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O que está acontecendo com o setor confeccionista brasileiro?

Veículo: Revista Custura Perfeita

Seção: Notícias

Enquanto as vendas no varejo de vestuário crescem, a produção nacional cai. Grandes empresas veem-se na corda bamba para manter seus negócios enquanto o setor clama por socorro. Afinal, o que está acontecendo com a indústria de confecção no Brasil?

Quando a maioria das pessoas acorda, as duas primeiras perguntas que fazem a si mesmas geralmente são: “O que vou vestir?” e “O que vou comer?”. Partindo desse princípio, depois de se alimentar, como prioridade básica do ser humano, cobrir e proteger o corpo é um dos pontos mais importantes. E isso hoje não seria possível sem o desenvolvimento do setor têxtil e confeccionista.

No Brasil, esse setor centenário, que faz parte da história de desenvolvimento e crescimento do país, é um dos maiores geradores de empregos - são cerca de 1,7 milhão de postos de trabalho diretos e 8 milhões indiretos, sendo 75% mão de obra feminina - atrás apenas do setor de alimentos e bebidas e quarto maior produtor mundial de vestuário. Se é tão expressivo assim em geração de empregos e renda familiar, por que, então, vem sendo minado dentro da própria casa? Os motivos são muitos, e alguns são efetivos para o massacre que o setor produtivo de confecção vem sofrendo no Brasil.

“Está para vir uma hecatombe aí para a frente: está em jogo uma enorme quantidade de empregos. Neste momento, o país vive uma fase de pleno emprego em outros setores, e talvez por isso o governo não dê muito crédito ao que falamos. Numa visão macro, o governo está “se lixando”, porque alguns saem do emprego num lugar e migram para outro. Está vendo a curto prazo, de olho em 2014, focado nas eleições. O governo quer resolver o problema dele em se reeleger, depois é que vai pensar no que fazer com os problemas do país, se ganhar. Lamento informar ao governo que ele terá problemas antes das eleições em 2014, porque a situação chegou a um ponto praticamente insustentável. Eu sempre digo: as empresas não morrem, quem morre são os empregos. Quero ver, se nossa indústria desaparecer, como o governo vai empregar esse mundaréu de gente rapidamente”, diz Ronald Masijah, empresário dono da Darling Lingerie e presidente do Sinpestuário.

A situação é realmente alarmante, mas parece que tanto o governo quanto alguns empresários ainda não se deram conta. Tanto que as importações de vestuário para abastecer o varejo não param de crescer, pois as portas estão escancaradas. Sem critérios, as autoridades pouco entendem ou querem entender o que realmente se passa, as empresas tentando sobreviver trazendo produtos mais baratos de fora, sem as obrigações trabalhistas e os altos custos daqui, sem custo de insumos, impostos sobre a produção e, por outro lado, os consumidores que não se importam se a roupa é feita aqui ou em qualquer outro lugar, da forma que for, ou tirando empregos em seu país, só olham para o preço final. “O consumidor brasileiro é obtuso, não enxerga esses detalhes. Um norte-americano não age assim”, acrescenta Masijah. Inclusive, quando soube que os uniformes que a equipe olímpica americana usaria na abertura das Olimpíadas 2012, em Londres, desenhados pelo estilista Ralph Lauren, haviam sido fabricados na China, o senador democrata Harry Reid sugeriu que fossem queimados, envergonhando o Comitê Olímpico de seu país por ter deixado que tal situação acontecesse enquanto a indústria têxtil americana busca uma revitalização. Até o país mais desenvolvido do mundo entendeu que precisa se reindustrializar, em todos os sentidos, gerando emprego dentro de seu próprio território. Um exemplo que o Brasil poderia tomar para si.

Na verdade, é até vergonhoso falar sobre um absurdo desses, mas como um país que vai sediar a Copa do Mundo em 2014 permite que a CBF fabrique as bandeiras nacionais fora dele, na China? É inconcebível. A oportunidade de geração de vários empregos foi, literalmente, jogada para escanteio. Não só pelas bandeiras, mas por todos os artigos de vestuário que poderiam muito bem ter sido feitos aqui e que os grandes magazines, há alguns anos, já encomendaram lá fora. Para Masijah, a tendência hoje das empresas é fechar suas unidades produtivas industriais e se limitar a uma “salinha”, onde desenvolvem o produto e mandam fazer na China, Bangladesh, Europa Oriental, Mercosul, para somente revender aqui. “Isso fez com que perdêssemos economia de escala, porque a empresa fica na dependência das importações ou daquelas pequenas empresas que fazem o serviço terceirizado. Você perde o controle de qualidade, pois não tem mais a produção sob seus olhos, e quem entende um pouquinho do assunto sabe que a economia de escala gera barateamento de produto”, afirma.

Como chegamos a esse ponto? Ronald Masijah responde: “Porque os governos não acreditaram no que vimos falando há muito tempo. Porque não somos intensivos em capital, a confecção não tem dinheiro a oferecer, sua força é o emprego. E, como o país está em pleno emprego, no geral não conseguimos seduzir o governo. Já propusemos muitas coisas a ele, coisas que devem estar empoeiradas em cima da mesa de alguém. Conversamos diretamente com a presidenta Dilma e com o ministro Guido Mantega, que mostraram certa preocupação, mas o interesse do MDIC beira o zero. Por algum motivo, as coisas não caminham”.

ANÁLISE ECONÔMICA E POLÍTICA

De acordo com Marcelo De Ávila, economista da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a indústria no geral, em todos os setores, vem perdendo sua porcentagem sobre o PIB. Em 2012, foi de 26,3% e a previsão para 2013 é fechar em 26%, o que se traduz em queda de produção. “Na análise do terceiro trimestre deste ano, a caga tributária foi o principal entrave para o crescimento da indústria no país, com 61,5% de responsabilidade, seguida da competição acirrada no mercado (36,4%), do alto custo de matéria-prima (35%) e da taxa de juros elevada (19,3%).

Fernando Pimentel, superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), diz que a entidade possui uma visão de que o setor têxtil e confeccionista é portador de futuro no Brasil, contanto que ações sejam tomadas com urgência, e que tem observado países desenvolvidos, como os EUA, atraindo indústrias de persos setores manufatureiros, inclusive têxtil. “O Brasil ficou um país muito caro, mais ainda com a apreciação do câmbio, impostos, investimentos em infraestrutura que estão começando a deslanchar, mas ainda não trouxeram resultados expressivos. Todos esses pesos trouxeram uma perda sistêmica de competitividade, muito agravada pelo câmbio de um lado e pela arena internacional de outro, pelo fato de o mundo ter parado de crescer nos últimos cinco anos, gerando excedentes produtivos. Então, o momento atual da indústria têxtil e de confecção brasileira é ruim, pois o varejo está crescendo e ela está regredindo”, afirma Pimentel.

Focando na área de confecção, o professor de economia do Centro Universitário Ítalo Brasileiro (UniÍtalo) e economista do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP), Haroldo Silva, fez uma análise do momento pelo qual o setor passa, sob persos ângulos. Um deles é a queda de produção em 2013 frente a 2012, que ficou em 2,5% entre janeiro e setembro, e mais grave ainda é o resultado de setembro deste ano, comparado ao mesmo mês do ano passado, quando o vestuário recuou 8,26%, embora o têxtil tenha aumentado 2,4%, segundo dados do IBGE. “Vale registrar que o setor de confecção já vem sofrendo há muitos anos. Com ajuste sazonal e tendo como base a média produzida em 2002, o volume de vestuário fabricado no Brasil em setembro de 2013 é 34,9% inferior ao que foi no segundo ano da década passada. Enquanto isso, a indústria de transformação, como um todo, produziu 26% a mais diante dos mesmos parâmetros de comparação, dando o tom da desindustrialização do setor nos últimos anos”, ressalta Haroldo.

Esse processo delicado começou em 2008, com a quebra da economia americana, mas, na virada do primeiro semestre de 2009, a indústria de confecção começou a reagir bem, porém, segundo Fernando Pimentel, houve um erro por parte de nossa política governamental. “Os juros teriam de ter ficado mais baixos e o câmbio mais depreciado, o que não aconteceu. Chegamos a prever um câmbio de R$ 1,50, o que seria uma desgraça completa enquanto outros países estavam com sua moeda depreciada, principalmente o maior produtor e exportador mundial, que é a China”, aponta Pimentel.

Hoje, apesar de o câmbio estar mais equilibrado, os juros voltaram a subir, o que anula seu efeito para o setor. “Há um desequilíbrio, que já está cansando. Quando conseguimos estabilizar razoavelmente a moeda, temos uma inflação muito alta, e só não é maior porque temos preços represados. Os juros estão a quase 10%, e deveria ser o contrário, até porque os EUA estão praticando juros ridiculamente baixos, entre 0% e 0,5%, assim como Japão e União Europeia, com menos de 1%, e nós, na contramão do mundo, estamos subindo os juros, ou seja: tem alguma coisa errada nesse modelo de política econômica brasileira”, analisa Pimentel. Para ele, o aceitável seriam juros entre 4% e 5% com um câmbio de R$ 2,50, claro que não de uma hora para outra, pois poderia causar pressões inflacionárias indesejáveis. “Esse arranjo está desequilibrado e precisamos de um com medidas que nos orientem para o futuro, não que comecem hoje e acabem amanhã. A realidade é: as medidas são tomadas com um prazo de validade curto, o que dificulta um planejamento de custos e precificação adequados. Estou no setor têxtil há mais de 35 anos, já vi muitas coisas, mas o fato é que temos um momento importante para dar um salto de desenvolvimento, e não ficar presos na armadilha da renda média”, diz.

Para Haroldo Silva, se quisermos que o país escape da “armadilha da renda média”, precisamos ter uma indústria relevante, que seja capaz de contribuir com 20% ou mais do PIB, o que nos levaria a ampliar a renda per capita de cerca de US$ 10 mil para US$ 20 mil. No entanto, além do câmbio e das importações, outros fatores têm tirado a competitividade sistêmica da indústria nacional e, no caso da confecção, o ponto que mais o sobrecarrega é o custo da mão de obra, que subiu muito acima da inflação sem ser acompanhado de mais produtividade. “Estudo recente no qual estive envolvido mostrou, com dados da Pesquisa Industrial Anual do IBGE em 2011, que a confecção tem 27% de seus custos e despesas totais apenas com o pagamento de salários do pessoal ocupado na produção. Na indústria de transformação em geral esse número é de 14%”, ressalta Haroldo.

Ou seja: o setor que é o segundo maior empregador da indústria de transformação no Brasil, sofre mais exatamente por ser intensivo em mão de obra, um dos custos que mais têm subido na atual conjuntura, que tem taxas de desemprego muito baixas para os padrões históricos nacionais, em torno de 5,5% da população economicamente ativa. “Portanto, queda profunda na produção acompanhada de custos e assimetria de condições favoráveis à importação de bens acabados, como o vestuário, estão sim levando à desindustrialização desse setor mais precocemente do que outros”, avalia Haroldo.

Outros grandes pesos pesados que assolam o setor são o chamado custo Brasil e, sem dúvida, a carga tributária. Sobre o primeiro item, Haroldo diz que o Banco Mundial apontou que uma empresa brasileira gasta, em média, 2.600 horas só para pagar tributos, e não há nada comparado em termos mundiais. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) fez outro levantamento chamado Índice de Competitividade das Nações e notou que o Brasil está na 37a posição entre as 43 economias avaliadas, perdendo para todos os outros países do Bric, exceto Índia. Diz Haroldo: “Temos, por exemplo, juros para as empresas seis vezes superior à média geral dos países que compuseram o levantamento - 38% ao ano no Brasil contra 10% em países com renda per capita semelhante. Isso sem falar do baixo nível de escolaridade e da qualidade da educação de base no país, que é, sem dúvida, refletida em baixa produtividade do trabalho no Brasil”. Ainda sob sua ótica, o setor têxtil e de confecção carrega, além dos 17% de tributos federais, outros 18% de tributos estaduais, diferenciados dependendo do tamanho da empresa e de seu modelo de negócios, já que no Brasil ainda há tributação cumulativa, pois, uma vez que empresas que estão enquadradas no Simples Nacional não dão direito ao crédito, também não podem se apoderar dele. “Nota-se, portanto, que esse é, indubitavelmente, um dos grandes obstáculos ao crescimento das empresas de confecção.”

Marcelo Villin Prado, diretor do Instituto de Estudos e Marketing Industrial (Iemi), diz que o baixo desempenho de crescimento tem afetado especialmente as pequenas e médias confecções - a grande maioria das empresas no Brasil - e que as grandes confecções vêm expandindo sua participação no mercado adotando novas estratégias de produção e comercialização.

IMPORTAÇÕES

Esse é, sem dúvida, um fator preponderante para a atual circunstância do setor confeccionista brasileiro. E de duas mãos: enquanto países como China, Índia e Bangladesh, entre outros, atacam com a força que têm para conquistar mercados, a política brasileira de comércio exterior permite que essa situação ganhe força por aqui, não limitando sua entrada e, ainda pior, não dando condições de a indústria nacional competir de forma congruente.

Grandes centros produtores e comerciais de vestuário que abastecem todo o país, como Brás e Bom Retiro, em São Paulo (SP), também estão vendo a mudança em seu dia a dia. Com cerca de 5 mil lojas, o bairro do Brás possui 50% de confecções com marca própria e 50% de revendedores. Jean Makdissi Jr., conselheiro-executivo da Associação de Lojistas do Brás (Alobrás), estima que, entre os revendedores, 30% realizem algum tipo de importação ou revenda de produtos importados. “A ineficiência, a burocracia e os encargos brasileiros aumentam e muito o custo do produto nacional, tornando o importado competitivo. Não há empresário que não prefira comprar a produzir internamente se ele tiver condições de que seu produto se torne competitivo”, afirma Makdissi.

No Bom Retiro, que possui 1.600 lojas de vestuário, 1.400 delas de fabricação própria, a situação não é tão diferente, apesar de a Câmara de Dirigentes Lojistas do Bom Retiro (CDL Bom Retiro), entidade oficial dos lojistas do bairro, não possuir dados sobre as importações na região. Mas as araras falam por si. Na opinião de Nelson Tranquez Jr., diretor de eventos da CDL Bom Retiro, grande parte dos confeccionistas tem dado preferência ao produto importado basicamente pelo preço. “Com a carga tributária que temos no Brasil, não há como competir. E isso faz com que a indústria nacional de confecção, que emprega muita mão de obra, sofra a cada dia para manter sua atividade”, diz.

Fernando Pimentel, da Abit, diz que, principalmente nos últimos quatro anos, o setor de confecção brasileiro tem sofrido um ataque frontal das importações, especialmente da China e de Bangladesh, “que não operam nem de longe com marcos legais nas áreas trabalhista, ambiental, previdenciária e social compatíveis com os nossos. Além disso, países como a China, por seu tamanho e importância, praticaram e ainda praticam o dumping cambial de forma absurda e concedem subsídios às suas empresas, principalmente àquelas que operam numa zona de sombra, estatal ou privada. A economia chinesa tem se movimentado para o lado mais privado, mas o peso do Estado é brutal e ninguém sabe muito bem o que acontece lá, essa é a verdade. As pessoas supõem: alguns têm um pouco mais de informação e outros menos. Agora, todas essas questões foram maximizadas de modo negativo para nossa indústria têxtil e de confecção também em função da crise mundial. O mundo passou a ter grandes excedentes produtivos que, por sua vez, procuravam mercados para onde escoar, e o Brasil, a despeito dos problemas que enfrenta, é um país que vem aumentando seu mercado de consumo, tanto que foi escolhido pela segunda ou terceira vez como o mercado emergente mais relevante e com o maior potencial de desenvolvimento dessa atividade entre mais de 30 nações diferentes”, explana Pimentel.

Segundo o superintendente da Abit, em 2010 o varejo cresceu enormemente, quase 11% em termos reais. Em 2011, passou para 3,7% e manteve esse patamar em 2012. Em 2013, deve ficar entre 3% e 3,5%. Para ele, é importante que o varejo continue a crescer apesar do ritmo menor, em decorrência do enpidamento das famílias. “Acreditamos que o país voltando a crescer de 4% a 5% ao ano, caminhando para dobrar sua renda per capita em 15 anos, que é um target bastante desejável e possível desde que tenhamos juízo e políticas públicas adequadas, nosso consumo pode dobrar. Hoje, consumimos 1,2 milhão de toneladas de vestuário e podemos pular para 2,6 ou facilmente chegar a 3 milhões de toneladas nos próximos 15 anos, desde que o país cresça.” Ele diz que isso abre uma gama de oportunidades extremamente relevantes, porém, o problema é que esse consumo vem sendo atendido pelo produto importado.

Ildemar Ribes Silva, diretor da Ribes Gestão Fabril e Sourcing, que trabalha com representação comercial, gestão fabril e sourcing em linha casual e esportiva de vestuário para grandes magazines nacionais, vê como oportunista a compra realizada por esses mesmos magazines no mercado asiático. “É um mercado com trabalho escravo, onde o governo subsidia os fabricantes, a moeda chinesa é desvalorizada artificialmente e os custos com energia elétrica e logística são menores que aqui. Os produtos são de qualidade, mas não há controle das condições em que são feitos na origem, enquanto aqui no Brasil esses mesmos magazines exigem de seus fornecedores nacionais a certificação da ABVTEX”, considera Ribes. Segundo ele, os principais exportadores de vestuário para o Brasil atualmente são China (Hong Kong), Índia, Paquistão, Bangladesh, Laos, Vietnã e Tailândia, e o ciclo entre desenvolver o produto, efetuar a compra, sua produção e logística de entrega gira em torno de seis a oito meses.

Procurados pela equipe de Costura Perfeita para falar sobre o que os leva hoje a ter mais produtos importados em suas lojas frente aos nacionais, os principais magazines de vestuário no Brasil, como Renner, Riachuelo, C&A e Marisa, não quiseram responder a entrevista.

Pimentel conta que, nos últimos dez anos, o Brasil aumentou 22 vezes a quantidade de produtos importados em vestuário e que não há, por parte da Abit, uma visão xenófoba ou autárquica de fechar o país, mas acha que o Brasil tem de se integrar à cadeia produtiva mundial. “No entanto, para integrar e jogar o jogo de forma objetiva e correta com os trabalhadores e empresários, precisam ser criadas melhores condições. Condições perfeitas não existem, mas estamos sempre em busca de uma alternativa melhor e mais adequada”, afirma Pimentel.

Para ele, há uma grande hipocrisia em permitir a abertura do mercado a países que usam modos de fabricação absolutamente distintos dos que exigimos e queremos dentro de nosso próprio país. “Aqui você pune o empresário, mas aceita importar escravidão?”, indaga ele. “Esse produto importado gira porque tem quem compre, e nossa maior forma de protesto é não comprá-lo. É uma campanha real, pois senão amanhã a indústria têxtil e confeccionista pode deixar de existir. Só não deixará porque essa é a missão fundamental da Abit, apesar de reconhecermos que o momento é delicado, complicado e o empresário que investe, produz e corre riscos está cansado, pois está há cinco anos apanhando direto”, salienta.

De acordo com a Abit, o Brasil deve fechar 2013 com importações de têxteis e confeccionados na ordem de US$ 7 bilhões e exportações em torno de US$ 1,5 bilhão, um déficit de US$ 5,5 bilhões na balança comercial.

Segundo análise do Iemi, os segmentos um pouco menos afetados com o baixo crescimento do mercado e com as importações são jeanswear, lingerie e infantil, e que eles serão os primeiros a melhorar seus números em 2014.

A VOZ DAS CONFECÇÕES

Empreendedor e inovador, Luis Rossier começou precocemente a trilhar seu caminho entre tecidos e linhas. Com apenas 16 anos, já dava aulas de modelagem e desenho de moda na Argentina, sua terra natal. Veio ao Brasil pela primeira vez aos 19 anos, para trabalhar na extinta Manchete, no Rio de Janeiro (RJ), nos idos de 1960, e, poucos anos depois, abriu sua primeira confecção, fazendo prêt-à-porter e alfaiataria. Nos anos 1970, montou a Crazy Shirt, já pensando no formato de franchising. Nos anos 1980, teve várias outras empresas, trabalhou para Ralph Lauren, teve um estúdio de design gráfico e de produto, consultoria de empresa, e hoje é dono da Martinnegra, confecção de moda jovem especializada em camisas polo de alta qualidade, produzindo 60 mil peças/mês.

O empresário diz que sempre foi otimista, mas, para ele, o atual cenário do setor confeccionista brasileiro está uma incógnita. “A indústria está à beira do precipício, tendo de persificar seu produto para se manter. Nos últimos anos, as vendas caíram 50% e tivemos de reduzir o quadro de 350 para 200 funcionários. Mesmo se eu baixar os custos das peças fazendo um produto inferior, ainda não consigo competir em preço com os importados. O grande problema são os impostos para sustentar essa máquina corrupta. A realidade do mercado brasileiro é uma piada. Falta união dos empresários, aqui só pensam no ‘salve-se quem puder’”, desabafa Rossier.

Kleber de Jesus Duarte, dono da Tutti i Colori, confecção capixaba de moda infantil, fez um pit stop em seu percurso para repensar que caminho seguir. “Nossa empresa sempre foi voltada ao desenvolvimento de produtos com grande diferencial criativo, porém, apesar disso e da importância que esse modelo representa para a empresa, por si só ele não é suficiente para se manter no mercado e alçar voos maiores. E isso não quer dizer necessariamente crescer. Mais do que isso, é estar alinhado em todos os sentidos, fortalecendo a estrutura da empresa. O modelo de negócios tem de estar sempre sendo repensado, como canais de distribuição, novas linhas de produto, estratégias comercial e de marketing, investimentos e capital de giro, modernização, entre outros. No caso de nossa empresa, optamos por reduzir seu tamanho e direcionar as vendas para lojas próprias. Outra decisão que está sendo ajustada é oferecer a marca, que tem 20 anos de mercado e um excelente conceito, a outras empresas, em forma de concessão e direito de uso”, revela Kleber.

Outra grande empresa conceituada no setor infantil, a Dedeka, que está há 23 anos no mercado, também tem sentido o impacto da crise no setor, especialmente com as importações. “Não me refiro apenas às grandes importações, que vêm dentro de contêiners, mas também às que vêm pelas malas dos turistas e sites de compras”, diz Sérgio Moacir da Rosa, diretor da Dedeka, que tem sua base em Caxias do Sul (RS). “Outro ponto é o apagão da mão de obra, o que não é uma peculiaridade apenas de nosso segmento. Sobre esse item, percebo a necessidade de serem revistos alguns critérios sociais, uma vez que o país vive um momento de pleno emprego”, sugere Sérgio. Para sobreviver a essa fase, a empresa vem constantemente investindo em pesquisas para renovar seus produtos e surpreender seu público, além de prestar um bom atendimento e suporte aos clientes, seja ele lojista ou consumidor, e oferecer um ambiente de trabalho agradável. “O resultado disso é que a empresa teve um crescimento de 12% em peças no primeiro semestre deste ano e deve fechar 2013 com um acréscimo de 23%”, destaca o empresário.

A Líquido, grife paulistana que está há dez anos no mercado de moda praia, fitness e casual, além de sofrer com as importações e falta de mão de obra qualificada, destaca a concorrência desleal com empresas que agem de maneira irregular, vendendo produtos subfaturados. Para se manter e se diferenciar no mercado, vem lançando uma maior variedade de produtos com alta tecnologia em tecidos e custos competitivos, como revela Naim Marof Hassan, sócio-administrador da Líquido.

A Darling, que se destaca no setor de lingerie nacional, vem investindo pesado em desenvolvimento de produto, lançando de oito a nove coleções ao ano, com modelos e cores diferentes, ou seja, praticamente uma coleção a cada 40 dias. “Esse talvez seja o principal investimento das confecções frente à concorrência externa. Já que não dá para competir com preço, tem de competir com design e inovação. Isso significa um custo estúpido, sendo que em algumas coisas acertamos e em outras nem tanto, e algumas empresas, do exterior ou daqui mesmo, só copiam o que acertamos, porém sem esse custo de desenvolvimento de produto com o qual arcamos”, diz Ronald Masijah.

MÁQUINAS TAMBÉM SOFREM

Com a queda da produção no vestuário, o reflexo dá-se também no setor de máquinas de costura no Brasil, como revela Silvio da Paz, diretor-presidente da Silmaq, uma das maiores revendas de máquinas de costura no país. Segundo ele, as importadoras desses equipamentos vêm sofrendo muito nos últimos anos e, consequentemente, as revendas também. “Como reflexo da crise, veem-se alguns dos grandes importadores fechando as portas e muitos pequenos revendedores encerrando as atividades. Isso é uma demonstração clara do quanto o setor de confecção e vestuário vem sofrendo”, declara Silvio, que destaca a região Nordeste como a mais afetada. Como alternativa, a Silmaq investiu em novas linhas de equipamentos, como os de impressão digital, serigrafia e corte automático, para manter seu faturamento. “Já estamos colhendo frutos e esperamos crescer muito nesses segmentos”, afirma Silvio.

Outro ponto fundamental que ele destaca é que os fabricantes asiáticos que concorrem com nossas fábricas não utilizam equipamentos de segunda linha, e sim o que há de mais moderno em tecnologia, sendo essa uma das razões para conseguirem produzir mais barato que no Brasil. “Investimento em bom equipamento faz-se uma vez, funcionários pagam-se todo mês. O setor de confecção precisa é de investimentos reais e de qualidade”, sentencia.

A Andrade Máquinas, outra empresa de destaque no setor, acredita que 2013 está sendo um ano de transformações e adaptações. “Não podemos negar que, por causa do aumento das importações de roupas, alguns setores estão prejudicados. Há muito tempo não se fabrica uma jaqueta no Brasil, pois perdemos a competitividade. Também a indústria calçadista vem mudando o foco pelo mesmo motivo. As empresas precisam se especializar e explorar nichos específicos de mercado para atingir melhores resultados”, comenta Conceição Rüíz, responsável pelo setor de vendas e marketing da Andrade Máquinas.

O presidente da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos para Confecção (Abramaco), Mauro Andrada, concorda que a venda de maquinário para confecção teve uma queda, apesar de o setor estar o tempo todo buscando novas tecnologias. “A questão é que o governo está fazendo o trabalho inverso: no lugar de fortalecer a nossa indústria e dar condições para que exportemos nossas marcas, com a qualidade e estilo que temos, fica estimulando a importação. Temos de ter campanhas de dentro para fora, porque de fora para dentro já estamos saturados”, diz Andada.

INSEGURANÇA JURÍDICA

Não bastassem os motivos já mencionados, outro que atravanca o desenvolvimento e o planejamento, não só do setor confeccionista, mas de todo o país, é a insegurança jurídica, um grande problema a ser enfrentado, como destaca o economista Haroldo Silva. “Ficou famosa a frase de que até o passado é incerto no Brasil. E, lamentavelmente, é. Vejamos o caso da multa adicional de 10% sobre o FGTS, que serviria para cobrir as perdas sofridas por ocasião de planos econômicos do século passado. Ela deveria já ter sido extinta, segundo a própria lei que a introduziu. Mas não foi, e agora o Executivo quer perpetrá-la, um verdadeiro absurdo jurídico e mais ainda econômico. Outra questão: o Brasil introduziu, acertadamente, o Refis (mecanismo que devolve 3% de tributos embutidos no processo produtivo e que recaem sobre bens exportados). Empresas exportadoras, nesse momento, não têm como calcular seus preços de venda no exterior, pois não sabem se esse programa será renovado em 2014. Diariamente novas normas são criadas em todas as esferas, e esses exemplos ilustram bem a dificuldade que as empresas têm para se adaptar ao hostil ambiente jurídico mutante brasileiro”, mostra o economista.

AÇÕES DOS SINDICATOS E FEDERAÇÕES

Federações e sindicatos de todo o país também vêm se mobilizando para que a situação do setor confeccionista mude. A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), por exemplo, por meio do Senai Moda Design, está auxiliando as indústrias cariocas a melhorar seu posicionamento no mercado nacional e até internacional, como o Polo de Moda Íntima, por meio de capacitação e formação de mão de obra, desenvolvimento de projetos, ações institucionais e estímulo ao design e ao comércio, explorando características regionais como o ambiente tropical e praiano.

“O estado do Rio de Janeiro perdeu postos de trabalho no setor em parte devido à tragédia das chuvas em 2011, que arrasaram, por exemplo, empresas do segmento de moda na região serrana, mas, apesar disso, conseguiu posicionamento de nicho e design relevantes”, afirma Antonio Berenguer, empresário e representante do setor de moda na diretoria do Sistema Firjan. Criado há mais de dez anos, o Senai Moda Design conta com o Fórum de Moda, um grupo estratégico empresarial para discutir o setor, construir propostas e definir focos estratégicos, como a marca Cria Rio!; o Giro Moda, que leva tendências internacionais a empresários do interior do estado; o Giro Grupo de Estudos; consultorias, workshops e missões empresariais. A Firjan também tem levado 13 polos de moda de todo o estado aos salões de negócios, como o Salão Bossa Nova.

Victor Misquey, presidente do Moda Rio Sindiroupas e conselheiro da Firjan, diz que as confecções cariocas vêm diminuindo seu quadro de funcionários e aumentando a terceirização da produção, principalmente para empresas do interior de Minas Gerais, e outros vêm virando microempreendedores. E é nesse nicho que o sindicato aposta. “Vamos passar a aceitar empresas com até dez empregados em nosso quadro de associados para dar todo o suporte necessário. Estamos buscando formalizar gratuitamente as pequenas empresas e apoiando as maiores em feiras e eventos. Estaremos no início de 2014 com uma parceria com o Senai/Cetiqt para formar mão de obra dentro das empresas associadas, de forma gratuita, entre outros serviços. Quem desejar participar do projeto é só entrar em contato com o Moda Rio”, afirma Misquey.

São Paulo, o grande centro da moda nacional, vem recebendo a instalação de grandes players globais do vestuário, de olho em seu mercado consumidor. “O efeito disso é a redução da produção, que foi de 15% a 20%, sendo São Paulo o estado mais afetado. Isso pode se tornar irreversível e matar toda a cadeia de suprimentos”, revela Alfredo Emilio Bonduki, presidente do Sinditêxtil-SP. O sindicato, junto à Abit, tem intensificado os pedidos de redução de impostos junto ao governo, já que a ação das salvaguardas pedindo a revisão de cotas de importação durante mais três anos para o setor se recuperar foi rejeitada pelo governo federal.

Em Santa Catarina, o principal segmento afetado pelas importações foi o de cama, mesa e banho, que hoje responde por apenas 8% da produção local, e foi agravado nos últimos dois anos pelas restrições na Argentina. Segundo Ulrich Kuhn, presidente do Sindicato das Indústrias de Fiação, Tecel



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