Música, discernimento e produtividade

Veículo: O Estado de S.Paulo

Seção: Economia

Fonte: José Pastore

 

Não é de hoje que os analistas observam a importância da música na elevação do desempenho na escola e no trabalho. Inúmeras pesquisas mostram uma correlação positiva entre esses fenômenos. Entretanto, correlação não é causação, o que tem suscitado dúvidas sobre tais estudos: a música eleva o discernimento ou os que optam pela música já tinham mais discernimento? Será que o bom desempenho escolar não é devido às condições familiares do aluno, e não à música?

 

Para responder a essas críticas, foi realizado um novo estudo em que os autores controlaram as interferências espúrias, para captar o efeito líquido da música no desempenho escolar e laboral (Adrian Hille e Jurgen Schupp, How learning a musical instrument affects the development of skills, Bonn: IZA, setembro de 2013). Eles usaram dados preciosos do Painel Socioeconômico da Alemanha que permitiram acompanhar a vida dos alunos de música dos 8 aos 17 anos e medir o seu desempenho em várias áreas. Cito suas principais conclusões:
 
A aprendizagem da música estimula reações no cérebro que aceleram o desenvolvimento de habilidades cognitivas e emocionais, que, por sua vez, facilitam a aprendizagem de conhecimentos estratégicos para o sucesso na escola e no trabalho.
 
Quando praticada em orquestra ou conjunto de câmara, a música contribui para o desenvolvimento de atitudes de respeito às pessoas e às diversidades e fortalece a capacidade para trabalhar em grupo, o que é muito importante para a empresa moderna.
 
A aprendizagem de um instrumento concorre para o uso mais eficiente do tempo, o que eleva a disciplina e o aproveitamento no estudo e maior produtividade no trabalho.
 
É isso. Não há dúvida. A prática de um instrumento musical potencializa a combinação da razão com a emoção. A estrutura de uma partitura é obra matemática. Tudo tem de ser executado com a mais absoluta precisão e, quando em conjunto, os instrumentos conversam entre si com o mesmo rigor. Trata-se de um emaranhado de regras que estimulam a acuidade. Para completar, a música cultiva o belo nos limites da sensibilidade humana. Cada nota tem de ser trabalhada de forma a agradar a quem toca e a quem ouve. Isso faz desenvolver o gosto pela harmonia em tudo o que se faz na própria vida.
 
Está aí o benefício da música para as pessoas e para a economia. Não é à toa que um dos mais altos níveis de produtividade no trabalho é encontrado na Alemanha - país que cultiva a música, seriamente, há muitos séculos.
 
O Brasil também é uma nação musical. Produzimos belas obras, eruditas e populares. Os brasileiros adoram música. Os concertos levados a céu aberto contam com a máxima atenção do grande público. É pena que, durante muito tempo, os currículos escolares eliminaram as atividades musicais que havia no meu tempo de escola, em especial o canto orfeônico. Sei que a música voltou aos currículos, mas, em decorrência do descaso anterior, o Brasil se ressente da falta de professores nesse campo.
 
Mas nem por isso a música saiu da vida dos brasileiros. Ao contrário, é imensa a quantidade de orquestras sinfônicas, conjuntos de câmara e movimentos musicais que surgem entre nós, todos revelando ricos talentos. Por exemplo, o Prelúdio, programa de calouros da TV Cultura de São Paulo, tem filas de candidatos - um melhor do que o outro. O Instituto Baccarelli, a Orquestra Heliópolis, o Mozarteum Brasileiro, o Projeto Guri e tantos outros são exemplos de movimentos que refletem a vontade dos brasileiros para aprender a tocar instrumentos e compor músicas. E não é só em São Paulo. Em todas as regiões do País se multiplicam os movimentos desse tipo e o número de empresas que apoiam a música como parte da sua responsabilidade social.
 
Se a música tem tudo isso que a referida pesquisa comprovou, é hora de apoiarmos os movimentos existentes e estimular a criação de outros. Isso é bom para os brasileiros e para o Brasil.