'Perda de fôlego da economia vai levar a corte da Selic em 2015'

Veículo: Valor Econômico

Seção: Economia

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Para Gustav Gorski, da Quantitas, maior parte do aperto monetário ainda vai se refletir nos dados de atividade

 

A alta da taxa Selic em 3,75 pontos percentuais, de 7,25% para 11% ao ano, entre abril de 2013 e maio deste ano vai derrubar a atividade econômica nos próximos meses e levar a um afrouxamento monetário em 2015. Essa é a aposta de Gustav Gorski, sócio e economista-chefe da gestora de recursos Quantitas, que tem US$ 15,1 bilhões sob gestão. "A maior parte do aperto realizado ainda vai chegar à atividade. Claramente, isso vai ter um impacto sobre a inflação em 2015 que o mercado ainda não vê", afirma Gorski.

Antes mesmo que parte dos investidores começasse a especular em torno da possibilidade de corte da Selic em 2015 - movimento que se acentuou na sexta-feira com um mergulho das taxas dos contratos futuros de Depósitos Interfinanceiros (DI) -, Gorski já destoava do consenso. Ele integrava o grupo de apenas quatro economistas, entre os 42 ouvidos pelo Valor antes do encontro do Comitê de Política Monetária (Copom) no mês passado, que previa corte de juros em 2015.

Valor: Por que o senhor espera corte da taxa Selic para 9,75% ao ano em 2015?

Gustav Gorski: Em primeiro lugar, no início do aperto, em abril do ano passado, achávamos que o BC não subiria tanto os juros. Entre outubro e novembro, quando vimos que o BC continuaria a elevar a taxa, mudamos nosso 'call' para Selic, projetando queda em 2015. Apanhamos bastante do mercado, mas agora já se começa a falar nisso. A nossa aposta é que a alta dos juros vai fazer com que a atividade caia bem mais do que o esperado, principalmente no fim deste ano e no início de 2015. Também temos um BC e um governo que não estão dispostos a colocar os juros no patamar necessário para trazer a inflação para o centro da meta (4,5%). Para o BC, já parece suficiente trabalhar com a inflação abaixo do teto da meta (6,5%), embora longe do centro. Com esse BC, caso a presidente Dilma [Rousseff] seja reeleita, e a atividade fraca, esse cenário de corte da Selic pode ganhar força, principalmente com indicadores da economia em maio e junho, que serão divulgados em julho e agosto.

Valor: Qual vai ser o crescimento da economia este ano?

Gorski: Projetamos um crescimento neste ano de 0,9% e de 1,7% no ano que vem. A chance de, no fim de 2014 ou no início de 2015, revisarmos essa projeção para baixo é muito maior que a chance de aumentá-la. Por mais que a projeção seja de crescimento lento, o viés, principalmente para 2015, é para baixo. Nesse contexto, existe a possibilidade de haver uma recessão no meio deste ano. Está quase dado que haverá retração no segundo trimestre. As incertezas em relação ao terceiro trimestre, com as eleições, fazem com que haja chance de uma recessão neste ano. Não é nosso cenário principal, mas eu não descarto isso. Há outra questão importante a considerar e que o Banco Central já deixou claro, que é a maturação da política monetária.

Valor: Quanto do aperto monetário já está refletido na economia?

Gorski: Não tenho dúvida que a maior parte do aperto ainda vai chegar à atividade. Estamos entrando agora no período que as altas da Selic vão ter seus efeitos potencializados. Claramente, isso vai ter um impacto sobre a inflação em 2015 que o mercado ainda não vê. O mercado está apostando que em 2015 a inflação vai ser muito alta por causa dos preços administrados. Esses preços vão subir bastante, mais que a média histórica, mas o preços livres vão dar uma ajuda boa, embora não suficiente para trazer a inflação para o centro da meta. Projetamos o IPCA de 6,2% neste ano e de 5,4% no ano que vem. Outro ponto interessante: a história mostra que, após um ciclo de elevação da Selic, o próximo passo da taxa é para baixo. Não é de uma pausa para depois subir de novo. E esse intervalo é bem curto. Em média, o Copom deixa a Selic parada por três reuniões e, em seguida, começa a cortar os juros. A única vez em que isso não aconteceu foi na parada técnica de 2010, quando o BC subiu a taxa até julho e, depois de um intervalo para as eleições, voltou a subir em 2011. Isso foi há quatro anos, mas a memória do mercado talvez esteja mais ligada a esse episódio que ao histórico do BC.

Valor: Quando a fraqueza da atividade vai provocar um recuo das expectativas de inflação?

Gorski: Rodamos alguns modelos econométricos e descobrimos que, quando a inflação vem acima do esperado, as pessoas jogam a expectativa para cima. Quando a inflação vem abaixo do esperado, não acontece quase nada com as expectativas. Elas continuam no mesmo patamar. Ou seja, há uma assimetria nessa história. Outra coisa interessante que descobrimos foi que nos últimos cinco anos o mercado só erra a Selic para cima. Sempre superestima a taxa de juros. Eu acho que vamos precisar de vários dados de atividade ruins e de perda de força da inflação para que haja mudanças nas expectativas.

Valor: O BC vai tentar segurar o dólar para controlar a inflação?

Gorski: Em momentos em que a atividade econômica está muito combalida, como o que estamos vivendo, seria o momento de desvalorizar mais o real, porque os impactos inflacionários seriam menores. As empresas, com a demanda fraca e com medo de perder clientes, iriam pensar duas vezes, antes de repassar o aumento dos custos para os preços. No entanto, o BC tem receio de que haja repasse e acredita que esse patamar do dólar, entre R$ 2,20 e R$ 2,30, seja algo mais tranquilo do que R$ 2,50 no fim do ano. Os indicadores macroeconômicos, como o déficit em transações correntes, apontam para uma desvalorização, mas o BC, que é uma ponta importante do mercado de câmbio, está travando isso.