Em Davos, Levy tenta melhorar imagem desgastada do Brasil

 

Veículo: Valor Econômico

Seção: Economia

Ruy Baron/Valor - 5/1/2015
O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que foi aplaudido por empresários em Davos pelo ajuste fiscal que promove

A primeira investida do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, para reverter a desgastada imagem da economia brasileira no exterior e seduzir a elite global foi literalmente aplaudida por empresários e executivos apresentados ao ajuste fiscal em andamento. Objetivo, equilibrado e conhecedor dos desafios que tem pela frente foram definições usadas pelos investidores para descrever o ministro, durante almoço fechado ontem em um luxuoso hotel de Davos, no primeiro dia de atividades do Fórum Econômico Mundial.

Em quase duas horas de conversa informal e sempre em inglês, Levy disse aos empresários que "vai ter ajuste mesmo" e o PIB no Brasil deverá ficar "estável" em 2015, de acordo com relatos feitos por vários presentes. Ele usou a expressão "flat" para descrever o potencial de crescimento da economia neste ano. O termo pode ser traduzido como plano, estável, próximo de zero.

No almoço, organizado pelo Itaú Unibanco e que teve a presença de aproximadamente 80 convidados, o ministro enfatizou o "grande esforço" na recuperação da confiança dos investidores e prometeu transparência na política fiscal. A plateia era composta por empresários e executivos de companhias como Marriott, Novartis, Nestlé, AngloAmerican, Femsa, Total, UBS e BNP Paribas. O grupo também tinha pesos-pesados do PIB nacional, como Luiz Carlos Trabuco (Bradesco), Vitor Hallack (Camargo Corrêa), Claudia Sender (TAM) e Bernardo Grandin (GranBio).

Um mexicano que participava do encontro tomou a palavra e disse que a nomeação de Levy era "a melhor notícia dos últimos meses" sobre o Brasil. Foi imediatamente aplaudido pelo restante da audiência. "Ele quer facilitar a vida do investidor, garantir uma perspectiva de estabilidade aos negócios, sem mudar regras de tempos em tempos, privilegiando investimentos de longo prazo", comentou à saída do encontro, em caráter reservado, uma executiva europeia.

Outro tópico abordado pelo novo ministro da Fazenda, sempre de acordo com relatos dos participantes do almoço, tratou do impacto do ajuste econômico em fase de implementação sobre as áreas sociais. "O novo ministro falou que os avanços sociais conquistados nos últimos anos serão mantidos, que eles precisam estar equilibrados com os esforços para alcançar credibilidade na área econômica", relatou outra fonte.

O ministro da Economia da Colômbia, Mauricio Cárdenas, participou como debatedor do almoço, que teve como prato principal um insosso frango com purê de batatas e salada. Cárdenas, porém, foi pouco questionado pela plateia, embora o país tenha se transformado recentemente em queridinho dos investidores e esteja crescendo mais de 4% ao ano.

Segundo um dos participantes do encontro, Levy fez um discurso "crível e realista", sem informações novas para quem acompanha a economia brasileira, mas de forma "transparente".

Já outro empresário saiu com a opinião de que "ficou claro que vem remédio amargo pela frente". O presidente de uma das maiores consultorias do mundo disse que a postura do ministro é correta, mas é preciso esperar "alguns meses, talvez uns dois anos" para colher resultados. "Crescimento firme não será fácil para o Brasil, principalmente por causa das atuais condições e das perspectivas globais. Mas ele procurou tranquilizar, dizendo que o país tem fundamentos para enfrentar crises."

Em sua participação no Fórum Econômico Mundial, que segue até sábado, Levy demonstra estar totalmente focado no mercado global. Além do almoço com figuras importantes do meio empresarial, ele deu prioridade a entrevistas para jornais e agências internacionais, falando com jornalistas brasileiros somente depois de todas as suas atividades no fórum.

Hoje, no segundo dia de atividades em Davos, o ministro terá uma agenda pesada de reuniões bilaterais. De manhã, encontra-se com a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde. Depois, participa de um almoço com presidentes de bancos centrais e investidores. À tarde, reúne-se ainda com Klaus Schwab, fundador do Fórum de Davos, e com o presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Luiz Alberto Moreno.

A participação de Levy termina no sábado. Ele será palestrante em uma sessão sobre as perspectivas do crescimento global, junto com figuras como Benoît Coueré (diretor do Banco Central Europeu) e Haruhiko Kuroda (presidente do Banco do Japão).