Fed indica que alta de juros não será logo nem rápida

Veículo: Valor Econônico

Seção: Economia

O Federal Reserve americano fez o que os mercados financeiros esperavam e retirou a "paciência" com que vinha modulando o momento exato para a primeira elevação dos juros desde dezembro de 2008. Mas fez o que não era esperado, ao indicar, no horizonte das possibilidades, que os juros poderão subir lá por setembro e, quando subirem, o farão em um ritmo muito mais lento do que os membros do Fed haviam projetado antes. As bolsas ficaram eufóricas, o Ibovespa deu um salto, enquanto que o dólar perdeu força diante do real, após semanas em que preocupantemente vinha fazendo o contrário. O alongamento do calendário para o início da alta de juros nos EUA pode significar uma trégua, ainda que passageira, dos fatores externos que deterioraram acentuadamente as expectativas de inflação domésticas, motivadas pela disparada da moeda americana em relação a todas as outras. 

No mundo que o Fed vê agora, o ritmo de crescimento da economia americana arrefeceu um pouco o que, na verdade, derrubou significativamente as expectativas para 2015 e 2016. Na prática, a taxa de expansão que era considerada a mínima para o ano ­ a projeção média dos membros do Fed era de 2,6% a 3% ­ passou a ser a máxima, isto é, a previsão caiu para o intervalo entre 2,3% e 2,7%.

Alguns freios estavam já presentes, como a subutilização da mão de obra e a lenta recuperação da construção imobiliária. Outros vieram em decorrência da perspectiva próxima de elevação dos juros, como o fortalecimento do dólar, que provocou o "arrefecimento" do ritmo de expansão das exportações dos EUA. Janet Yellen, presidente do Fed, em entrevista, acrescentou outro efeito dos movimentos do dólar, o de puxar a inflação do país para baixo, reforçando os efeitos da queda dos preços de energia.

O comportamento da inflação foi outro forte motivo a moderar a intenção passada do Fed em andar rápido com o aumento dos juros, e a protelar o aumento inicial. A previsão de inflação foi cortada quase à metade em relação ao horizonte delineado em dezembro. Antes, a inflação ao consumidor (CPI) caminhava para 1% a 1,6% em 2015, agora, a 0,6% a 0,8%. Mesmo em relação ao núcleo, ela se mantém retraída, fazendo com que a projeção média dos membros do Fed tenha caído de 1,5% a 1,8% para 1,3% a 1,4%. Hoje, o Fed espera que a fronteira dos 2% seja atingida pelo núcleo em 2016 e pelo índice cheio em 2017.

Enquanto crescimento e inflação foram para baixo nas expectativas, o emprego mostrou fôlego mais vigoroso que o previsto. A taxa de desemprego esperada caiu para 5% a 5,2% (era de 5,2% a 5,3%) e o Fed vislumbra que recue até a 4,9% no ano que vem e 4,8% em 2017. Ou seja, enquanto um dos objetivos do Fed está praticamente assegurado, a grosso modo o pleno emprego, o outro ­ a inflação ­ não. Em comunicado, o Fed aponta que só será apropriado elevar os juros quando estiver "razoavelmente confiante" que a inflação se mova em direção ao objetivo de 2%. A "paciência" foi embora dos comunicados do Fed, mas o banco deixa claro que a mudança "não indica que o Comitê de Mercado aberto decidiu o momento para o aumento inicial" dos juros.

A cautela para não descarrilar a recuperação econômica deslocou a expectativa de aumento dos juros para setembro. Em abril, os juros não se moverão, diz o comunicado. E, embora em tese o Fed vá analisar reunião a reunião a conveniência de dar o pontapé inicial nos juros, a projeção dos membros do Comitê sobre o ritmo de alta dos juros caiu quase pela metade. Em dezembro, a média das projeções era de que a taxa chegaria ao fim de 2015 em 1,125% e, agora, em 0,625%. Como isso implica dois aumentos da taxa, hoje na faixa entre 0 e 0,25%, elas poderão ocorrer a partir do 4º trimestre. Na mesma lógica, o avanço dos juros em 2016, antes previsto para 2,5%, foi revisto para 1,875%. Apenas no fim de 2017 os juros saltariam acima de 3% e não muito, 3,125%, se as projeções se revelarem corretas.

Adiamento da reavaliação dos preços dos ativos, moderação na força do dólar, continuação do estímulo à busca por rendimentos poderão dar algum alívio na enorme carga de problemas que assola simultaneamente a economia brasileira. Podem também dar tempo precioso para que se apresse o ajuste fiscal e se criem condições mais favoráveis para que seus resultados surjam e o crescimento reapareça. Não é muito, mas é o que há.