Juro, crédito curto e alta da inflação afetam a confiança do consumidor

Veículo: Valor

Seção: Economia

Influenciado por piora nos indicadores de mercado de trabalho, em ambiente de juros altos; crédito caro; e inflação ainda pressionada, o consumidor brasileiro fez, em maio, a pior avaliação em relação a seu orçamento em quase dez anos. É o que mostrou ontem a Fundação Getúlio Vargas (FGV) ao anunciar o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) deste mês, que caiu 0,6% ante abril, para 85,1 pontos ­ o segundo mais baixo nível da série, iniciada em setembro de 2005.

Para a fundação, a tendência do índice para os próximos meses é de manutenção da queda. Em maio, houve piora das avaliações sobre a situação presente e relativa estabilidade das expectativas. O Índice de Situação Atual (ISA), um dos dois sub­indicadores do ICC, recuou 1,5% em maio ante abril, para 79,1 pontos, enquanto o Índice de Expectativas (IE) subiu 0,3%, para 88,4 pontos. Entre os tópicos usados para cálculo do ISA, a avaliação sobre situação financeira atual foi a que mais influenciou o ICC, ao cair 2,1% no mesmo período, para 97,7 pontos ­ o pior nível da série do índice, informou a economista da FGV, Viviane Seda. "Essa situação dificilmente vai se reverter, de um mês para o outro", disse. "Não acho que o crédito [mais caro] vá se reverter; e com as finanças mais apertadas, a inadimplência pode subir", comentou. "Além disso, as empresas também estão com confiança em baixa. Creio que o ICC vai manter trajetória descendente nos próximos meses", disse.

Ela lembrou que, de janeiro a março, o ICC mostrava trajetória negativa, influenciada principalmente por avaliação ruim da economia brasileira, que afeta negativamente a intenção de consumo do brasileiro. Houve melhora em abril, com expansão de 3,3% no indicador ante mês anterior. Mas isso não configurou início de retomada sustentável na confiança. Isso porque a avaliação ruim do consumidor não está mais concentrada nos rumos da economia, e sim nuas finanças pessoais. "Um consumidor preocupado com suas finanças não vai efetuar novas compras", disse, admitindo que o cenário sinaliza perspectiva desfavorável para o comércio.

Na análise de Viviane, os consumidores estão mais endividados em maio, e com menos recursos para poupar, o que prejudicou a avaliação de seu próprio orçamento. Isso é perceptível na Sondagem das Expectativas do Consumidor, pesquisa usada para cálculo do ICC. No universo da pesquisa (2.161 domicílios), 25,9% admitiram estar se endividando e 22,7% informaram estar poupando. É o pior cenário desde maio de 2009.