Baixa inflação deve disparar alarme do BCE

Veículo: Valor Econômico

Seção: Economia

Mario Draghi enfrentará a ameaça de deflação nesta semana ao lançar uma série de medidas para incentivar a economia e estimular o aumento de preços.

De taxas de juros negativas a liquidez condicional para os bancos, o presidente do Banco Central Europeu (BCE) e seus colegas sinalizaram que todas as opções serão passíveis de discussão quando se reunirem, em 5 de junho. Os dados que serão divulgados hoje, antes do encontro, podem reforçar a visão de que é necessário agir, pois os economistas preveem a combinação preocupante de inflação muito baixa e desemprego próximo a um recorde.

Draghi tem preparado os investidores com alertas sobre uma potencial "espiral negativa" de preços e provavelmente verá uma perspectiva mais baixa para a inflação e para o crescimento nas novas previsões do BCE.

Essas projeções servirão de informação para as conversas dos próximos dias com sua equipe de gestão e depois para as reuniões mais amplas com o conselho de administração nas quais as autoridades determinam quão radical deve ser a resposta.

"Se você observar o conjunto maior de dados econômicos atualmente à disposição, verá que ele realmente aponta a necessidade de mais estímulos", disse James Ashley, economista-chefe europeu do RBC Capital Markets em Londres. "Estamos considerando medidas convencionais e não convencionais."

Entre 50 economistas consultados pela "Bloomberg News", 44 esperam que o BCE se torne o maior banco central a colocar as taxas de juros em território negativo cortando sua taxa de depósito. Exceto dois de 58 consultados disseram que a taxa de referência também seria reduzida.

"Estamos prontos para agir", disse o vice-presidente do BCE, Vitor Constancio, na semana passada. "Não somos complacentes com os riscos de um período prolongado de inflação baixa."

A inflação provavelmente desacelerou de 0,7% em abril para 0,6% em maio, segundo economistas em uma consulta da "Bloomberg" antes do relatório de preços ao consumidor, que deve sair amanhã. Isso deixaria o índice a menos de 1% pelo oitavo mês seguido, nível bem menor que o da meta do BCE de mantê-lo perto de 2%

O desemprego na zona do euro provavelmente permaneceu em 11,8% em abril, próximo ao recorde de 12% alcançado no ano passado, segundo outra enquete. Em março, as taxas de desempregados na região formada por 18 países variaram de 4,9% na Áustria para mais de 25% na Espanha. O escritório de estatísticas da União Europeia, em Luxemburgo, publicará os dois relatórios hoje.

O BCE anunciará sua decisão de política monetária dois dias depois e Draghi permitiu que as expectativas aumentassem após dizer, em maio, que o conselho de administração se sentia "cômodo" para agir na próxima vez.

Além de fornecer detalhes para qualquer novo estímulo do BCE, Draghi revelará as novas projeções macroeconômicas. O BCE previu em março que a inflação seria de 1% em média neste ano e de 1,3% em 2015. O Goldman Sachs Group diz que provavelmente reduzirá sua projeção de 2014 para 0,8%. A previsão de crescimento para este ano também pode ser rebaixada após o desempenho lento da economia no primeiro trimestre. Na semana passada, o presidente do Banco da Itália, Ignazio Visco, ressaltou a importância das novas projeções.

"A inflação deverá seguir abaixo de 2% nos próximos dois anos", disse ele, em 30 de maio. "Isso não é consistente com a nossa definição de estabilidade de preço. Se esse padrão se confirmar, o conselho de administração está determinado a agir, mesmo com políticas não convencionais."

"Nenhuma das medidas que esperamos que o BCE adote será decisiva", disse Marco Valli, economista do UniCredit em Milão. "Mas elas ajudariam na margem, especialmente em qualquer movimento do tipo financiamento para empréstimo, uma vez que a transmissão da política monetária é o maior desafio do BCE no momento."