Em 2015, demanda interna deve cair e setor externo se recuperar

Veículo: Valor Econômico

Seção: Economia

O ano de 2014 já mostrou que a capacidade da demanda doméstica de sustentar o crescimento econômico diminuiu, tendência que, segundo analistas, deve se aprofundar em 2015, mas com um novo componente: o câmbio em patamar mais favorável e a redução das importações devem levar o setor externo a ajudar a atividade, algo que não ocorre desde 2005, de acordo com cálculos da LCA Consultores. No ano passado, conforme divulgado na sexta­feira pelo IBGE, o saldo líquido entre exportações e importações de bens e serviços deu contribuição nula ao Produto Interno Bruto, depois de ter "tirado" 0,8 ponto percentual do PIB em 2013.

Já a absorção interna ­ que agrega o desempenho do consumo das famílias, da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, medida das contas nacionais do que se investe em máquinas e construção civil) e dos gastos do governo ­ teve forte desaceleração na passagem anual e registrou alta de apenas 0,1% em 2014, muito abaixo da expansão observada no exercício anterior, de 2,7%. Com essa trajetória, a participação da demanda doméstica no crescimento passou de 3,5 pontos para somente 0,1 ponto no período. Ainda de acordo com a LCA, o arranjo esperado para 2015 ­ com contribuição positiva do setor externo e queda da absorção interna ­ não acontece desde 1999.

O cenário já aparece nas estimativas do Banco Central. Em seu último relatório trimestral de inflação, divulgado na quinta­feira ­ antes, portanto, da apresentação das Contas Nacionais ­, a autoridade monetária previu que o nível mais competitivo do câmbio e a expectativa de maior crescimento global devem estimular as exportações e levá­las a uma alta de 2,4% no PIB. Com queda de 3% nas importações, o setor externo daria contribuição positiva de 0,8 ponto ao produto. A demanda externa, por sua vez, retiraria 1,3 ponto e faria o PIB cair 0,5%, segundo as projeções do BC.

Para o economista­chefe da LCA, Braulio Borges, o consumo das famílias, que avançou 0,9% em 2014, ainda será um vetor importante do crescimento econômico nos próximos anos, mas o quadro de expansão da demanda privada acima do total da economia e da renda observado até 2013 ficou para trás. Até então, aponta Borges, o consumo foi impulsionado pela maior alavancagem das famílias, mas daqui em diante o espaço para os consumidores contraírem mais dívidas diminuiu bastante.

Por isso, diz, o consumo das famílias deve avançar a um ritmo mais próximo da renda e do PIB nos próximos anos, com exceção de 2015 ­ quando esse componente pode ter variação menor do que a da massa de renda devido ao "tarifaço", que aumenta o comprometimento do orçamento com bens essenciais e reduz a margem disponível para o consumo de outros bens. Nos cálculos da LCA, feitos ainda com base na metodologia antiga do PIB, a demanda interna vai encolher 0,9% neste ano.

Por outro lado, o quadro de enfraquecimento da absorção interna deve levar as importações a recuarem neste ano, pondera o economista, trajetória que será acentuada pela taxa de câmbio mais desvalorizada e vai ajudar o setor externo a contribuir com o crescimento. "Com a demanda interna mais fraca e um outro ano de forte depreciação cambial, as importações devem despencar", afirma ele. Já as exportações tendem a reagir mais timidamente ao novo nível do câmbio, porque os contratos são feitos com prazos longos e, primeiro, as empresas brasileiras precisam retomar mercados perdidos nos últimos anos para depois começarem a exportar mais.

A economista-­chefe da Rosenberg & Associados, Thais Marzola Zara, projeta que a absorção doméstica retire 1,7 ponto percentual do PIB neste ano, com contribuição positiva de 0,2 ponto do setor externo ­ o pior resultado desde 1999, afirma, quando o mercado interno subtraiu 0,1 ponto do produto. A queda de 1,2% esperada para o consumo das famílias deve ser uma das principais influências negativas no desempenho da absorção interna, pondera a economista. Essa avaliação é reiterada pelo desaquecimento do mercado de trabalho, com aumento na taxa de desemprego e desaceleração da renda média real.

A redução do consumo terá impacto direto nos serviços, cujo PIB deve cair 0,9% neste ano, nas contas da Rosenberg. No ano passado, esse componente da oferta já teve o pior desempenho desde o início da série do IBGE, em 1996 ­ 0,7%, contra alta de 2,5% em 2013 e de 2,4% no ano anterior. Confirmadas as projeções, o produto total vai diminuir 1,5% em 2015.

A demanda doméstica também tira 1,7 ponto do PIB em 2015 nas contas ainda preliminares da Tendências Consultoria. O cenário da instituição prevê, porém, desempenho ligeiramente melhor das exportações, afirma Alessandra Ribeiro, com adição de 0,5 ponto do setor externo