Custos da indústria sobem com salários e recuo de produção

 

Veículo: Folha de São Paulo

Seção: Economia

Levantamento feito pela Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro) mostra que os gastos com a folha de pagamentos, em um cenário de queda da produção, puxaram para cima o custo do trabalho na indústria de 2010 até este ano.

Entre janeiro daquele ano e junho de 2014, a produção por hora trabalhada (produtividade) ficou praticamente estagnada, mas o custo desse trabalho ficou mais caro.

Nesse período, enquanto a produção por hora cresceu só 0,2%, o custo da hora de trabalho, sem contar a inflação, subiu 11,9%.

Com isso, ficou 11,6% mais caro para a indústria produzir no Brasil –alta superior à registrada em outros oito países selecionados pela Firjan.

  editoria de arte/Folhapress  
 

Nos 12 meses encerrados em junho, segundo a entidade, os setores que mais sentiram os aumentos do custo do trabalho foram os fabricantes de meios de transporte (veículos, reboques e carrocerias) e do setor têxtil. O segundo chegou a ser beneficiado pelo governo com a redução dos impostos sobre a folha de pagamentos.

Segundo Livio Ribeiro, chefe da divisão de estudos econômicos da Firjan, o que mais pesou nesses dois setores, contudo, foi a redução da atividade nas fábricas. A produção de veículos caiu 18% neste ano (até outubro) e a de têxteis, 5,8%, informa o IBGE.

Se a produção cai, a produtividade (que é a produção por hora trabalhada) também cai. Mas as despesas com a folha de pagamentos não recuaram na mesma proporção.

Outros setores como alimentos e bebidas, borracha e plástico e máquinas e equipamentos foram mais impactados pelo aumento da folha salarial, que se somou à queda da produção. Em outras palavras, os salários e os encargos trabalhistas continuaram subindo apesar desaceleração da produção.

SETOR ESTRANGULADO

Até 2008, diz Ribeiro, a produtividade estava crescendo mais do que o custo e, por isso, esse aumento não era daninho ao setor. Quando as despesas com funcionários passam a crescer mais do que a produção, como ocorreu a partir de 2010 até este ano, o setor fica estrangulado e para de investir.

"No fundo estamos discutindo métricas de competitividade do país, que não se explica apenas por movimentos da taxa de câmbio", disse.

No último domingo (7), reportagem da Folha mostrou a alta do dólar ainda não é suficiente para cobrir o aumento dos custos das empresas. Esse problema é pior para as empresas que competem com as importações ou que atuam no mercado externo.

A medida da Firjan desconsidera as flutuações do câmbio, para ressaltar os efeitos domésticos que expliquem a escalada dos custos.

Segundo Ribeiro, México e Colômbia têm avançado em reformas que estão melhorando a eficiência da economia e, com isso, permitindo que as empresas tenham custos menores. "Quando o ambiente de negócios melhora, o custo cai", afirma Ribeiro.

O economista Júlio Gomes de Almeida, professor da Unicamp e ex-secretário-executivo do Ministério da Fazenda, afirma que o custo do trabalho é um indicativo da margem dos empresários e um farol para novos investimentos, o que tem contribuído para que o Brasil fique de fora das cadeias globais de produção.

"Por que um empresário vai investir se está perdendo capacidade de competir?"