Estudo inédito revela que homem brasileiro é mais baixo que roupas vendidas por grifes

Veículo: Folha de S.Paulo

Seção: Ilustrada

Fonte: Pedro Diniz e Guilherme Genestreti

Cidade: São Paulo

 

"O homem brasileiro não é 'tanquinho'. Tem barriga, é baixo, e seu peito e sua bunda são grandes. Ele é mais normal do que gostaria de ser."

 
A frase do gerente de inovação, estudos e pesquisas do Senai, Flávio Sabrá, oculta outra realidade: o mercado de moda masculina nacional também pensa que o brasileiro é diferente. Algumas das principais grifes nacionais não oferecem roupas condizentes com o tamanho do homem médio que vestem.
 
Baseada nos resultados parciais do estudo antropométrico realizado pelo Senai Cetiqt (Centro de Tecnologia da Indústria Química e Têxtil) e obtido com exclusividade, a reportagem visitou lojas de 11 marcas, no Rio e em São Paulo, e constatou que o desajuste médio entre corpo e vestimenta chega a 6 cm para mais na altura e 6 cm para menos no quadril.
 
As grifes testadas -Alexandre Herchcovitch, Conto Figueira, Crawford, Ellus, Noir Le Lis, Osklen, Reserva, Riachuelo, Richards, Sérgio K. e VR- foram escolhidas levando em conta relevância no mercado, diversidade de públicos-alvo e por terem modelagens distintas entre si.
 
O homem médio do Sudeste, de acordo com análise prévia, tem entre 1,72 m e 1,75 m. No teste da fita métrica feito com calças e camisas "slim", mais coladas ao corpo, nos tamanhos M e 40 das marcas, a soma é de quase 1,80 m.
 
O quadril das grifes é menor do que deveria ser. Enquanto elas trabalham com diâmetro de 94,5 cm, a média da pesquisa é de 100 cm.
 
DESAJUSTE MAIOR
 
Ao todo, o Senai mediu 1.806 homens em Minas Gerais, Rio e São Paulo. Quando forem tiradas medidas no Norte, no Nordeste e em parte do Sul, até julho de 2014, a média do desajuste da altura pode aumentar para até 8 cm.
 
"Em Manaus, o homem padrão mede cerca de 1,64 m. Já em Belém, 1,68 m", explica Sabrá, que há sete anos conduz o maior estudo do gênero já realizado no país.
 
Os homens citados por Sabrá, considerados baixos, representam 15,7% da população masculina. Os considerados altos, que medem mais de 1,81 m e encontram oferta ampla de roupas no mercado nacional, também correspondem a 15,7% do público.
 
Numa loja da grife Crawford, por exemplo, o vendedor passou 22 minutos até achar uma camisa no tamanho 38, que corresponde a um tamanho P na grade atual adotada pelo mercado.
"São as primeiras peças que desaparecem. Sempre sobram os tamanhos M e G", disse ele à reportagem, que não se identificou.
 
Numa filial da grife carioca Reserva, no Rio, um vendedor justificou a falta de uma camisa com modelagem menor afirmando que o "carioca gosta de roupa folgada, ao contrário dos paulistas".
 
Na loja da marca próxima à rua Oscar Freire, símbolo do consumo de alto padrão em São Paulo, o tamanho das peças M era similar ao do Rio. A oferta de camisetas pequenas, porém, era maior que no ponto carioca: havia uma arara só com esses modelos.
 
As camisas da Reserva, as calças da Osklen e as peças da Conto Figueira e da Sérgio K. tiveram algumas das menores medidas apuradas.
 
Bruno Passos, estilista da grife Conto Figueira, faz ressalvas à criação de uma tabela única a partir das medições. "Cada marca tem seu público-alvo e com suas medidas." O tamanho M da Conto, apesar de não ser tão grande quanto o das outras marcas pesquisadas, foi medido a partir do corpo do próprio dono (1,85 m).
 
MUDANÇA URGENTE
 
Segundo Flávio Sabrá, há na moda masculina um preconceito com o corpo real e uma relação esquizofrênica com a imagem de homem ideal vendida pelas marcas.
 
"Se as mulheres têm muita carne e não encontram roupas que caibam bem em seus corpos no tamanho G, os homens têm problemas similares no tamanho P", diz o pesquisador, que já trabalha com a Associação Brasileira de Normas Técnicas para normalizar a tabela de medidas do vestuário feminino.
 
Após reportagem da Folha em maio sobre o desajuste de medidas na moda feminina, a associação procurou o Senai para estabelecer nova tabela de referência.
 
Já há encomendas para normalização de medidas de vestuários masculino, terceira idade, obeso e infantil.
 
Alexandre Herchcovitch, João Pimenta e Sérgio K, de olho no mercado reprimido de baixinhos, já vendem peças PP, equivalente ao XS dos EUA e da Inglaterra.