Balança comercial é ponto frágil das contas externas

Veículo: Valor Econômico

Seção: Economia

O desempenho do comércio exterior no primeiro trimestre acendeu o sinal amarelo nas contas externas. A balança comercial teve, em março, o primeiro saldo positivo do ano, de apenas US$ 112 milhões. O pequeno superávit, o pior desempenho para o mês desde 2001, foi insuficiente para compensar os resultados negativos dos meses anteriores e o primeiro trimestre acumula o maior déficit em 20 anos, de US$ 6,1 bilhões.

Há expectativa que os números melhorem nos próximos meses, mas há problemas pela frente. Um importante parceiro comercial, a Argentina, está com a capacidade de comprar bastante limitada. As exportações de petróleo estão baixas. O câmbio, que ficou favorável às exportações no início do ano, voltou a se apreciar, uma situação que não parece desagradar ao governo devido ao reflexo positivo na inflação.

Desde o início do ano, o Brasil saiu do Sistema Geral de Preferências Tarifárias (SGP) da União Europeia, o que aumenta a alíquota de importação de cerca de US$ 5 bilhões de exportações brasileiras, de acordo com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) publicadas pelo Valor (8/4).

Mas um dos principais problemas é a queda dos preços das commodities. As oito básicas mais exportadas pelo país tiveram preços médios menores em março em comparação com igual mês de 2013 (Valor, 2/4). As exportações de soja foram 85,4% maiores em volume do que em março do ano passado, mas o preço médio estava 6,5% inferior. Ainda assim somou US$ 3,1 bilhões, o equivalente a 17% da pauta de exportação do mês. O minério de ferro foi vendido a um preço por tonelada 11,7% menor; a carne de frango, 17,4%; e o milho, 28%. Semimanufaturados enfrentam o mesmo problema. É o caso do açúcar em bruto, que teve queda de 18,8% de preço e de 20,6% na quantidade embarcada.

Os preços das commodities recuaram basicamente por mudanças no cenário internacional, que vieram para ficar. Uma delas é a reversão da política de estímulos monetários dos EUA, que pode ter a velocidade mais ou menos acelerada, mas dificilmente será revista. A outra é a desaceleração da China.

A piora nos termos de troca do país tem grande impacto nos resultados das contas externas. Já no ano passado a balança comercial com seu anêmico superávit de US$ 2,6 bilhões teve impacto importante no déficit em conta corrente de US$ 81,4 bilhões, beirando a preocupante barreira de 4% do Produto Interno Bruto (PIB). A conta de capital e financeira, mesmo juntando o investimento estrangeiro de US$ 67,5 bilhões, foi superavitária em US$ 75,4 bilhões, resultando em déficit de US$ 5,9 bilhões no balanço de pagamentos.

Esperava-se que a situação melhorasse neste ano, com a recuperação das exportações de petróleo, que ainda não se confirmou. As indicações até agora não são animadoras. Os últimos dados disponíveis do Banco Central mostram que o déficit em conta corrente acumulado em 12 meses em fevereiro está em US$ 82,5 bilhões, com US$ 65,8 bilhões em investimento estrangeiro direto.

O déficit bateu em 3,7% do PIB, o maior percentual em 14 anos. Apesar de a qualidade do financiamento ter melhorado, com a expansão do investimento estrangeiro, o próprio BC resolveu rever as projeções para o balanço de pagamentos neste ano.

A principal revisão foi exatamente da balança comercial, cujo saldo foi reduzido dos US$ 10 bilhões esperados para US$ 8 bilhões. Ainda assim, o BC está mais otimista do que os empresários do setor que estimam saldo de US$ 7,2 bilhões, de acordo com a Associação Brasileira de Exportadores (AEB). O mercado está mais pessimista e projeta saldo de apenas US$ 4 bilhões, de acordo com a pesquisa Focus feita junto a cerca de 100 instituições financeiras e consultorias.

A expectativa de entrada de investimento estrangeiro direto foi mantida em US$ 63 bilhões, acima dos US$ 60 bilhões projetados pela pesquisa Focus; e os gastos com viagens ao exterior reduzidos de US$ 19 bilhões para US$ 18,5 bilhões, com as remessas de lucros e dividendos ao redor de US$ 27 bilhões.

Desse modo, o déficit em conta corrente esperado pelo BC aumentou agora para US$ 80 bilhões, equivalente a 3,6% do PIB, em comparação com os US$ 78 bilhões anteriores. Já o mercado estima um déficit menor, de US$ 76 bilhões. Uma maior redução do déficit depende, porém, de resultados melhores da balança comercial, cada vez mais incertos.