Divórcios na indústria

Veículo: Folha de S.Paulo

Seção: Colunistas

Fonte: Vinicius Torres Freire

 

UMA PARTE da indústria começou nos últimos meses a dizer com insistência que o Brasil deve abrir mais sua economia para o comércio mundial. Deveríamos retomar negociações com os EUA, acelerar a negociação com a União Europeia etc.

 
Faz dez dias, porém, umas duas dúzias de associações industriais foram ao Ministério da Fazenda pedir o seguinte:
 
1) Mais imposto de importação sobre produtos industriais;
 
2) Um programa que obrigue empresas das grandes obras de infraestrutura a reservar parte de suas compras de matérias-primas e máquinas para produtos nacionais (tal como a Petrobras já é obrigada a fazer);
 
3) Um aperto na fiscalização de importações subfaturadas, trazidas em geral de China e vizinhança.
 
A campanha pela negociação de tratados de comércio mais ou menos livre é da Confederação Nacional da Indústria. A CNI passou a fazer pressão sobre o governo, neste ano em particular. Tem feito lobby nos EUA. Financia e alardeia estudos sobre os benefícios do comércio (mais) livre.
 
O pessoal da CNI está preocupado com o fato de que as economias centrais do planeta (e os periféricos anexos mais liberais) negociam tratados que vão deixar o Brasil de fora da rede mundial de comércio de partes e de montagem de produtos industriais, entre outros problemas.
 
É evidente que a indústria está dividida em pelo menos dois partidos, digamos assim.
 
O pessoal que quer mais abertura comercial não aparece muito. Isto é, setores mais interessados em menos impostos de importação e outras proteções ainda preferem não se identificar no palco desse debate. De resto, têm de lidar com um governo protecionista.
 
O pessoal que está mais preocupado com a contínua invasão chinesa é o da indústria química, petroquímica, siderúrgica, máquinas, eletroeletrônicos, os que utilizam mais mão de obra (têxteis, calçados), entre os mais vocais.
 
Além de pedir o encarecimento ainda maior de produtos importados e criar reservas de mercado para produtos nacionais, alguns setores empresariais mais extremados, digamos, reclamam até do modestíssimo aumento da taxa de juros do BNDES.
 
Na semana que passou, o governo anunciou aumentos das taxas de juros das várias modalidades do Programa de Sustentação do Investimento (o PSI).
 
A maioria das taxas continua abaixo de zero ou quase isso, em termos reais. Isto é, o juro é menor que a inflação. Na prática, o governo dá algum dinheiro para os empresários.
 
Está certo que o custo das empresas cresce bem, dada a nossa inflação relativamente mais alta (devido a nossos salários em alta, basicamente). É verdade que os impostos são altos (mas não aumentavam desde meados da década passada e, faz dois anos, caem para muita empresa). O câmbio estava hipervalorizado ("dólar barato", o que encarece nossos produtos), mas melhorou nos anos Dilma Rousseff. Sim, há "dumping". Sim, a infraestrutura ficou ainda pior.
 
Enfim, mesmo com tudo isso muita empresa exporta, e exporta até bens de alta complexidade.
 
Está ficando evidente que partes da indústria estão tomando rumos diferentes em termos de competitividade "real", preferências de integração mundial e ação política. Vai ser difícil contentar todas as partes.