacidade do setor de público de estabilizar e reduzir a dívida pública como proporção do Produto Interno Bruto (PIB). Na próxima avaliação que fará do país, algo previsto para o próximo mês, essa agência deve rebaixar a nota soberana do Brasil. Há, inclusive, a possibilidade de aplicar um viés negativo à nova nota, o que, pelo menos do ponto de vista dessa agência, levará o país a perder virtualmente o grau de investimento.

O Banco Central sinalizou que pretende parar de subir os juros quando sua projeção de inflação para 2016 cair, no chamado cenário de referência, para 4,5%. No Relatório de Inflação (RI) divulgado em março, essa projeção estava em 4,9%, considerando taxa Selic de 12,75% ao ano ­ agora, está em 13,75% ao ano. Para alguns analistas, o próximo RI, que deve ser divulgado daqui a duas semanas, pode trazer projeção de IPCA em torno de 4,5% para o ano que vem. Se isso de fato ocorresse, o Comitê mudaria a sinalização antes da próxima reunião ­ marcada para 28 e 29 de julho ­ e já não elevaria mais a taxa básica de juros (Selic) ou promoveria apenas mais um aumento de 0,25 ponto percentual antes de encerrar o ciclo.

Até a próxima reunião do Copom, inúmeros dados da atividade econômica serão conhecidos, o que, na opinião desses analistas, deixará claro que o hiato do produto (a diferença entre produto potencial e produto efetivo) está se ampliando e, portanto, diminuindo a necessidade de continuidade do aperto monetário. Há várias ponderações possíveis a essa argumentação. A primeira é que a expectativa de inflação para 2016 está estacionada em 5,5% há várias semanas, apesar do discurso mais duro do BC, adotado desde abril. Houve progressos porque as expectativas para 2017 e 2018 caíram e as de 2016 não pioraram, mesmo com a deterioração das de 2015 (a mediana das opiniões, segundo o boletim Focus, prevê IPCA de 8,46% neste ano).

Esse quadro não vai se alterar no Relatório de Inflação, cuja data de corte (para cálculo das projeções) ocorre no fim desta semana. Este cenário cai bem com o que o Copom tem chamado de progresso "insuficiente", o que, por sua vez, o fez adotar o discurso de permanecer "vigilante". No regime de metas, a autoridade monetária não deve interromper um ciclo de alta da taxa de juros enquanto não conseguir convencer os agentes econômicos de que a inflação vai convergir para a meta no prazo de um a dois anos. As expectativas respondem por cerca de um terço da carestia.

Muito provavelmente, a projeção do IPCA do novo Relatório de Inflação deve trazer uma melhora para 2016, um PIB mais fraco em 2015 ­ no relatório de março, projetou­se contração de 0,5%, sendo que, agora, a expectativa do mercado é de ­1,3% ­, com taxa Selic um ponto percentual mais alta e maior convicção quanto ao ajuste fiscal. Por outro lado, houve piora em outros indicadores. A projeção de inflação de preços administrados para 2015 era, no RI de março, de 11,0%. Na ata do Copom de abril subiu para 11,8%, mas, no último boletim Focus, estava em 13,94% segundo o consenso de mercado. "Esta diferença de quase três pontos entre o RI de março e o Focus dá cerca de 0,7 ponto percentual de inflação em 2015. Além disso, a inflação no segundo trimestre está vindo mais alta que o esperado. Diante da inércia inflacionária, tudo somado, é razoável esperar pouco avanço na projeção desse RI para 2016, que era de 4,9% no cenário de referência", explica um participante do mercado que pediu para ficar no anonimato. Para esse analista, seria uma surpresa se o Banco Central baixasse a guarda já no Relatório de Inflação de junho, o que só deverá ocorrer se a projeção do próprio BC para o IPCA de 2016 estiver muito perto de 4,5%.

Neste momento, a sinalização do BC é por, pelo menos, mais uma elevação de 0,5 ponto percentual da taxa Selic. Por enquanto, nada mudou na comunicação. Como decidiu no encontro da semana passada, quando elevou a taxa de 13,25% para 13,75% ao ano, repetir o comunicado da reunião anterior, o Copom sinalizou que deve fazer o mesmo com a ata a ser divulgada amanhã. O texto, evidentemente, trará atualizações do cenário econômico, mas a mensagem de austeridade monetária deve ser mantida. "Parece mais razoável o BC seguir deixando a porta aberta para uma alta de 0,25 ou 0,5 ponto percentual em 29 de julho, deixando para sinalizar e decidir o que fazer mais perto da reunião, lá por meados de julho", diz um experiente integrante do mercado.

Cristiano Romero é editor­executivo e escreve às quartas­feiras

E­mail: cristiano.romero@valor.com.br