Indústria se frustra com o novo prazo da negociação

Veículo: Valor Econômico

Seção: Brasil

Fonte: Rodrigo Pedroso

Cidade: São Paulo

 

O pedido da União Europeia de adiar para janeiro a entrega da proposta para o acordo de livre comércio com o Mercosul não deve causar grande estrago no andamento das negociações sobre o tema, mas causou insatisfação na indústria brasileira.

 
A atitude europeia mostrou que ainda não há consenso dentro do bloco sobre temas sensíveis, como os subsídios agrícolas, e diminuiu a expectativa dos empresários brasileiros sobre um arranjo que satisfaça também os sul-americanos. As propostas deveriam ser entregues na próxima semana.
 
Segundo o diretor de negociações internacionais da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Mario Marconini, o comissariado europeu tem mais dificuldades do que o Mercosul para criar consenso com os países membros do bloco. "Por isso não me surpreendeu que, na hora em que as propostas seriam entregues, o prazo tenha sido alongado. Isso revela que eles têm mais consultas internas a serem feitas e que ainda não estão totalmente fechados sobre uma proposta única", afirmou.
 
O adiamento, no entanto, coloca o lado sul-americano em compasso de espera para ver até onde os europeus estão dispostos a ceder. "Não é a primeira vez que vemos essa retirada dos europeus. De todo modo, o adiamento em um mês não traz grandes prejuízos", afirmou Marconini.
 
Pelo lado do Mercosul, o governo argentino conseguiu redigir a tempo uma proposta competitiva para ser integrada na proposta do bloco. Havia resistência por parte da Argentina em incluir setores industriais mais sensíveis e assim colocar no acordo perto de 90% dos produtos comercializados atualmente entre os dois blocos. Uma comitiva brasileira iria levar o documento do Mercosul aos europeus na próxima quarta-feira.
 
Presente no último fim de semana em Bali, na Indonésia, para acompanhar a rodada de negociação da Organização Mundial do Comércio (OMC), Marconini disse que havia otimismo nas conversas entre membros do governo brasileiro em relação à mudança de postura dos argentinos. O avanço dos vizinhos aconteceu no último mês, após trocas de secretários e ministros promovidas pela presidente da Argentina, Cristina Kirchner.
 
"A proposta argentina não atingiu a amplitude brasileira - perto de 90% dos produtos comercializados entre os dois blocos -, mas está bem competitiva. Ainda estão de fora setores sensíveis", disse, em referência a produtos ligados a máquinas industriais mecânicas e elétricas e equipamentos eletrônicos.
 
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) afirmou ter sido pega de surpresa com o pedido europeu de adiamento logo após o bloco sul-americano ter avançado na confecção de uma proposta única. "Ficamos bastante decepcionados. Achávamos que não estávamos preparados e os europeus estavam. Mostrou-se o contrário", afirmou Carlos Abijaodi, diretor de Desenvolvimento Industrial da confederação.
 
A CNI agora pede ao governo brasileiro que pressione a União Europeia para definir a nova data de entrega da proposta e para que sejam abertas novas frentes de negociação de acordos comerciais com outros países e blocos. A ampliação do atual acordo de comércio com o México, confinado ao setor automotivo, e o início de tratativas para negociações com os Estados Unidos e Canadá são iniciativas apoiadas pelos industriais.
 
Também gerou reclamação a postura dos europeus antes de pedir o adiamento sobre o acordo, em negociação desde 2004. O comissariado do bloco rechaçou, na última reunião realizada sobre o tema, a possibilidade de os países do Mercosul negociarem o acordo com listas separadas e cronogramas diferentes de implementação do que porventura viesse a ser negociado. O cenário estava sendo considerado pelo Brasil em função da resistência argentina em apresentar proposta.
 
Segundo o diretor da Fiesp, a UE, na negociação com o Pacto Andino - bloco que congrega Bolívia, Peru, Equador e Colômbia - abriu precedente sobre o tema ao utilizar a opção de negociações com listas separadas por países.
 
"Confesso que queremos o acordo, mas o outro lado terá que apresentar uma proposta muito razoável para avaliarmos se vale a pena ou não seguir em frente", disse Marconini.