Com inflação resistente, ata do Copom aponta continuidade do ajuste do juro

Veículo: O Estado de São Paulo

Seção: Economia

Banco Central aumentou a projeção para o IPCA de 2014 no cenário de mercado e manteve a avaliação de que a inflação ainda mostra resistência

BRASÍLIA - O Banco Central manteve na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) a avaliação de que é apropriada a continuidade do ciclo de ajuste das condições monetárias ora em curso, mas retirou o termo "ritmo" que constava na ata da reunião anterior o comitê. Na semana passada, o Copom elevou o juro de 10,50% para 10,75% ao ano, a oitava alta seguida desde abril de 2013, quando foi iniciado o ciclo de aperto monetária.

Na ata da reunião do Copom de janeiro, a diretoria do BC já tinha destacado que era "apropriada" a continuidade do ritmo de ajuste das condições monetárias ora em curso". A ata também trouxe outra mudança ao incluir ao acrescentar que os efeitos das ações de política monetária sobre a inflação são "cumulativos". O documento manteve a ponderação de que esses efeitos se manifestam com defasagens.

O Banco Central manteve a avaliação de que a inflação ainda mostra resistência, mas incluiu que isso acontece "não obstante moderação observada na margem". O documento aumentou a projeção para o IPCA de 2014 no cenário de mercado em relação ao valor considerado na reunião de janeiro. Essa projeção continua acima da meta para inflação, mas o número exato da estimativa não foi informado.

No cenário de referência, a estimativa para a inflação de 2014 "se manteve relativamente estável" em relação ao valor considerado na última reunião, e também permanece acima da meta de 4,5% fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Para a inflação em 2015, a projeção no cenário de referência teve redução ante o valor considerado na reunião de janeiro, mas ainda se encontra acima da meta. No cenário de mercado, a projeção do IPCA para o ano que vem manteve-se estável.

Na ata anterior, relativa à reunião de janeiro, o documento trazia apenas que, para 2015, "em ambos os cenários, a projeção de inflação se posiciona acima da meta" e não detalhava se havia ocorrido um movimento de alta ou de baixa em relação à perspectiva anterior. Vale lembrar que, no Relatório Trimestral de Inflação (RTI), divulgado ao final de dezembro do ano passado, o BC havia informado que, no cenário de referência, sua expectativa era de uma inflação em 5,6% ao final de 2014 e de 5,4% no encerramento do ano que vem. Já no cenário de mercado, a projeção do Copom é de IPCA encerrando 2015 em 5,3% - a mesma taxa de 5,6% é aguardada para o acumulado deste ano.

Diante destes cenários, o Banco Central manteve na ata a avaliação de que a política monetária deve se manter "especialmente vigilante". De acordo com o documento, isso deve ocorrer de modo a minimizar riscos de que níveis elevados de inflação persistam no horizonte relevante.

O BC também registrou novamente que a inflação tem se mostrado ligeiramente acima daquela que se antecipava. O documento manteve ainda o termo "tempestividade" ao reafirmar a necessidade de se reverter a persistência da inflação.

A ata deixa espaço para mais uma elevação de 0,25 ponto porcentual na taxa básica de juros na reunião de abril, mas o aumento vai depender dos dados de inflação e câmbio divulgados até lá, avalia a economista e sócia da Tendências Consultoria Integrada, Alessandra Ribeiro. "Se tivermos cenário favorável de câmbio e inflação, avalio que o BC já encerrou o ciclo", destaca a economista.

"O fato de não ter grandes mudanças na parte sobre implementação da política monetária, sugere que o Banco Central quer deixar o espaço aberto para mais um ajuste, se necessário, dependendo dos dados", reforçou a economista. "Os sinais, embora sutis, mostram que o ajuste está próximo do fim, só com uma eventual alta derradeira em abril, se algo de câmbio ou inflação sair um pouco do controle", destaca a economista.

Alessandra destaca, entre as mudanças da ata, dois pontos principais: a avaliação "ligeiramente melhor com relação à inflação ao destacar alguma moderação" e a adição da palavra "cumulativos" para se referir aos efeitos da política monetária. "Ao colocar o termo 'cumulativos', querem mostrar que já foi feito um grande esforço e que isso terá efeito ao longo do tempo", avaliou a economista.

Pressão dos salários. A ata manteve a avaliação de que a dinâmica salarial brasileira continua gerando pressões inflacionárias de custos. Para o BC, esse cenário persiste não obstante o reajuste do mínimo não tão expressivo como em anos anteriores e as variações reais de salários nos últimos trimestres mais condizentes com as estimativas de ganhos de produtividade.

O Copom repetiu que a estreita margem de ociosidade no mercado de trabalho continua trazendo um risco "significativo" de possibilidade de concessão de reajustes salariais incompatíveis com o crescimento da produtividade.

O documento destacou mais uma vez que o cenário central contempla uma expansão moderada do crédito. Para o BC, são oportunas iniciativas para se moderar as concessões de subsídios por meio de financiamentos. O Copom manteve a avaliação de que a demanda agregada tende a se apresentar relativamente robusta. O comitê destacou que o consumo das famílias tende a continuar em expansão, por um lado, enquanto existem boas perspectivas para investimentos, por outro.

Preços administrados. A ata manteve a estimativa de alta de 4,5% para os preços administrados ou monitorados pelo governo tanto em 2014 quanto em 2015. Para gasolina, gás de bujão e telefonia fixa, o Copom informou que as projeções foram mantidas em relação ao valor previsto na ata anterior. A diferença, desta vez, é que a ata informa que, para os três itens, as projeções foram mantidas em 0%. Na ata anterior, dizia apenas que projetava-se estabilidade.

Para o reajuste da tarifa residencial de eletricidade, a ata divulgada hoje também mantém a previsão de alta de 7,5%, mesmo valor considerado na reunião do Copom de janeiro. No Relatório Trimestral de Inflação (RTI), que foi publicado ao final de dezembro do ano passado, o BC já havia apresentado sua expectativa de alta de 4,5% para esse conjunto de preços este ano.

No RTI, a autoridade monetária também já considerava hipóteses de estabilidade dos preços da gasolina, do gás de botijão e das tarifas de telefonia fixa ao longo de 2014. Para o setor de eletricidade, o BC contava, no RTI, com um aumento de 7,5% das tarifas, previsão que também ficou inalterada no documento conhecido hoje.

Dólar. O Copom manteve sua premissa para o câmbio em relação ao documento anterior, com cotação de R$ 2,40. O valor considerado para o dólar está acima do valor negociado no dia da decisão de elevar a Selic para 10,75% ao ano, na semana passada, quando o dólar à vista fechou cotado a R$ 2,3540, com alta de 0,64%.

No mercado futuro, o dólar para março fechou naquele dia cotado a R$ 2,3510, com alta de 0,26%. Para a taxa básica de juros (Selic), o colegiado ampliou o patamar considerado de 10,00% para 10,50% ao ano.

A ata reafirmou que a depreciação e a volatilidade do câmbio nos últimos semestres ensejam uma "natural e esperada" correção de preços relativos. Por outro lado, mais uma vez, o comitê destacou que essa depreciação cambial é uma fonte de pressão inflacionária em prazos mais curtos.