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Governo eleito terá de adotar uma nova política fiscal para recuperar confiança

Veículo: Valor Econômico

Seção: Economia

Reverter o quadro de deterioração da confiança após as eleições vai demandar mais do que apenas o anúncio de uma nova equipe econômica, avaliam os analistas ouvidos pelo Valor Data. A correção das defasagens de preços administrados e uma menor intervenção na taxa de câmbio são medidas que podem melhorar o funcionamento do mercado e impulsionar a atividade em alguns setores. O essencial, porém, seria colocar a política fiscal em nova rota.

O passo seguinte envolve políticas de mais longo prazo. O início de mandato seria um bom momento para delinear essas reformas, afirmam os analistas.

Como as chances de sucesso são maiores nos meses iniciais de governo, Thaís Zara, economista-chefe da Rosenberg & Associados, afirma que, "no momento zero", o próximo governo precisa colocar as reformas pretendidas na mesa. Essa "carta de boas intenções" poderia levar a um voto de confiança, melhorando as expectativas.

Fernando Genta, economista-chefe da MCM Consultores, também avalia que a nova gestão deveria apresentar no início do mandato um diagnóstico sobre os problemas do país e propor soluções. "Uma análise ampla e realista, inicialmente, é mais importante do que a discussão sobre em quanto a Selic e o superávit primário precisam ser elevados", diz.

A troca de governo, seja com Aécio Neves (PSDB) ou com Eduardo Campos (PSB), ajudaria a melhorar as expectativas iniciais, acredita Sérgio Vale, da MB Associados. "A mudança para uma gestão mais comprometida já poderia diminuir as expectativas inflacionárias de longo prazo", comenta Vale. Isso não significa dizer, no entanto, que a presidente Dilma Rousseff não poderia lograr o mesmo feito caso seja reeleita. "Mas o que tem sido feito nos últimos quatro anos não sanciona essa possibilidade."

As medidas a serem tomadas precisam transmitir a mensagem de que o foco passa a ser o investimento e não mais o consumo das famílias e do governo, defende André Muller, da Quest Investimentos. Dessa forma, diz, o governo atrairia o capital privado para sanar os problemas de oferta da economia.

Muller acredita que as próximas ações precisam contemplar a correção dos desequilíbrios atuais, principalmente dos decorrentes do gerenciamento de preços da economia. A reafirmação do compromisso de trazer a inflação para 4,5% ao ano levaria a um ambiente mais favorável ao investimento privado, diz Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco.

Juan Jensen, sócio da Tendências, avalia que o próximo governo terá que recuperar a credibilidade das contas públicas e elevar o superávit primário recorrente. "Se não fizermos esses ajustes, o país vai perder o selo de grau de investimento das agências de rating", diz.

O economista-chefe da LCA, Bráulio Borges, argumenta que será preciso discutir a mudança da regra de correção do salário mínimo, ou ao menos a desvinculação dos benefícios previdenciários.

Alexandre Bassoli, economista-chefe do Opportunity, também bate na tecla de mudanças institucionais que permitam interromper a trajetória de expansão do gasto público acima da velocidade do PIB, e aponta que é preciso simplificar o sistema tributário e reduzir incertezas regulatórias para elevar a produtividade da economia.

Também com o objetivo de elevar a eficiência do país, Jankiel Santos e Flavio Serrano, do BES Investimento, acreditam que a reformulação do programa de concessão de serviços públicos ao setor privado deveria ser uma das primeiras medidas anunciadas pelo governo.

No campo da política monetária, além de "soltar" os preços administrados, José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, afirma que é preciso deixar o câmbio flutuar. Já Eduardo Velho, economista-chefe da INVX Global Partners, defende a aprovação da autonomia do Banco Central, com descolamento dos mandatos de sua diretoria do calendário de eleições presidenciais.

Se bem executadas, a redução das políticas fiscais expansionistas, a promoção de ajustes de preços represados e convergência da inflação para a meta poderiam abrir espaço para uma melhora no mercado de capitais, diz Daniel Moreli Rocha, do BI&P. Com aumento dos investimentos estrangeiros para emissões de debêntures e outros instrumentos de renda fixa, o custo de financiamento das empresas brasileiras seria menor, explica.

Mirando o longo prazo, reformas para ganhar produtividade são consideradas essenciais. O crescimento depende cada vez mais do ambiente de negócios, diz Maurício Molan, economista-chefe do Santander. "Em uma economia com elevada participação de serviços, inovação e melhora da eficiência da mão de obra são fundamentais", afirma Molan, que critica a maior ênfase na quantidade de recursos alocados na área de educação, sem planos que envolvam métricas de desempenho e maneiras de medir a eficiência nos montantes investidos.

 



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