Sem dar trégua ao BC, ‘fogo amigo’ pode custar caro ao país

Veículo: Valor Econômico

Seção: Economia

O Banco Central (BC) tem um problema. Para alguns observadores é brincadeira de gato e rato. Para outros, porém, o país pode pagar caro por uma repetida provocação de alto nível que tem o mercado de câmbio como protagonista. Ontem, pela segunda vez em menos de uma semana, uma “fonte do governo” voltou a fazer declarações sobre câmbio a uma agência internacional de notícias. Na semana passada ocorreu uma ação semelhante, que ensejou uma resposta do BC, também vinda de uma fonte não identificada. E o mercado assistiu naquele momento a um duelo nada produtivo de autoridades a respeito de decisões que o BC deveria ou não tomar nos dias seguintes. Nesta quarta­feira, o mercado não indicou que o BC reagiu aos novos comentários anônimos. A suposta autoridade opinou que o BC tem pouco espaço para manter o programa de swaps cambiais por muito mais tempo, o que não é exatamente uma novidade porque o programa expira dia 31 e o BC decidirá, em poucos dias, as ações que tomará em seguida. No entanto, a mesma fonte oficial afirmou que o real fraco é fator­chave para dar suporte à economia do Brasil este ano. Uma economia que deve registrar mais uma vez contração dos investimentos e pode vir a contabilizar variação negativa do Produto Interno Bruto (PIB).

Não é claro o motivo que está levando fontes oficiais a desviar da postura de neutralidade acenada pelo ministro da Fazenda e desencadear uma desvalorização já considerada ‘artificial’ do câmbio – pela ausência de trégua ou exagero. No ano, apesar do fluxo cambial positivo de US$ 5 bilhões e do aumento do diferencial de juros em relação às demais economias, o real é, disparado, a moeda de pior desempenho. E isso após a forte depreciação verificada no último trimestre de 2014. Há poucos dias, declarações em tom semelhante enfraqueceram a moeda brasileira além da conta. E a troca de títulos atrelados à correção cambial por outros papéis em leilão usual de troca de títulos públicos realizado pelo Tesouro Nacional (providencialmente ou não) também contribuiu para acentuar a tendência de desvalorização do real frente ao dólar.

“Se o câmbio sai de controle, a inflação acelera ainda mais, os juros explodem e a recessão se agrava. A impopularidade da presidente Dilma – que bem mostrou o Datafolha já não é pequena – tende a aumentar e se reduz o espaço para a adoção de políticas ortodoxas”, avalia credenciado especialista em operações cambiais ao Casa das Caldeiras. Este profissional lembra ainda que Imprimir () Casa das Caldeiras o Brasil é uma economia fechada. “É uma ilusão, portanto, imaginar que essa depreciação da moeda será a salvação da lavoura para o crescimento econômico. Não será. Só ficaremos mais pobres.”

Nosso interlocutor acrescenta ainda que “a forte depreciação cambial elimina o espaço para que a Petrobras recupere o seu caixa, gera fortes prejuízos para as empresas que se endividaram externamente e retrai os investimentos. Ao mesmo tempo, o argumento de correção do desequilíbrio externo também é frágil, pois o déficit em conta corrente de 4% do PIB reflete ainda o câmbio de R$ 2,20 de 2014. Um patamar de R$ 2,90, por exemplo, já permitiria uma inflexão da trajetória do déficit, além de uma ancoragem mais rápida das expectativas de inflação”.