UBS vê ajustes marginais no Brasil e prefere ativos dos EUA

 

Veículo: Valor Econômico

Seção: Economia

Leonardo Rodrigues/Valor

Mariscal, do UBS: "Acredito que observaremos alguns ajustes à frente, mas é provável que sejam marginais"

Um faroeste italiano da década de 60, estrelado por Clint Eastwood, é um bom retrato dos países emergentes hoje, na opinião de Jorge Mariscal, diretor de investimentos da área de gestão de fortunas do UBS. "The Good, the Bad, and the Ugly", ou, em tradução literal, "Os Bons, os Maus e os Feios" foi a citação do especialista em emergentes em relatório divulgado a clientes globais nesta semana, um guia para os investimentos em 2015. Na lista dos bons, estão Colômbia, Chile, Peru e México. Em seguida, há os feios, grupo que inclui Argentina e Venezuela. O papel de mau resta a um único personagem: o Brasil.

Nos países "bons", a estrutura macroeconômica permanece bastante sólida e uma quantidade razoável de reformas estruturais está em andamento. Os "feios" são os fora da curva, em que a estrutura macro fica para trás há alguns anos. O Brasil, por sua vez, tem inflação moderadamente alta e recessão, aponta o relatório. A margem pequena de reeleição do governo deve obrigá-lo a fazer mudanças, escreve Mariscal. "Portanto, acredito que observaremos alguns ajustes à frente, mas é provável que sejam marginais", adiciona.

Para o diretor de investimentos do UBS, o Brasil precisa de uma grande reforma. "Seu governo é grande e muito burocrático, extremamente intervencionista ao definir ou influenciar preços e alocação de crédito - e isso afeta a disposição dos empreendedores para investir", afirma Mariscal em trecho do relatório. O Brasil, aponta, tem uma das taxas de investimento em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) mais baixas entre os mercados emergentes. "O segundo governo Dilma precisará revisar essa abordagem", completa o executivo.

Em termos de crescimento, a expectativa é que Brasil e Rússia continuem a decepcionar, devido às suas respectivas conjunturas políticas, enquanto México terá aceleração considerável. Também é esperado que a inflação suba ainda mais "em relação a seus patamares já altos" na Rússia (de 7,6% para 8,1%) e no Brasil (de 6,4% para 6,8%), enquanto cai no México, de 4,1% para 3,4%.

A visão negativa sobre Brasil reflete-se nas indicações para o portfólio feitas pelo UBS para 2015. O relatório, com título "O mundo divergente", alerta que a ideia de um ciclo de negócios global já não serve mais. O crescimento será desigual, as políticas econômicas tomam caminhos diferentes e há também variações entre os programas de reformas dos mercados emergentes.

O resultado, apontam os especialistas, será disparidade também no desempenho de ativos financeiros. O remédio, escrevem, é diversificar as carteiras. Os investidores que aplicam em uma carteira global equilibrada de ações, títulos e investimentos alternativos têm a maior probabilidade de obter sucesso, aponta o documento.

O UBS recomenda certos "desvios táticos" no portfólio para tirar proveito de transformações desse mundo divergente. Está entre eles a preferência por ações dos Estados Unidos às dos mercados emergentes. Enquanto as empresas americanas apresentam crescimento de lucros, a lucratividade das companhias de mercados emergentes está fraca e os mercados acionários dessas regiões podem ser mais vulneráveis em épocas de volatilidade, indica o relatório. Dentre os emergentes, a preferência é pelos países que estão implementando reformas econômicas, como México e Índia, e pelos que estão com exposição positiva à demanda dos EUA, como Taiwan.

Na renda fixa, os títulos públicos são o patinho feio. "Os investidores em títulos precisam cada vez mais buscar o crédito como fonte de retorno", escreve a equipe de investimentos. Diante dos baixos rendimentos de títulos soberanos, a indicação vai para papéis corporativos com grau de investimento e os de alto risco, com expectativa de ganhos mais fartos, principalmente dos EUA. A expectativa é que eles se beneficiem de um sólido cenário econômico nos EUA e dos baixos custos de financiamento.

Já para dívida privada dos mercados emergentes, o UBS também tem posição abaixo da neutra nos portfólios. As taxas de inadimplência desses papéis têm sido baixas em razão do ambiente favorável para financiamentos de empresas dessa região, avalia a equipe de investimentos, mas deverão subir em 2015. O entendimento é que o "spread", prêmio em relação a papéis de baixo risco, está retraído em comparação com os dados fundamentalistas.

Dentre os fundos, atraem aqueles com estratégias comprada e vendida, que deverão estar bem posicionados para tirar proveito das divergências globais, segundo a casa. Em moedas, a equipe do UBS enxerga oportunidades táticas no dólar e na libra esterlina contra o franco suíço e o euro. Em meio às moedas de emergentes, a recomendação é tratar com cautela os chamados países "frágeis", o que inclui Brasil, Indonésia e África do Sul.

As commodities não são vistas como elemento estratégico de uma carteira, por acrescentarem volatilidade sem oferecer retornos proporcionais. Para quem quer se posicionar nesse universo, os preferidos são os grãos e as commodities energéticas, em detrimento dos metais preciosos.