Para o ex-ministro Delfim Netto, ajuste não produz crescimento

 

Veículo: Folha de São Paulo

Seção: Economia

A arrumação das contas do governo, prometida pela nova equipe econômica, não é suficiente para devolver o crescimento ao país.

Na avaliação do ex-ministro Delfim Netto, que comandou a economia nos anos 60 e 70, o aumento da taxa de juros para conter a inflação, hoje em 6,5% ao ano, também não é capaz de produzir sozinho o sucesso econômico medido pela expansão do PIB.

Para Delfim, é preciso "reacordar o espírito animal" dos empresários com um programa transparente do que será feito nos próximos dois anos.

"Essa ideia de que é possível produzir crescimento simplesmente elevando juros e cortando despesas não funciona em lugar nenhum do mundo", disse o ex-ministro em evento do Corecon (Conselho Regional de Economia).

  Eduardo Knapp/Folhapress  
O economista Delfim Netto em seu escritório em São Paulo
O economista Delfim Netto durante entrevista em seu escritório em São Paulo

Delfim recomendou duas iniciativas imediatas ao governo, que poderiam ser lançadas já no primeiro trimestre de 2015: a simplificação do ICMS e o afrouxamento das negociações trabalhistas.

Em suas estimativas, a complexidade do ICMS esconde cerca de 0,5 ponto percentual do PIB. Já a permissão à livre negociação entre patrões e empregados, sugestão da CUT (Central Única dos Trabalhadores), tem potencial de reduzir o passivo trabalhista das empresas.

INDÚSTRIA

Delfim alertou que, sem crescimento, o próprio ajuste fiscal fica comprometido, porque as receitas de impostos minguam. Mas defendeu a arrumação das contas do governo, citando o controle dos gastos com seguro-desemprego e pensões.

"O seguro-desemprego é um escândalo. É uma combinação entre patrões e empregados para assaltar o Tesouro", disse, e prosseguiu: "Aos 86 anos, vocês não podem imaginar como as moças ficam atrás de mim. Se eu casar com uma delas, ela ganha 80 anos de pensão!"

Outro fator que preocupa Delfim é a crise da indústria.

"Não há nenhum mecanismo para fazer voltar o crescimento a não ser estimulando a produção industrial", disse. "E não há outra forma [de fazer isso], a não ser estimulando os investimentos em infraestrutura".

O diagnóstico de Delfim é que "a indústria murchou" e, com isso, murchou o PIB.

O ex-ministro atribui a crise do setor às tentativas de usar o câmbio contra a inflação. Isso levou à valorização do real e provocou um "desastre" na indústria, que perdeu capacidade de exportar.

"Uma das alavancas mais importantes do desenvolvimento econômico foram destruídas", afirmou.

No ano passado, o Brasil respondeu por apenas 0,7% das exportações globais de produtos industrializados.

"É uma demonstração clara de que estamos pagando o preço por equívocos que cometemos", afirmou. "Jogamos fora um setor extremamente sofisticado."