Janeiro mostra bom ritmo no varejo e na indústria

Veículo: valor Econômico

Seção: Economia

O vigor do mercado de trabalho e o avanço da massa salarial real estão sustentando o nível de atividades no início do ano. Depois de o PIB do último trimestre do ano ter superado as previsões, a indústria fez o mesmo em janeiro (crescimento de 2,9% sobre dezembro) e agora também o comércio (0,4% em janeiro na mesma comparação). Após longo período de aumento dos juros, iniciado em abril, e uma inflação renitente, as atividades econômicas buscam se acomodar em novo nível. Enquanto a indústria tende a se recuperar diante de dois anos muito ruins, a direção do comércio é oposta, de desaceleração, encerrando um período de taxas de expansão perto dos dois dígitos.

A maior parte dos analistas aposta em um ano de crescimento menor do que os 2,3% de 2013. Os indicadores positivos de janeiro dão algum alento, embora possam não persistir nos próximos meses. Mas, por outro lado, não se preveem grandes alterações nos índices de desemprego, nem uma disparada da inflação que joguem o consumo ainda mais para baixo. Ele compõe dois terços do PIB, sua expansão em 2013 foi a menor em uma década e é possível que tenha encontrado um piso.

Os números do varejo de janeiro foram em grande parte obra do reajuste do salário mínimo de 6,8%, acima da inflação de 5,9% de 2013. A massa salarial real média, segundo o IBGE, avançou 3,3% nos últimos doze meses, menos vigorosa que em anos anteriores, mas ainda assim boa para uma inflação que não sai de perto dos 6% e um PIB "morno". Na comparação com janeiro de 2013, o volume de vendas do comércio varejista cresceu 6,2% e nos últimos 12 meses, 4,3%, o mesmo ritmo observado em dezembro. Já a receita nominal ultrapassou os dois dígitos em ambos os casos: 12,5% e 11,9%, respectivamente. Houve, assim, reajustes de preços alinhados com a inflação em vários setores, ou abaixo dela, como nos segmentos de móveis, papelaria e veículos.

Na maioria dos setores, houve crescimento ante dezembro, que foi de recuo generalizado, e também em relação a novembro. As exceções ficam por conta dos supermercados e hipermercados, tecidos, vestuário, calçados e outros artigos de uso pessoal.

Os índices, porém, arrefeceram, e podem arrefecer mais no comércio varejista ampliado, que inclui as vendas de veículos, motos e suas partes e peças, além de material de construção. Após bater recordes, as vendas de carros tendem a recuar, pois dependem muito do crédito e se confrontam com um aumento dos juros, maior rigor dos bancos na concessão de empréstimos e aumento do comprometimento da renda familiar com dívidas.

A série que aponta a evolução mensal em relação aos doze meses anteriores mostra que o volume de vendas está estacionando na faixa entre 4% e 5% e pode ficar aí, se a derrapagem na comercialização de automóveis não for severa. As chances disso ocorrer aumentam quando se prevê que o Banco Central deverá encerrar as altas de juros em breve e a projeção de aumento de crédito dos grandes bancos de varejo não traz reduções drásticas e se situa na casa dos 10% - a do Banco Central é de 13%.

A indústria também deu sinal de vida em janeiro. A desvalorização cambial, ainda que vá se refletir plenamente em maiores exportações após um par de anos, encarece bem mais rapidamente os importados no mercado doméstico. Os resultados do mês, contudo, indicam que o dinamismo veio do setor de bens de capital, que cresceu 10% em relação a dezembro, 12,1% em doze meses e 2,5% sobre janeiro do ano passado.

Há sinais encorajadores de bom ritmo de investimentos. Embora o subsetor de transportes tenha apresentado esperado recuo, os bens destinados a fins industriais avançaram 11,9% e para fins agrícolas, 9,6%. Em doze meses, a industria saiu do negativo e mostrou crescimento de 0,5%, ainda pífio. Segundo o IBGE, as taxas positivas de janeiro em relação a dezembro foram disseminadas por todas as categorias de uso e pela maior parte dos setores. Um pouco mais animador é o fato de que no índice de média móvel trimestral "a produção industrial, mesmo mantendo o comportamento negativo, assinalou clara redução na intensidade de queda na passagem de dezembro para janeiro", aponta o IBGE.

Estatísticas de um ou dois meses não configuram tendências. É certo que o Brasil crescerá de novo abaixo de seu potencial em 2014. É ruim, mas um pouco menos ruim se o país estiver se aproximando, e não se afastando, dele. Pode ser o caso.