Vendas do varejo crescem em maio, mas não alteram estimativas de um ano fraco

Veículo: Valor Econômico

Seção: Economia

Depois de três meses de queda e desempenho abaixo das expectativas, o varejo surpreendeu em maio com um desempenho positivo. Apesar disso, analistas ainda observam tendência de desaceleração e não mudaram suas previsões para o ano.

O desempenho do mês foi ajudado por fatores pontuais - Dia das Mães e Copa do Mundo - e também pela pequena melhora no poder de compra diante do arrefecimento da inflação, em especial dos alimentos.

 

 

Segundo a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o volume de vendas do comércio varejista restrito teve alta de 0,5% ante abril, na série com ajuste sazonal, e de 4,8% na comparação com maio do ano passado. Foram resultados acima do esperado por 17 bancos e consultorias, conforme pesquisa do Valor Data, que apontava variações de zero e de 3,5%, respectivamente.

"Os resultados têm sido muito voláteis. Em um mês vêm muito positivos, em outro muito negativos", disse o economista Paulo Neves, analista da LCA Consultores. Indicadores difusos somados a um certo pessimismo foram as razões apontadas por ele para o mercado ter, desta vez, calibrado as expectativas para baixo. "Havia uma dose de pessimismo, porque o varejo vinha surpreendendo de forma negativa sistematicamente, seja por vir abaixo das expectativas, seja por vir negativo." Após crescer 0,4% em janeiro, o setor registrou queda de 0,1% em fevereiro, de 0,4% em março e novamente de 0,4% em abril. No ano, acumula alta de 5% ante os mesmos meses em 2013.

"Não se pode falar em inversão na tendência [de queda] das vendas do comércio. É preciso aguardar mais alguns meses de crescimento para se configurar isso", disse a gerente da coordenação de serviços e comércio do IBGE, Juliana Paiva, durante coletiva à imprensa. De acordo com o instituto, a alta de maio foi ajudada pelo Dia das Mães, que puxou o desempenho das lojas de departamento, supermercados (em certa medida) e de artigos pessoais, e pela Copa do Mundo, que impulsionou as vendas de televisores. O segmento que reúne as redes de móveis e eletrodomésticos respondeu, sozinho, por 22% do resultado do mês no restrito: sem ele, a alta de 4,8% sobre maio do ano passado teria sido de 3,7%.

Mariana Oliveira, economista da Tendências Consultoria, ressalta que também pesou para o quadro temporariamente melhor os preços já mais aliviados dos alimentos, depois de um começo de ano pressionados. "Como são um bem essencial, alimentos com preços altos acabam reduzindo o poder de compra do consumidor, e o crescimento de maio como um todo já reflete, em certa medida, essa melhora no poder de compra. "

Por outro lado, mesmo com um bom mês para os eletroeletrônicos, Mariana lembra que o setor de bens duráveis, em geral, vem perdendo força. "Os bens duráveis sofrem influência maior do crédito, além da confiança, já que demandam maior comprometimento do consumidor ao serem adquiridos", disse, apontando para os resultados do varejo ampliado, que considera também as vendas de automóveis e de materiais de construção. Em maio, houve queda de 0,3% no ampliado, na série com ajuste sazonal, e alta de 1,4% comparado a maio de 2013.

"O mês contou com uma ajuda forte dos eletroeletrônicos, mas, desconsiderado o efeito da Copa, é possível ver que há uma tendência clara de desaceleração", disse Fernanda Consorte, da equipe econômica do banco Santander. "Os resultados em 12 meses, por exemplo, enfraqueceram fortemente. Em 2012, o comércio crescia a 12% ao ano, em 2013 era 7% e agora já estamos a 5%."

No acumulado em 12 meses até maio, o varejo restrito registra elevação de 4,9%, segundo o IBGE. Para 2014, a previsão do Santander é que, entre meses de alta e outros de queda pela frente, o segundo semestre deve girar em torno de zero, e o varejo deve encerrar o ano crescendo entre 4% e 3,5%. Mariana, da Tendências, estima alta de 3,4%. Neves, da LCA, fala em 3,5%.