Ociosidade na indústria é a maior desde a crise de 2009

 

Veículo: Folha de São Paulo

Seção: Economia

O fraco desempenho da economia brasileira levou a indústria a trabalhar com níveis preocupantes de capacidade ociosa. Com menos turnos de produção e fábricas paradas, as empresas podem acelerar as demissões.

Sondagem da FGV (Fundação Getulio Vargas) aponta que a indústria operou, em média, com 28% de capacidade ociosa em outubro -o maior patamar desde agosto de 2009, quando o país se recuperava da crise global.

O dado é surpreendente porque foi registrado às vésperas do Natal, quando a produção deveria estar a todo vapor. "A ociosidade e o pessimismo dos empresários são uma combinação desfavorável para investimento e contratação", diz Aloisio Campelo, superintendente-adjunto de ciclos econômicos da FGV.

De janeiro a outubro, a indústria ainda registra saldo positivo (contrações menos demissões) de 34,9 mil pessoas, segundo o Caged (registro do Ministério do Trabalho).

Mas, após as dispensas
de fim de ano, deve chegar a dezembro com 146 mil trabalhadores a menos, confor-
me projeção da consultoria LCA. Se for confirmado, será o primeiro resultado negativo desde 2009.

As linhas de produção paradas ou subutilizadas já são realidade em quase toda a economia. Segundo a FGV, os setores mais atingidos são material de transporte, material elétrico, metalurgia, vestuário, calçados e produtos alimentares.

Até mesmo a indústria de alimentos, tradicionalmente pouco sensível às flutuações da economia, está sofrendo com o aumento de ociosidade nas fábricas.

Conforme a Abia, que representa o setor, o nível de ociosidade atingiu 30% de janeiro a setembro, quatro pontos porcentuais acima de igual período em 2011.

Pela primeira vez desde 1998, a produção da indústria de alimentos vai cair. O setor, que projetava alta de 4% nas vendas, amarga recuo de 0,4% até setembro.

"Esse resultado negativo é reflexo do maior endividamento do consumidor e do fraco crescimento da renda e do emprego", afirma Amilcar Lacerda de Almeida, diretor-adjunto do departamento de economia da Abia.

No setor de calçados, as fábricas estão trabalhando com 25% a 30% de capacidade ociosa, acima dos 5% a 10% da média histórica, de acordo com a Abicalçados, que reúne as empresas.

A entidade estima que 250 milhões de pares de calçados deixarão de ser produzidos neste ano. "O mercado está deprimido e as exportações vão mal, principalmente por causa da Argentina", afirma Heitor Klein, presidente-executivo da Abicalçados.

ENERGIA

No setor de alumínio, algumas empresas deixaram de produzir para vender a energia que já contrataram no mercado livre, devido aos preços abusivos do insumo.

"As indústrias não deixam de produzir porque querem, mas porque se tornou inviável", diz Milton Rego, presidente-executivo da Abal, que reúne o setor.

Segundo a entidade, a produção de alumínio vai ficar em 950 mil toneladas neste ano, o que representa 40% de ociosidade. Em 2013, chegou a 1,3 milhão de toneladas.