Feiras ajudam a abrir mercados

Veículo: Valor
Seção: Economia

Uma média de 80 eventos por mês, nos quatro cantos do mundo. Esse é o fôlego que a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex­Brasil) vem tentando imprimir à sua missão comercial, visando acelerar a exportação de produtos e serviços brasileiros, atrair investimentos estrangeiros e incentivar a internacionalização das empresas nacionais.

Ferramenta estratégica, o número de eventos realizados em 2014 ­ feiras setoriais, encontros de negócios, ações de prospecção de novos mercados e outros ­ dá o tom da importância que eles têm para a consolidação da presença do Brasil no mercado internacional: ano passado, a agência organizou 967 eventos em 59 países, dos quais 856 voltados para a promoção comercial, 66 de capacitação, 26 de promoção de investimentos e 11 de articulação internacional.

Ao todo, 10.786 empresas de 84 setores foram atendidas e 3.236 missões estrangeiras foram recebidas durante ações de marketing de relacionamento. Apesar da redução em 16,3% no número de empresas apoiadas, houve um aumento de 33,8% no valor exportado por elas no período. Para Rafael do Prado Ribeiro, coordenador de promoção de negócios da Apex­Brasil, eventos como as feiras comerciais são "uma importante ferramenta para abrir mercados. Funcionam como uma vitrine que espelha a evolução do que se faz no mundo", explica.

Ele cita como exemplo a Anuga, a maior do mundo no setor de alimentos e bebidas, que este ano será em outubro, em Colônia, na Alemanha. "Essa é a oportunidade de o Brasil desenvolver uma missão de inteligência, para prospectar novos canais, e de o produtor conhecer as últimas tendências do setor em termos de produtos e conceitos e perceber se os mercados globais se inclinam mais para o alimento saudável, o orgânico, o energético ou outro", afirma. Para cada dólar investido na ação, são gerados U$ 444 de volta em exportação, assegura ele.

Segundo Ribeiro, tamanho é o interesse na feira que são 350 empresas candidatando­se para apenas 80 vagas como expositores. É tão febril a procura por parcerias nos canais globais que a Agência Paulista de Promoção de Investimentos e Competitividade (Investe São Paulo), vinculada à Secretaria Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia do Estado, reformulou sua estratégia e começa agora a alinhar políticas de exportação com associações de classe para marcar presença, ela também, em eventos no exterior. "Desde que a agência foi criada, há cinco anos, fechamos 104 iniciativas de investimento, assessorando a instalação de indústrias estrangeiras do porte da Mercedes­Benz, Exco ou Honda no Estado", resume o presidente da Investe São Paulo, Juan Queirós, lembrando que o parque industrial paulista responde por 36% do total de exportações nacionais e comercializa de calçados a alimentos, de serviços de infraestrutura e telecomunicações a equipamento médico­hospitalar. "Agora, vamos levar nossos produtos para fora."

Para Silvia Lima, gerente de internacionalização da Associação Brasileira de Estilistas (Abest), são vários os obstáculos que o artigo nacional enfrenta atualmente. "O Brasil é um parceiro novo no segmento moda, tem menos de uma década de atividade no cenário internacional. Por isso, está em processo de consolidação. Além do preço mais alto, por conta de uma tarifa de importação que o encarece 20%, ocorre que os produtos brasileiros ainda são vistos com muita cautela: o mercado está fechado, arriscando pouco." A Abest tem 107 associadas e foi criada em 2003 para promover a moda e o design autoral brasileiros por meio de ações para distintos mercados.

Mesmo assim, "graças ao frescor, à cor e leveza da brasilidade", principal atributo estampado em acessórios, artigos de vestuário e moda praia, e à sua constante presença em dezenas de feiras promocionais, a Abest encerrou 2014 com um balanço positivo: investiu cerca de R$ 5,5 milhões em ações que geraram negócios da ordem de R$ 34,5 milhões e faturou US$ 11,35 milhões em exportações para países como EUA, Japão, Antilhas Holandesas, Bolívia, Portugal e Filipinas. Os negócios com a moda praia somaram US$ 5,6 milhões, um crescimento de 17,5% em relação a 2013. Participar de eventos promocionais é rotina para a Abicalçados, já que o produto nacional tem procura certa em países como EUA e França.

Ao todo, são perto de 12 missões por ano. As vendas, no entanto, não vêm resistindo às intempéries da economia: no primeiro trimestre, a exportação de 31,67 milhões de pares somou US$ 241,56 milhões, resultado 12% menor que em mesmo período de 2014 (US$ 274,6 milhões). Para Heitor Klein, presidente da entidade, os entraves são "o câmbio e a instabilidade econômica, que geram no comprador a percepção de que não pode contar com o produtor brasileiro". Essa pedra no sapato só faz minar, segundo ele, um setor que, em apenas dez anos, foi capaz de ampliar de 100 para 150 o número de parceiros comerciais, e ocupa, hoje, "uma posição intermediária confortável entre os principais ofertantes ­ ou seja, um produto com entrega ágil, design e qualidade superiores dos equivalentes asiáticos, mas com preço mais acessível que o top de linha italiano".

O setor registra, hoje, segundo Klein, uma retração de cerca de 30% em relação a 2007/08.