Tratados com EUA e Europa elevariam as exportações do país em 121%, mostra estudo

Veículo: Valor Econômico

Seção: Economia

Fonte: Daniel Rittner

Cidade: Brasília

 

O mais abrangente estudo já feito no país sobre os impactos de uma grande zona transatlântica de livre comércio aponta “séria ameaça” à produção nacional como resultado de eventual tratado entre Estados Unidos e União Europeia.

 
A boa notícia é que, se impulsionar sua política comercial, o Brasil pode colher mais benefícios do que desvantagens em acordos semelhantes com americanos e europeus.
 
Por isso, a mensagem do estudo é clara: o governo brasileiro deve evitar o isolamento e apostar em negociações de liberalização do comércio com as duas maiores economias do planeta.
 
Um acordo comercial com os EUA e a UE pode render ao Brasil um aumento de 121% nas exportações a esses dois mercados, o que significaria US$ 91,5 bilhões a mais com base em valores de 2012, segundo estudo encomendado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) à Fundação Getulio Vargas (FGV-SP).
 
Por outro lado, o impacto potencial nas importações brasileiras de produtos americanos e europeus é de 34,9%, o que corresponderia a US$ 27,9 bilhões sobre os valores do ano passado.
 
Trata-se, portanto, de ganho nítido para a balança comercial brasileira. Na simulação, considera-se que 13 de 21 segmentos do agronegócio saem ganhando, com destaque para carnes, óleos vegetais, soja e café.
 
Na indústria, 8 de 21 setores também devem aumentar as exportações mais do que as importações, como derivados de petróleo e produtos de couro. Um grupo puxado por papel e celulose, produtos químicos, motores para veículos, máquinas e eletrônicos tende a ficar no prejuízo.
 
O diretor de desenvolvimento industrial da CNI, Carlos Abijaodi, acredita que não é problema o fato de nem todo mundo ter impactos positivos com a abertura comercial. E minimiza a maior concorrência com importados. “A sensação dos empresários é: o que tinha que entrar já entrou.”
 
O estudo prevê que, em um eventual acordo de livre comércio, haveria a derrubada de 50% das tarifas agrícolas dos EUA e da UE. O Brasil retiraria 50% de suas tarifas industriais, com uma liberalização completa de barreiras não tarifárias (técnicas e fitossanitárias), de lado a lado.
 
Apesar do reconhecimento de que muitos setores são ameaçados com a abertura comercial, o trabalho conclui que “a integração do Brasil com essas duas grandes economias é fundamental para a sobrevivência da indústria, em tempos de cadeias globais de valor”.
 
“A posição de isolamento do Brasil chegou ao limite e precisa ser repensada com urgência”, diz Vera Thorstensen, coordenadora do Centro do Comércio Global e Investimento da FGV-SP, uma das co-autoras do estudo.
 
Diante da falta de resultados palpáveis da Rodada Doha, lançada em 2001 e até hoje sem nenhum desfecho, ela lembra que a Organização Mundial do Comércio (OMC) tem se dedicado cada vez mais ao papel de arbitrar disputas internacionais.
 
“A consequência dessa crise é a multiplicação de acordos regionais. E, dos países significativos, o Brasil é o que menos fez acordos. Essas parcerias são entre países Sul-Sul e com baixo impacto comercial”, diz Vera.
 
Para Vera, que foi assessora econômica da missão brasileira em Genebra entre 1995 e 2010, as negociações EUA-UE podem definir parâmetros de novas regras no sistema de comércio em áreas como serviços, investimentos e propriedade intelectual.
 
Por isso, mesmo que os impactos de um tratado transatlântico possam até ser considerados baixos para o comércio exterior do Brasil, ele tem potencial para deixar o país com papel “secundário” na arena global e para afetar negativamente a competitividade nacional.
 
Nas simulações feitas por Vera e pelo professor Lucas Ferraz, que assina com ela o estudo, o Brasil verá suas exportações aos EUA e à UE reduzidas em US$ 3,8 bilhões caso assista parado ao fechamento de um acordo entre as maiores economias do planeta.
 
Trata-se de uma queda de 5% sobre as vendas para esses dois mercados. Enquanto isso, as importações tendem a diminuir US$ 3,1 bilhões, o equivalente a 4% das compras em 2012. “Os EUA podem preencher cotas hoje ocupadas pelo Brasil na União Europeia”, adverte Vera.
 
Ela cita três setores como exemplos: soja, suco de laranja e carnes. Mas os reflexos mais importantes podem ser vistos no nível de atividade da economia, que sente diretamente a perda de competitividade, com reduções no PIB setorial de até 15 entre 20 ramos do agronegócio e de até 14 entre 21 segmentos da indústria nacional.
 
De acordo com a pesquisadora, o estudo reforça a tese da CNI de que é preciso acelerar o acordo com a UE e abrir negociações com os EUA, mas não apenas com foco nas tarifas de importação.
 
“A nova agenda inclui barreiras não tarifárias e cláusulas de salvaguarda cambial”. O Mercosul se tornou uma “camisa de força” para atingir esses objetivos e “negociar como bloco não nos traz nenhum ganho relevante a mais”, diz Vera.
 
Abijaodi, da CNI, diz que a paralisia do Mercosul nos últimos anos provocou um amadurecimento da indústria brasileira e a convicção de que não é preciso ter todos os sócios do bloco abrindo seus mercados no mesmo ritmo.
 
“A gente respeita o Mercosul, acha que ele é importante, mas não suficiente. O próprio histórico do bloco já demonstrou não ser necessário ter todos juntos ao mesmo tempo.”