Analistas veem diferenças entre papéis de consumo

Veículo: Valor Economia

Seção: Economia

O setor de consumo, que em outros invernos já foi um dos prediletos dos investidores em bolsa, segue enfrentando grandes dificuldades frente ao cenário de desaceleração econômica e, segundo especialistas, as perspectivas não são muito animadoras. Ainda assim, bancos e corretoras chamam atenção para algumas histórias de sucesso e listam papéis que podem se adequar a perfis diferentes de risco.

Segundo levantamento feito pelo Valor com base em relatórios e consultas a analistas, Via Varejo é uma das preferidas, pelo preço por ação atrativo mesmo com resultados fortes e boa geração de fluxo de caixa livre. Arezzo, Renner, Lojas Americanas e Hypermarcas também despontam como boas alternativas de investimento, mas não há unanimidade nas indicações. Já Marisa, por ser muito dependente das operações de financiamento ao consumo, deve ser evitada, na opinião de casas de análise.

 

"[Em relação ao segundo trimestre]

, nós esperamos mais um período em que as diferenças na execução de cada empresa irão guiar os resultados diferenciados e as performances das ações", diz o analista Bernardo Cavalcanti, do Goldman Sachs, em relatório.

Para os investidores que tiverem interesse de entrar no setor apesar dos ventos desfavoráveis, existem duas abordagens possíveis, segundo o Credit Suisse. Uma das estratégias é para aplicadores com apetite maior ao risco, voltada a ações consideradas baratas, mas que são mais vulneráveis ao cenário macroeconômico. Via Varejo, por exemplo, está mais exposta, mas seu preço em bolsa é visto como atraente pelas corretoras.

A empresa atua no ramo de bens discricionários, aqueles considerados não essenciais, e, em um momento de gradual deterioração do ambiente econômico, é natural as preocupações aumentarem. Por outro lado, a companhia é a mais barata do setor, apesar de ter fortes resultados, geração de caixa livre e de ter o melhor retorno sobre o capital investido do segmento.

"O crescimento das receitas é importante, mas notamos que a maior parte do avanço dos resultados em 2014 e 2015 deve vir da maturidade das já implantadas medidas de reduzir custos e despesas", diz o Credit. O crescimento dos resultados e do fluxo de caixa da companhia depende hoje mais da habilidade da administração em obter ganhos de sinergia do que propriamente elevar as vendas, segundo o banco.

"Não vemos um cenário em que o crescimento econômico irá acelerar nos próximos 6 a 12 meses e impactar positivamente as tendências no consumo, vendas e, consequentemente, os resultados", diz o Credit. Demanda lenta e inadimplência elevada são riscos na avaliação do Goldman, como consequências do cenário atual, mas melhora nas vendas e melhor execução do plano de crescimento orgânico podem ser surpresas positivas no futuro.

Já o investidor que deseja adotar uma abordagem defensiva deve ter como foco empresas com características como boa administração, liderança de mercado, mix de vendas com menor quantidade de produtos discricionários e que não estejam enfrentando um processo de reestruturação. Lojas Americanas, Renner e Hypermarcas entram nessa categoria. Os analistas das casas de análise ressalvam, no entanto, que o potencial de alta dessas ações é pequeno.

A Hypermarcas continua como uma opção atraente para se investir no setor, dada a exposição em um mercado menos discricionário e com um baixo valor agregado. A empresa continua a executar bem a estratégia de combinar crescimento orgânico com melhora na eficiência operacional, observa o Credit, que tem recomendação neutra.

Por aumentar constantemente os investimentos em marketing e inovação, mais do que expandir as margens no curto prazo, a companhia trabalha para preservar as perspectivas de crescimento no longo prazo e aumentar a participação de mercado. Apesar de entrar em um portfólio defensivo, o limitado potencial de alta deixa o papel menos atraente.

Renner é outra queridinha por estar bem posicionada, segundo os analistas, para manter o crescimento de participação, não só com o formato tradicional de suas lojas, mas também com a Camicado, vendas na internet e eventualmente com o Youcom.

"A atual desaceleração econômica, embora negativa, pode permitir que a empresa não só acelere ganhos de participação de mercado, mas também melhore seu poder de barganha com fornecedores", diz o Credit. Entre os riscos, o Goldman destaca crescimento mais fraco nas vendas e nas margens, menor abertura de lojas, fracos resultados em operações financeiras e a deterioração macroeconômica.

A empresa está junto com a Arezzo na atuação de "produtos não-essenciais" mas com bons resultados. O desempenho das varejistas supera o cenário de desaceleração. A Marisa, por outro lado, segue muito dependente das operações de financiamento ao consumo, enquanto a Hering continua na luta para reverter os dois anos de resultados negativos em unidades abertas há mais de um ano - conceito de "vendas mesmas lojas", diz o Goldman.

De acordo com o relatório do banco, Lojas Americanas, também indicada como um caminho para se expor ao segmento, continua como uma das varejistas com crescimento mais rápido no Brasil, enquanto entrega simultaneamente crescimento nas receitas, expansão de margens e melhoria no capital de giro. A execução da estratégia de crescimento e incapacidade de proteger as margens por meio de ajustes no mix de produtos podem trazer riscos, assim como os resultados da subsidiária B2W, segundo o Goldman.

Em todos os casos, no entanto, o atual contexto econômico do país é bem diferente do que se viu nos últimos anos, tornando o horizonte bastante obscuro. O forte impulso na expansão média de 8% no comércio varejista entre 2004 e 2012, por exemplo, já caiu pela metade. As preocupações das casas de análise giram em torno, principalmente, em relação ao crescimento modesto do Produto Interno Bruto (PIB), ao impacto atrasado da alta na taxa de juros, à inflação persistente e à confiança cada vez menor do consumidor e das empresas. O espaço pequeno para a evolução do crédito é outro ponto, além da volatilidade em ano de eleição e o risco de racionamento de energia.

"A mensagem é que, enquanto os indicadores fundamentais que medem o consumo ainda estiverem relativamente bem, a expansão vai continuar a se desacelerar suavemente e as opções disponíveis para reacender o crescimento a curto prazo são limitadas", afirmam Tobias Stingelin e Alexandre Amson, do Credit Suisse, em relatório. "Os consumidores estão definitivamente mais seletivos, a concorrência está mais forte e há claramente riscos maiores, o que sugere prudência no processo de seleção das ações para investir."

No geral, a orientação dos analistas é permanecer seletivo com o setor, pois o ambiente propício para o crescimento já não existe mais. Ao traçar um paralelo com os oito anos em que o Brasil teve forte expansão no consumo, de 2004 a 2012, há muitas diferenças, consideram os analistas.

Mariana Oliveira, especialista de comércio e crédito da consultoria Tendências, explica que a estabilidade macroeconômica foi uma das bases principais para o avanço do setor entre 2004 e 2012. Segundo ela, o controle da inflação alinhado ao baixo risco de desemprego deu espaço para o planejamento financeiro das famílias e, assim, à tomada de crédito para a compra de bens.. Atualmente, no entanto, o endividamento das famílias é considerado elevado e a alta dos juros - cuja taxa básica, que atingiu o patamar mínimo de 7,25% ao fim de 2012 e voltou aos atuais 11% anuais em abril deste ano - inibiu gastos. "O esforço para estimular o consumo sem expandir a oferta com investimentos não funciona mais", afirma Mariana.