A agricultura brasileira e a China

 

Veículo: Folha de São Paulo

Seção: Economia

Queiramos ou não, o mercado chinês é essencial para a sobrevivência de nossas contas externas

A agricultura tornou-se grande fonte de receita para o Brasil. Muitas razões levaram a indústria a perder espaço: as políticas econômicas tiveram foco no macro enquanto, no micro, tomamos direções erradas; nossa integração à economia internacional é baixa; o mundo mudou e ficamos fixados em realidades que não evoluíram: o Mercosul e as negociações na OMC; atraímos investimentos diretos que miram os mercados interno e sub-regional e pouco contribuem para aumentar nossa inserção na economia internacional.

Isso sem falar no financiamento de longo prazo concentrado no BNDES, na taxa de poupança sempre baixa, no quadro tributário movido apenas pelo imperativo político de aumentar gastos, no reduzido apetite de empresários para conquistar um cenário externo crescentemente desafiador.

Na agricultura, evoluímos. Com a intermediação das tradings multinacionais conquistamos o mercado chinês. Melhoramos a eficiência governamental e soubemos responder, com alguma agilidade, aos obstáculos que se apresentaram.

O exemplo das exportações para a China é relevante. O sucesso da soja é incontestável. Até outubro deste ano, fornecemos 28,5 milhões das 52,7 milhões de toneladas importadas pelos chineses. No açúcar, fornecemos 1,5 das 2,4 milhões de toneladas compradas pela China.

Em carne bovina, de janeiro a setembro, exportamos 158 milhões de toneladas para Hong Kong, enquanto a China continental, para onde não exportamos de tudo porque a carne brasileira estava sob embargo, importou, no total, 116 milhões de toneladas. Fomos, no mesmo período, o terceiro maior exportador de celulose e o quarto exportador de algodão para o mercado chinês.

O risco é nos contentarmos com os resultados. O caso da soja, por exemplo: nos primeiros dez meses de 2014, aumentamos o volume das exportações para a China em 4%, enquanto os EUA aumentaram 38,35%, a Argentina, 28,32% e o Canadá, 22,41%.

Os americanos estão se movendo, levando os produtores a interagir mais com os compradores, algo que não fazemos. Em carne bovina, não podemos ficar tão dependentes das entradas via Hong Kong. A China faz vista grossa para essa triangulação, mas não será para sempre.

Nossas exportações de algodão para o mercado chinês de janeiro a outubro tiveram queda de 45% em relação ao mesmo período de 2013.

Fornecemos apenas 0,2% da carne de porco e 4,2% do café importados pelos chineses. O mercado de café, segundo um estudo da OIC (Organização Internacional do Café), cresce 12,8% ao ano. O consumo médio per capita é de 25 gramas, enquanto em outros países esse número vai a 12 kg. Quando ocuparemos maior espaço?

Bons ventos sopram com as notícias de indicação da senadora Katia Abreu para comandar a Agricultura. Ela conhece o setor e a realidade internacional, particularmente a chinesa, da qual nossos ministros estão frequentemente afastados.

Queiramos ou não, trata-se do mercado com maior potencial no mundo, essencial para a sobrevivência de nossas contas externas. O risco de não fazermos mais é alto e o Brasil não pode corrê-lo.