FMI: Brasil é um dos países que devem cortar consumo e elevar poupança

Veículo: Valor Econômico

Seção: Economia

WASHINGTON  -  Como o cenário externo não será mais tão favorável quanto o da última década, alguns países emergentes como o Brasil devem reduzir o consumo e aumentar a poupança para que uma fatia maior do investimento seja financiada domesticamente, dizem os economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Em relatório divulgado nesta quinta-feira, a equipe do FMI diz que economias como Brasil, Turquia e África do Sul, cujos modelos de crescimento se baseiam em alto consumo privado ou público financiado por empréstimos externos, precisam mudar essa estratégia para conseguir um avanço mais sustentado da atividade. “Isso também ajudaria a reduzir déficits externos estruturais e o risco de ciclos de expansão e contração”, escrevem eles, no estudo “Mercados emergentes em transição: perspectivas e desafios do crescimento”.

No caso da China, o esforço deve ser o oposto. Naquele país, é necessário reduzir o investimento e também a expansão do crédito para níveis mais sustentáveis, aumentando o consumo doméstico e levando em conta uma demanda externa permanentemente mais baixa, segundo a equipe do Fundo. 

O relatório também destaca a importância de políticas macroeconômicas sólidas, como ficou claro nos episódios recentes de turbulência nos mercados. Depois que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) indicou em maio de 2013 que poderia começar a retirar os estímulos monetários ainda naquele ano, houve uma mudança na preficicação de ativos de emergentes. Primeiro, o processo foi disseminado. Em seguida, porém, os mercados passaram rapidamente a diferenciar os países de acordo com os fundamentos e a credibilidade das políticas, aponta a equipe do FMI. 

“O desafio imediato para as autoridades dos países emergentes é fortalecer os arranjos macroeconômicos. Em alguns casos, uma política monetária mais apertada será necessária para conter a inflação e fortalecer a confiança”, diz o estudo, observando que também pode ser necessário ter uma política fiscal mais rigorosa, nos casos em que a condução das contas públicas é pró-cíclica ou em que os déficits em conta corrente são muito altos. “Uma taxa de câmbio flexível deve servir para amortecer choques, embora intervenção no mercado possa ser usada para reduzir volatilidade excessiva quando as reservas são adequadas”, afirmam os economistas do FMI. 

Segundo o estudo, estimativas sugerem que a sensibilidade do crescimento dos exportadores de commodities a uma queda dos termos de troca (a relação entre preços de exportação e importação) pode ser reduzida em 30% se os países forem capazes de adotar políticas contracíclicas. “Isso implica que países que pouparam uma fatia maior do boom de commodities da década anterior estarão numa posição melhor para enfrentar os efeitos do declínio dos termos de troca. Com isso, a confiança em políticas de estímulo à demanda devem ser limitadas, dada a natureza persistente dos preços mais baixos de commodities.”

O relatório diz que, no médio prazo, as condições externas devem se tornar menos favoráveis para a maioria dos mercados emergentes. Há uma recuperação das economias avançadas que vai ajudar os países em desenvolvimento a sair da desaceleração cíclica da atividade, devido ao aumento da demanda externa. A questão, porém, é que não se espera que os países ricos voltem a registrar as taxas de crescimento que vigoravam no período pré-crise, notam os economistas do FMI. “O crescimento potencial das economias avançadas, especialmente nos principais países europeus, também pode ser mais baixo, devido ao impacto estrutural da crise.”

Além disso, a retomada gradual dos países desenvolvidos ocorrerá num cenário marcado por condições financeiras globais mais apertadas, uma vez que essas economias vão normalizar a política monetária. Para o staff do FMI, esse processo deverá ser acompanhado de episódios de volatilidade parecidos com os que foram experimentados desde maio do ano passado.

Para completar, os preços de commodities tendem a se enfraquecer um pouco nos próximos anos, refletindo em parte a desaceleração gradual que se projeta para a China e o processo de reequilíbrio do país asiático em direção a uma economia puxada mais pelo consumo do que pelo investimento. “Embora sejam boas notícias para importadores de commodities, isso vai tirar um pouco do fôlego do crescimento de quem exporta esses produtos”, afirma o relatório. 

O estudo também examina os motivos pelos quais os mercados emergentes estão em desaceleração. A análise com 24 países em desenvolvimento sugere que a maior parte da perda de força ocorreu por causa de uma demanda externa mais fraca. “A desaceleração do crescimento desde 2010-2011 é explicada em grande parte pela demanda menor dos parceiros comerciais até 2013 e com um papel menor (embora ainda estatisticamente significativo) em 2013”, dizem os economistas do FMI. “Fatores domésticos também tiveram um peso para explicar a recente perda de ritmo, embora a intensidade varie ao longo do tempo e de acordo com os países.” Não há uma abertura desses números por país. 

O relatório discute ainda se a desaceleração se deve mais a fatores cíclicos – relacionados à conjuntura – ou estruturais, como um declínio da taxa de crescimento potencial (aquele que não acelera a inflação). “Nós concluímos qu e, na média, fatores cíclicos e estruturais são igualmente importantes para explicar a recente perda de força nos países emergentes”, afirma o estudo. Isso implica que parte da desaceleração é transitória – a cíclica -, o que significa que a atividade deverá ganhar algum fôlego quando os parceiros comerciais engatarem um ritmo de expansão mais forte, especialmente as economias avançadas.  

Já o impacto estrutural causado por taxas de crescimento potencial menores é mais persistente, exigindo esforços maiores para ser revertido. Nesse cenário, os países terão de buscar políticas macroeconômicas mais sólidas e caminhar para modelos de crescimento mais sustentáveis – no caso do Brasil, que dê mais prioridade ao investimento do que ao consumo. 

Na abertura do estudo, há o esclarecimento de que o relatório representa a visão dos autores, e não necessariamente a avaliação do FMI ou as políticas da instituição.