Risco de desabastecimento de energia ultrapassa limite traçado pelo governo

 

Veículo: Folha de São Paulo

Seção: Economia

O risco de haver um desabastecimento de energia elétrica no país ultrapassou, pela primeira vez nos últimos anos, o limite prudencial de 5% estabelecido pelo CNPE (Conselho Nacional de Política Energética).

O limite prudencial é uma linha estabelecida pelo próprio governo para indicar que o sistema opera de forma confortável. Até o momento, nenhum porta-voz do do Ministério de Minas e Energia se pronunciou sobre os efeitos práticos de se ultrapassar esse limite.

De acordo com informações do ministério, divulgadas nesta quarta-feira (4), este nível está em 7,3% para Sudeste e Centro-Oeste e em 1,2% para o Nordeste.

No último mês as previsões para o risco de desabastecimento eram de 4,9% para Sudeste/Centro-Oeste e 1,2% no Nordeste. O cálculo leva em conta o volume de chuvas atual e a série histórica.

Pela primeira vez, a pasta também divulgou um cálculo diferente para medir o risco, que considera o uso total do parque térmico ao longo do ano. A série anterior levava em consideração principalmente a quantidade de chuva que chegava às hidrelétricas e a comparava com as séries históricas dos anos anteriores.

Neste novo cenário, a chance de faltar energia cairia de 7,3% para 6,1% no Sudeste e Centro-Oeste e de 1,2% para risco zero no Nordeste.

O ministério não esclareceu o motivo de ter apresentado, neste momento, os números novos. Também não explicou se esse uso "pleno" é possível, uma vez que as térmicas precisam fazer pausas programas para manutenção, o que reduziria a quantidade de energia no sistema.

O governo ainda defende que o sistema elétrico continua "estruturalmente equilibrado" e que "há sobras" de energia para atender a demanda atual dos consumidores.

O ministério pondera que podem ser necessárias medidas adicionais para preservar os estoques nos principais reservatórios das hidrelétricas, sem detalhar quais seriam.

Ainda que o risco tenha aumentado e ultrapassado o limite, o ministério informou que outras avaliações de desempenho do sistema não indicam "no momento" insuficiência de suprimento energético deste ano.

EXPLICAÇÕES

Em novembro do ano passado, o governo tentou minimizar os efeitos do anuncio de que esse risco havia chegado em 5%, limite tolerado.
O secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, chegou a dizer que a "tolerância de 5% não é igual ao IPCA [Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, que mede a inflação]", denotando que não é tão rígido.

Na mesma ocasião, o diretor-geral do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), Hermes Chipp, comentou que, "se der 5,2% ou 6% de risco, isso não significa que haverá racionamento, porque racionamento se faz em função da previsão de que não virá a água que você precisa". Ele não comentou o que ocorreria quando o risco superasse esses percentuais.

O documento que fixa em 5% o limite para esse risco foi assinado pela própria presidente Dilma Rousseff enquanto ministra de Minas e Energia, em 2004.

O texto diz taxativamente que o risco de insuficiência da oferta de energia elétrica "não poderá exceder a 5% em cada um dos subsistemas que o compõem".

Desta vez, nenhum porta-voz se pronunciou sobre os possíveis efeitos de esse percentual ter sido ultrapassado.