Juro alto afeta o negócio, mas inflação é pior

Veículo: Valor Econômico

 

Seção: Economia

 

 
Ana Paula Paiva/Valor / Ana Paula Paiva/ValorFabio Hering, da Hering: "Sou afetado negativamente pelo aumento da Selic, mas não controlar a inflação é muito pior"

Juro alto e um crescimento, ainda que modesto para alguns, dos negócios. Este é o cenário esperado por empresários ouvidos pelo Valor. Uma piora é considerada improvável e o clima de pessimismo é atribuído a "ruídos" do mercado financeiro.

Fabio Hering, presidente da fabricante e varejista de vestuário Hering, afirma disse que o primeiro trimestre foi "difícil para crescer, mas nada fora das perspectivas". Segundo ele, o ano de 2014 será "morno", com "crescimento médio". "O Brasil atravessa um período de volatilidade no comércio, no consumo", disse.

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Mesmo a alta dos juros, considerada inibidora do consumo e do crescimento das empresas, é necessária, na visão de Fabio Hering. "A taxa de juros é instrumento de política macroeconômica da qual não se pode abrir mão. Sou afetado negativamente pelo aumento da Selic, mas não controlar a inflação é muito pior do que uma taxa elevada", afirmou. A taxa básica de juros (Selic), elevada de 10,75% para 11% na quarta-feira, "por enquanto é suportável", disse o fundador e presidente do conselho da CVC, Guilherme Paulus. ""A gente já conviveu com essa taxa de juros anos atrás", disse o empresário. "Claro, é um freio para o crédito e o consumo, mas é difícil, para a pessoa que está planejando, deixar de viajar por causa de um aumento de 1% em 12 meses", afirmou.

O número de passageiros que viajam com a CVC cresce de 18% a 20% ao ano, segundo Paulus, e esse patamar de expansão deve ser mantido este ano. A CVC tem 815 lojas e pretende ter perto de 900 até o fim de 2014. Paulus é controlador da GJP Hotels & Resorts, e disse que até 2015 o número de hotéis da empresa passará de 13 para 19.

Apesar de vários setores estarem crescendo, Paulus diz que há, sim, pessimismo entre os empresários. Ele criticou a lentidão no andamento do programa de concessões na área de infraestrutura e o baixo retorno dos serviços públicos, comparado ao nível dos tributos no país. Estas duas críticas, também feitas por outros empresários, são fontes de uma visão mais negativa sobre o futuro do país.

"Precisamos melhorar em muitos sentidos, principalmente em relação à nossa carga tributária, que precisa ser reformada. A arrecadação do governo é forte, mas não vemos os investimentos necessários sendo executados. Isso desaponta um pouco o empresário, que sempre quer mais", diz Paulus.

Para o presidente do conselho de administração da BRF, Abilio Diniz, os fundamentos da economia são "sólidos" e não há motivos para temores com o país. Para ele, é preciso estudar como aumentar a produtividade.

Marcelo Odebrecht, diretor-presidente da Odebrecht, avaliou como exagerados os prognósticos de instabilidade da economia e descontrole sobre as contas públicas. "Da mesma maneira que há dez anos havia a percepção de que o Brasil era o melhor país do mundo e nada de errado iria acontecer, hoje estamos vendo o contrário. O Brasil continua com os mesmos desafios e oportunidades de dez anos atrás. Do mesmo jeito que se exagerou para um lado agora está se exagerando para o outro", disse Marcelo Odebrecht, que planeja investimentos de até R$ 40 bilhões nos próximos três anos.

Anderson Birman, presidente do conselho de administração da companhia de calçados Arezzo, considera necessário por parte do governo ouvir os diferentes grupos da população e investir mais em políticas de desenvolvimento, incluindo mais incentivos à educação e melhoria da segurança pública. "Só uma mudança estrutural levará o país a um novo patamar de crescimento", disse.

Os empresários participaram da Maratona PME 2014, evento voltado a pequenas e médias empresas realizado pelo Valor na sexta-feira, em São Paulo. (Colaboraram RP e CB)