Possíveis razões do baixo crescimento

Veículo: Valor Econômico

Seção: Economia

Um dos principais debates em curso no país é sobre as razões que teriam levado a economia brasileira a desacelerar o crescimento de forma tão abrupta. O debate é relevante porque, uma vez identificadas essas razões, num mundo ideal criam-se as condições para que se corrija o rumo das políticas, permitindo que o Produto Interno Bruto (PIB) volte a crescer de forma mais rápida.

Não se trata de um debate desapaixonado. O governo Dilma sustenta a tese de que o Brasil tem avançado lentamente porque o mundo cresce pouco desde a crise de 2008. No mercado, a visão predominante é a de que o baixo crescimento é explicado pela perda de credibilidade da política econômica na gestão Dilma. Uma terceira hipótese é a de que a ausência de reformas microeconômicas seria a grande responsável pela situação atual.

É bem provável que os três elementos concorram para explicar o mau momento. Dois economistas do Banco Mundial - Otaviano Canuto e Philip Schellekens - desenvolveram o tema num pequeno estudo intitulado "Três Perspectivas sobre o Pessimismo quanto ao Crescimento Brasileiro". Os dois acreditam que a explicação está na falta de reformas, mas eles também jogam luz sobre as outras duas possibilidades.

Para crescer de forma mais rápida, Brasil precisa de reformas

De 1947 a 1980, o Brasil cresceu a uma média de 7,5% ao ano. Entre 1981 e 2003, período que marcou a crise da dívida, a taxa de crescimento anual caiu para 2%. A estabilização da economia desde 1994 e um ambiente externo favorável aceleraram a expansão média anual para 5% entre 2004 e 2008.

Apesar de ter resistido bem à crise mundial de 2008, inclusive ao registrar crescimento de 7,5% em 2010, o Brasil tem avançado desde 2011 a taxas que lembram o período 1981-2003. Na verdade, a confirmar-se a projeção mediana do mercado para o PIB de 2014 - alta de apenas 1% -, a média dos anos Dilma será de míseros 1,8%.

Canuto e Schellekens argumentam que o crescimento acelerado de 2004 a 2010 foi resultado dos efeitos retardados das reformas realizadas nos anos 90 e na primeira metade dos anos 2000. O Brasil colocou a "casa macroeconômica em ordem" e implementou reformas nos setores financeiro, comercial e social. Os prêmios de risco de ativos brasileiros caíram de forma sistemática depois que ficou claro o compromisso com a disciplina fiscal, o regime de metas para inflação e o câmbio flutuante, independentemente do partido político no comando do governo. Adicionalmente, condições externas favoráveis ajudaram a diminuir as restrições financeiras.

Para muitos, o Brasil parou de crescer porque, nos últimos três anos, o governo pôs em risco a credibilidade duramente conquistada. Com o objetivo de acelerar o crescimento, Brasília relaxou a política fiscal, tolerou inflação mais alta e fez intervenções no câmbio para amortecer a volatilidade. Além disso, usou os preços administrados para controlar a inflação e abusou de operações parafiscais pouco transparentes para estimular o crédito.

 

 

Na opinião desses críticos, tudo isso resultou na redução da nota de crédito do país, que, no caso da Standard & Poor's, está a apenas um patamar da perda do grau de investimento. Canuto e Schellekens disputam esse diagnóstico. Eles concordam que a política econômica sofreu perda de credibilidade, mas não atribuem a esse fator toda a moderação do crescimento. Segundo eles, os pilares macroeconômicos permanecem, num conceito mais amplo, "intactos". Além disso, o Brasil continua a dispor de "grandes amortecedores externos".

Canuto e Schellekens consideram também exagerada a tese de que a piora das condições externas nos anos recentes, com o baixo crescimento das economias avançadas, a moderação da expansão chinesa, o aumento da aversão dos investidores a risco e a elevação do custo do crédito externo, tem sido a grande responsável pelo baixo crescimento do Brasil. Eles lembram que a maior parte do PIB brasileiro é dado pelo mercado interno e que, aqui, a atividade tem uma "orientação externa limitada".

Das dez maiores economias, a brasileira é a que possui a menor participação das exportações no PIB (ver gráfico). Canuto e Schellekens consideram exagerado atribuir a fatores externos o crescimento acelerado da economia entre 2004 e 2008.

A opção dos dois economistas é pela ausência de reformas microeconômicas. Para eles, o ambiente microeconômico é crítico para o crescimento, "ainda mais hoje do que no passado". A razão está na dinâmica demográfica, que tem reduzido o crescimento da força de trabalho no Brasil. "Crescimento maior requer, portanto, primeiro e principalmente o aumento da produtividade do trabalho, mas isso permanece limitado por um ambiente de negócios pesado e um ritmo lento de acumulação de capital humano e físico", dizem Canuto e Schellekens.

Canuto participou da equipe que, no início do governo Lula, sob a liderança do então ministro Antonio Palocci, promoveu avanços importantes na agenda de reformas microeconômicas. No período seguinte à saída de Palocci, essa agenda foi abandonada em prol de medidas de estímulo ao consumo. Mais recentemente, alguns esforços, especialmente os coordenados pelo secretário de Política Econômica, Márcio Holland, foram retomados, mas a agenda, como assinalam Canuto e Schellekens, é "longa e inacabada".